Os próximos passos após a vitória da extrema direita em eleição regional na Alemanha
AfD conquistou 44% dos votos na Saxônia-Anhalt. Nenhuma região alemã é governada por ultradireitistas desde o fim do Nazismo
No domingo 6, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve o melhor resultado eleitoral de sua história em um pleito regional da Saxônia-Anhalt, atropelando todos os rivais com 44% dos votos. Com isso, dobrou o percentual de votos que amealhou na última eleição que houve ali, cinco anos atrás.
Não foi o suficiente, no entanto, para conseguir maioria absoluta no Parlamento local: AfD conquistou 39 cadeiras, três a menos que as 42 necessárias para alcançar a marca que permitiria ao partido governar sozinho o estado no leste do país.
Em condições normais, a sigla vencedora poderia tecer alianças para formar um governo, mas como a seção estadual da AfD foi classificada pela agência de inteligência doméstica como “extremista de direita confirmada”, formar uma coalizão ali será bastante difícil. Todas as outras legendas tradicionais já anunciaram que qualquer cooperação está fora de cogitação, levantando o chamado “firewall” contra a extrema direita que existe desde o fim do Nazismo.
Nenhuma região alemã é governada pela extrema direita desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 2024, a AfD ficou em primeiro lugar na Turíngia, marcando a primeira vitória da extrema direita desde 1945, mas outros partidos impediram sua entrada no governo.
Firewall
Na noite da eleição, o líder da AfD na Saxônia-Anhalt, Ulrich Siegmund, deu a entender que, por ora, não pretende chefiar um governo minoritário ali, embora o partido ainda não tenha descartado a possibilidade. Nesses casos, para aprovar leis, projetos e se manter no poder, o governo precisa negociar e buscar apoio pontual de partidos da oposição ou independentes a cada votação, pois não possui maioria no Parlamento.
Em entrevista à emissora pública ARD, ele disse que “estenderei a mão a todos aqueles que desejam trabalhar conosco para promover uma mudança política fundamental”, referindo-se, sobretudo, à União Democrata-Cristã (CDU), partido conservador do chanceler, Friedrich Merz, que hoje detém o poder em coalizões tanto na Saxônia-Anhalt quanto em nível federal na Alemanha.
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Alice Weidel, líder nacional da AfD, também convocou “a CDU, ou parte da CDU”, a negociar. A legenda voltou a descartar uma aliança (“Não haverá cooperação com a extrema esquerda nem com a extrema direita”, enfatizou a secretária-geral Franziska Hoppermann); a dimensão da derrota, contudo, pode reacender o debate dentro da sigla de Merz, onde alguns integrantes defendem há anos uma aproximação com a AfD e se veem diante de um chanceler cujos índices de popularidade não param de despencar.
“Resta saber quem formará o governo — talvez por meio de um acordo de tolerância ou até mesmo de uma coalizão”, declarou Weidel.
Aliança pontual
Uma ideia em discussão é a possibilidade de um acordo informal com a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), uma sigla nanica que mistura ideias econômicas progressistas com posições sociais ultraconservadoras. Os populistas de esquerda conquistaram cinco cadeiras no pleito, superando por muito pouco a marca de 5% dos votos que funciona como cláusula de barreira para o Parlamento, e compartilham com a AfD as posturas anti-imigração e pró-Rússia.
“A política de manter a AfD fora do governo fracassou. Tentar simplesmente formar outra coalizão para excluir a AfD seria uma afronta aos eleitores”, declarou no domingo Sahra Wagenknecht, fundadora do BSW, que também descartou uma coalizão formal mas não cooperações pontuais.
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Isso pode conferir à sigla nanica o papel de fiel da balança. Juntos, os dois teriam 43 cadeiras, uma a mais do que a maioria absoluta. Mas a copresidente do BSW, Amira Mohamed Ali, já adiantou no domingo que não há pretensão de apoiar Ulrich Siegmund como governador da região — em vez disso, ela defendeu um líder apartidário que representaria tanto o BSW como a AfD.
Em outro cenário, a AfD poderia deixar para os outros partidos a batalha de formar uma coalizão para governar a Saxônia-Anhalt em seu lugar. Seria, decerto, um saco de gatos — a CDU amealhou menos de 18% dos votos, os social-democratas (SPD) ficaram com 9,3%, os Verdes, com 8,9%, e o partido de esquerda Die Linke, com 8,6%. “Se acabarmos como oposição, será brutal para os outros”, afirmou Oliver Kirchner, copresidente da bancada da AfD no Parlamento da Saxônia-Anhalt.
Programa de governo radical
Há meses, as propostas da AfD vêm gerando debates acalorados em toda a Alemanha. O partido detalhou como exerceria seu poder na esfera estatal em alguns pontos principais:
- Nas leis: reformular o alcance da autoridade do serviço de inteligência estadual que investigou e taxou o partido de “organização extremista”;
- Nas escolas: legalizar o homeschooling (ensino domiciliar) e aumentar o controle estatal sobre livros didáticos utilizados em escolas;
- Na comunicação: cancelar contratos de radiofusão com emissoras públicas;
- Na segurança: criar uma força-tarefa para deportações para produzir uma “guinada de 180 graus na política migratória”;
- Na ideologia: exigir que organizações financiadas pelo Estado demonstrem uma “atitude básica patriótica”.
Ulrich Siegmund, por sua vez, também tem sido alvo de escrutínio devido à forma como aborda o passado nazista da Alemanha. Em eventos da AfD, não era incomum que o mestre de cerimônias gritasse “Sieg!” e os apoiadores respondessem “Mund!” — dividindo o sobrenome dele em uma dinâmica de chamada e resposta que, segundo o presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, remete a slogans nazistas (“Sieg Heil” era uma expressão em alemão que significa “salve a vitória” ou “viva a vitória”, saudação do regime de Adolf Hitler).
Além disso, Siegmund recusou-se a classificar o Holocausto como o pior crime da humanidade, afirmando que não ousaria hierarquizar todos os crimes.
‘Momento grave’
Políticos tradicionais de toda a Europa expressaram alarme depois da vitória da AfD. Na Alemanha, o presidente do Conselho Central dos Judeus, Josef Schuster, declarou-se “consternado” com o resultado, em entrevista ao jornal Welt.
“Isso claramente envia um sinal muito, muito preocupante”, disse o ministro das Finanças da França, Roland Lescure, nesta segunda. “Isso mostra que enfrentamos um grande desafio diante de uma onda populista que se espalha pelo mundo hoje e à qual devemos resistir.”
Os comentários de Lescure ecoaram declarações semelhantes feitas na noite de domingo pelo ministro de Assuntos Europeus da França, Benjamin Haddad, que publicou nas redes sociais: “Ver a extrema direita prevalecer nas eleições regionais alemãs marca um momento muito grave para a Europa (…) o nacionalismo e a xenofobia nunca serão a resposta. Não podemos esquecer a nossa história.”
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O ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski, também classificou os resultados como “um sinal muito preocupante” nesta segunda, enquanto o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, afirmou na noite de domingo: “Apenas idiotas ou traidores podem se alegrar com o triunfo da AfD na Alemanha”.
O chanceler da Itália, Antonio Tajani, disse ter recebido os resultados como “uma notícia terrível” porque “diz respeito a uma força política que é antagônica aos valores liberais e ocidentais”.
Enquanto isso, líderes de extrema direita comemoraram a conquista. Na Espanha, Santiago Abascal, do ultranacionalista Vox, falou em um “resultado espetacular que representa uma grande esperança para a Alemanha e a Europa”, enquanto o português André Ventura, do partido Chega, elogiou uma “vitória histórica”.







