Os tesouros preservados de um Afeganistão cosmopolita

Exposição em Londres reúne artefatos salvos da fúria do Talibã. E eles ilustram os tempos em que o país ainda era um ponto de encontro de diferentes culturas

Por Giancarlo Lepiani, de Londres - 21 jun 2011, 08h20

Seis meses antes de ganhar notoriedade internacional por abrigar Osama bin Laden, mandante do maior ataque terrorista da história, a milícia Talibã exibiu ao mundo um cartão de visitas de sua bárbara ideologia ao destruir o mais notável patrimônio cultural do Afeganistão. Em março de 2001, por ordem do mulá Mohammed Omar, a tropa de fanáticos que controlava o país desde 1996 dinamitou as extraordinárias estátuas gigantes de Buda talhadas em nichos abertos nas montanhas de Bamiyan. O mulá disse que as figuras de ídolos eram proibidas sob o regime talibã – que enxergava crimes graves contra a lei islâmica em atos corriqueiros como assistir televisão, ouvir música, usar maquiagem e empinar pipas. Veio o 11 de Setembro, e a demolição das estátuas foi quase esquecida – a derrocada das torres do World Trade Center tornou-se um símbolo muito mais inequívoco do que o fanatismo dos talibãs e de seus aliados da rede Al Qaeda era capaz de provocar. Permaneceu apenas a imagem de um país empacado nos tempos medievais, totalmente fechado para o resto do mundo, mergulhado numa doutrina implacável baseada no fundamentalismo religioso. Os afegãos eram os homens das cavernas em pleno século XXI.

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Dez anos depois, o país continua distante de realizar a transição definitiva para o mundo contemporâneo. Ainda atolado na guerra, o Afeganistão segue sangrando através dos focos da insurgência talibã. Mas a presença das forças ocidentais começa a abrir as portas para que o mundo examine as memórias e heranças dessa nação de passado trágico e futuro nebuloso. E o melhor panorama desse importante legado histórico está em exibição no Museu Britânico de Londres, na mostra Afeganistão: Encruzilhada do Mundo Antigo. Prorrogada até meados de julho por causa do sucesso de público, a exposição apresenta alguns dos mais preciosos artefatos já achados no país. Mais importante que o valor das peças, no entanto, são a maneira como elas foram preservadas e protegidas e, principalmente, o que elas revelam sobre as origens afegãs. Salvas graças à coragem dos funcionários do Museu Nacional do Afeganistão – que recorreram às mais inusitadas peripécias para conseguir escondê-las nos tempos de guerra civil e terror talibã -, as peças fascinam os visitantes da exposição. Nada de arte com temática islâmica: o material retrata uma terra cosmopolita e eclética, que serviu de ponto de encontro para as grandes civilizações do mundo antigo.

Escala crucial na Rota da Seda, o Afeganistão servia como corredor de passagem nas rotas comerciais que ligavam China, Índia e Pérsia. Também foi ponte para os avanços das civilizações grega e romana. E os tesouros reunidos em Londres – mais de 200, datando do ano 2000 a.C. até o século I – ilustram bem essa farta mistura de influências. Confeccionadas em materiais diversos e com técnicas variadas de fabricação, são objetos de rara beleza, que conciliam temas da mitologia grega, por exemplo, com estilos de manufatura orientais. Curiosamente, as peças parecem retratar sociedades que valorizavam elementos estrangeiros e exóticos – ou seja, o oposto da pregação talibã. A mostra inclui, por exemplo, estatuetas de deusas hindus seminuas, que certamente seriam reduzidas a pó pela milícia não fosse pela bravura dos arqueólogos afegãos. Alguns artefatos estavam escondidos desde a invasão soviética, em 1979, e a revelação de que os objetos tinham sido poupados só foi feita em 2003, pelo novo governo afegão pós-Talibã. Por enquanto, porém, as peças ainda estão “refugiadas” – assim como boa parte da população que fugiu da guerra. A promessa dos curadores da exposição é de que elas serão devolvidas ao Museu Nacional, em Cabul. Mas não agora – elas ainda não estarão a salvo se voltarem ao Afeganistão.

Afeganistão: Encruzilhada do Mundo Antigo. Museu Britânico, 44 Great Russell St., Londres. Ingressos: 10 libras (adultos), 8 libras (estudantes) ou gratuito (menores de 16 anos). Das 10 horas às 17h30 (sábados às quintas) e das 10 horas às 8h30 (sextas). Em cartaz até 17 de julho. www.britishmuseum.org.

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