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Oposição na Argentina pede saída de vice citado em caso de corrupção

Amado Boudou descartou licenciar-se ou renunciar ao cargo. Vice de Cristina Kirchner foi convocado para depor como réu

Opositores na Argentina querem que o vice-presidente Amado Boudou se afaste do cargo, depois de ter sido convocado para depor como réu em um caso de corrupção. Boudou é investigado por negociações incompatíveis com a função pública e por enriquecimento ilícito.

“O mínimo que Boudou pode fazer é pedir licença. Qualquer decisão sua seguirá afetando a presidente”, disse Julio Cobos, em declaração reproduzida pelo jornal Clarín. Cobos foi vice-presidente durante o primeiro mandato de Cristina Kirchner. O deputado da União Cívica Radical (UCR), partido que integra a coligação opositora Frente Ampla Unen, criada no final de abril, lançou nesta semana sua pré-candidatura às eleições presidenciais de 2015.

O presidente do bloco de deputados da UCR, Mario Negri, considerou “insustentável” a permanência do vice no cargo, segundo o La Nación. “É insustentável esperar o transcurso de todo o calendário de citações, com o vice-presidente representando o país no exterior como se nada tivesse acontecido”.

Para a legisladora Graciela Ocaña, do partido Confiança Pública, cabe à presidente exigir que Boudou tire licença ou renuncie, “caso contrário, acharíamos que o negócio de Ciccone é maior que o de Boudou”.

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Em julho de 2010, uma investigação de privilégio comercial conduzida pelo Fisco argentino pediu à Justiça a quebra do sigilo da gráfica Ciccone, que mantém contratos com o governo e, entre outras atividades, vende papel-moeda ao Banco Central argentino. A Justiça suspendeu o pedido três meses depois, por solicitação da própria empresa, após ter negociado um plano de pagamentos de multas com o Fisco. Uma investigação descobriu que o Ministério da Economia, pasta então ocupada por Amado Boudou, teria pressionado o Fisco a favor da empresa.

Após o episódio, a companhia foi vendida para o fundo de investimentos The Old Fund, presidida por Alejandro Vandenbroele, que é apontado como testa-de-ferro de Boudou, embora o vínculo tenha sido negado pelo vice-presidente. Amado Boudou deixou a pasta de Economia após as eleições de 2011 para ocupar a vice-presidência, mas as denúncias por seu suposto envolvimento em escândalos de corrupção ofuscaram sua carreira política e enterraram seu desejo de suceder Cristina Kirchner na presidência do país.

A deputada Margarita Stolbizer, do partido Geração para um Encontro Nacional (GEN), que também faz parte da coligação opositora, considera que “de forma alguma a presidente e Néstor Kirchner estavam à margem do negócio” com a gráfica Ciccone. Em entrevista a uma rádio local, a parlamentar afirmou que as acusações de tráfico de influência contra o vice-presidente fazem parte de “uma prática de exercício do poder que o kirchnerismo instalou na Argentina”.

Depois de ser convocado a depor, o vice-presidente descartou pedir licença e afirmou que provará sua inocência. “Estou muito tranquilo e vou demonstrar minha inocência. Vou seguir sendo vice-presidente”, disse.

Em um ato oficial neste sábado, Cristina Kirchner evitou falar sobre a situação judicial de seu vice. Ontem, depois de conhecer a decisão do juiz Ariel Lijo, a presidente deu todo o apoio a Boudou e assegurou que vários ministros fariam declarações públicas a seu favor. Os primeiros a fazê-lo foram o chefe de gabinete Jorge Capitanich, que ressaltou que o ex-ministro da Economia “está à disposição da Justiça, como sempre”, e o ministro da Defesa, Agustín Rossi, que reclamou de “pré-julgamento”.