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Os jovens e barulhentos socialistas que estão ganhando as primárias do Partido Democrata

Fenômeno ameaça os planos da sigla para se reerguer nas eleições de novembro

Por Amanda Péchy Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 15 ago 2026, 08h00
Os jovens e barulhentos socialistas que estão ganhando as primárias do Partido Democrata Priorizar nos meus resultados Google

Um dos mais profundos efeitos colaterais do retorno do republicano Donald Trump à Casa Branca foi a derrocada do Partido Democrata, que saiu do pleito atordoado e sem rumo. A data marcada para a volta por cima é 3 de novembro: as midterms, eleições de meio de mandato que vão renovar a Câmara, um terço do Senado e governos estaduais, não costumam favorecer o mandatário em exercício, alvo fácil de todo tipo de insatisfação popular — que há de sobra. Confirmando a regra, Trump viu sua popularidade escorregar para menos de 40% em meio à irritação no país com a guerra no Oriente Médio, cujos estrondos os americanos sentem no bolso. Os democratas teriam a faca e o queijo na mão para abocanhar ao menos uma, senão ambas as casas — não fosse a queda de braço interna que embaralha o horizonte político.

Sem nomes fortes em sua cúpula para aglutinar tendências e definir a seleção de candidatos, os caciques democratas veem, horrorizados, sua ala mais à esquerda cravar nas cédulas eleitorais os nomes de jovens que dominam as redes sociais e flertam com radicalismos poucas vezes pronunciados em palanques. Desde o início do ano, a turma que abertamente se rotula “socialista” ou “progressista” ganhou mais de 35 disputas primárias, em que democrata enfrenta democrata, contra candidatos do establishment. Na terça-feira 11, em Minnesota, a esquerdista Penny Flanagan levou a candidatura ao Senado. No mesmo dia, Francesca Hong, uma ex-chef que defende creches e merenda escolar gratuitas, perdeu por menos de 4 000 votos a vaga para concorrer ao governo de Wisconsin, um crucial estado-pêndulo. Antes delas, em Michigan, Abdul El-Sayed, 41 anos, médico muçulmano que defende um sistema de saúde grátis e universal, superou a moderada Haley Stevens, veterana deputada no quarto mandato, na luta pelo Senado.

CAUTELA - Obama: preocupado com a rejeição aos radicais nas urnas
CAUTELA - Obama: preocupado com a rejeição aos radicais nas urnas (Taylor Hill/Getty Images)

A marcha democrata para a esquerda começou com uma caravana que atravessou o país, liderada pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez, 36 anos, e pelo veterano senador Bernie Sanders, 84, no fim do governo Biden, e ganhou vento a favor quando Zohran Mamdani se tornou, em novembro, o primeiro prefeito muçulmano de Nova York, defendendo projetos como congelamento de aluguéis e ônibus grátis. Em comum a todos os representantes desta ala está o apoio declarado à causa palestina, em linguagem que, vira e mexe, resvala no antissemitismo. Mesmo longe da maioria, a ala mais radical do Partido Democrata nunca fez tanto barulho, nem conseguiu destronar candidatos à reeleição há anos em suas cadeiras. Seu avanço reflete a crescente insatisfação entre os jovens com o custo de vida, a falta de perspectivas e o desdém pelos políticos mais idosos, herança do frágil Joe Biden.

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PATRONO - Mamdani: vitória em Nova York deu voz à ala anti-establishment
PATRONO - Mamdani: vitória em Nova York deu voz à ala anti-establishment (Selcuk Acar/Anadolu/Getty Images)

A questão é como essa turma vai ser encarada pela maioria silenciosa — até Barack Obama, prócer do progressismo na legenda, evita dar apoio aos socialistas, receoso de que o sucesso nas primárias não se repita nas eleições gerais. A cúpula democrata vê nesses candidatos, com razão, uma arma que os republicanos já estão brandindo, com ataques à “esquerda radical” e aos “comunistas” — termos que arrepiam americanos nascidos e criados na Guerra Fria. O próprio Trump mencionou o termo comunismo 95 vezes desde o final de junho, chamando seus oponentes de “radicais lunáticos sem Deus”. “Ganhar primárias não é o suficiente. A marcha progressista pode virar um tiro no pé”, alerta Steven Ekovich, cientista político da American University. Quando novembro vier, a sorte estará lançada.

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Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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