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ONU pede acesso a refugiados perseguidos por gangues budistas

Acnur denunciou restrições de acesso aos campos de refugiados rohingyas em Mianmar; perseguições à etnia se tornaram cada vez mais violentas desde 2012

A Organização das Nações Unidas (ONU) pediu nesta quarta-feira que Mianmar dê livre acesso a agências humanitárias aos acampamentos de refugiados onde se encontram milhares de muçulmanos rohingyas.

Uma delegação internacional aconselhando Mianmar visitou o acampamento de refugiados Taung Pyo Letwe, nos arredores da cidade de Maungdaw, próximo à fronteira com Bangladesh. Vídeos do acampamento mostram longos barracões de madeira compensada feitos em um campo rochoso e rodeados por uma cerca com arame farpado.

Bangladesh adiou na terça-feira a repatriação de rohingyas para Mianmar, já que o processo de listar e verificar as pessoas a serem enviadas de volta estava incompleto. A ONU afirma que as proteções necessárias para que os refugiados sejam repatriados ainda não são suficientes.

“Até que a segurança e o bem-estar de qualquer criança voltando a Mianmar possam ser garantidos, conversas de repatriação são prematuras”, disse o vice-diretor-executivo da Unicef, Justin Forsyth, em comunicado.

A agência de refugiados da ONU, Acnur, informou anteriormente que “há contínuas restrições ao acesso para agências de ajuda humanitária, para a mídia e para outros observadores independentes” em Mianmar.

O Acnur pediu que Mianmar “permita o livre acesso humanitário necessário no Estado de Rakhine e a criação de condições para uma solução genuína e duradoura”.

Etnia perseguida

Os rohingyas são a etnia mais perseguida do planeta, segundo agências da ONU. As perseguições à minoria perpetradas por Mianmar são consideradas tentativas de limpeza étnica ou genocídio por diversas agências humanitárias e governamentais do mundo. Pela primeira vez na história, o Museu Memorial do Holocausto, em Washington, uma das mais respeitadas entidades de pesquisa sobre o massacre perpetrado contra judeus durante a Segunda Guerra Mundial, tem dito que as barbáries perpetradas contra os rohingyas podem configurar um novo holocausto.

Migrantes da etnia muçulmana Rohingya presos em um barco à deriva tentam recolher os alimentos lançados por um helicóptero do exército tailandês ao largo da ilha do sul de Koh Lipe no mar de Andaman, na Tailândia - 14/05/2015 Migrantes da etnia muçulmana Rohingya presos em um barco à deriva tentam recolher os alimentos lançados por um helicóptero do exército tailandês ao largo da ilha do sul de Koh Lipe no mar de Andaman, na Tailândia – 14/05/2015

Migrantes da etnia muçulmana Rohingya presos em um barco à deriva tentam recolher os alimentos lançados por um helicóptero do exército tailandês ao largo da ilha do sul de Koh Lipe no mar de Andaman, na Tailândia – 14/05/2015 (Christophe Archambault/AFP)

Os rohingyas são uma minoria muçulmana (mas não a única) em Mianmar, a antiga Birmânia, um país majoritariamente budista e constituído por 135 etnias oficialmente reconhecidas pelas leis locais e agrupadas em oito grupos. Os rohingyas não são parte das etnias reconhecidas pelo país, que afirma que o grupo foi trazido de Bangladesh –país muçulmano vizinho– durante a época da colonização britânica como trabalhadores. Arqueólogos e historiadores divergem desta afirmação e apontam para o fato de que os rohingyas se estabeleceram numa região que atualmente corresponde à fronteira entre os dois países muito antes das demarcações de limites fronteiriços atuais ou da independência e formação das atuais nações do sul da Ásia.

Por não serem reconhecidos, os rohingyas são proibidos de estudar, de utilizar hospitais, de casar, de ter filhos e de se locomover entre cidades sem autorizações do governo de Mianmar, as quais são frequentemente impossíveis de se obter. Rohingyas pegos desrespeitando essas regras –como, por exemplo, vivendo juntos sem terem obtido a permissão para se casar– são frequentemente subjugados a trabalhos forçados, espancamentos ou prisões.

Desde 2012, quando eclodiu a onda de violência inicial, quase um milhão de rohingyas tiveram que abandonar suas casas. Gangues budistas incitadas pela retórica inflamada do monge Ahsin Wirathu, um dos monges budistas mais importantes de Mianmar, caçavam membros da etnia e os matavam a machadadas ou queimavam suas casas com os residentes ainda dentro.

O monge radical Ahsin Wirathu em conferência de imprensa. O monge radical Ahsin Wirathu em conferência de imprensa.

O monge radical Ahsin Wirathu em conferência de imprensa. (Eranga Jayawardena/VEJA.com)

Em Sittwe, capital do estado de Rakhine, onde a etnia se concentra de forma majoritária, o bairro rohingya foi inteiramente destruído e aterrado para que a minoria não tivesse para onde voltar.

Nos últimos cinco anos a violência escalou exponencialmente, com milhares de relatos de assassinatos em massa, estupros coletivos e espancamentos. Mesmo os rohingyas fugindo de Mianmar através do rio Naf, que delimita a fronteira com Bangladesh, frequentemente são mortos a tiros por soldados birmaneses encarregados de impedir a fuga irregular.

Os países vizinhos são pouco simpáticos à etnia. Bangladesh é um país de maioria muçulmana, extremamente pobre e com altíssima densidade demográfica. A população rohingya é mais um fator de pressão para os bengaleses. Diversos são os relatos de botes apinhados de rohingyas que alcançaram a costa de Bangladesh após dias vagando sem rumo no mar, pela Baía de Bengala, e que foram impedidos de desembarcar, sendo empurrados de volta ao mar.

A ONG de direitos humanos Anistia Internacional publicou em 2013 um relatório que dava conta de um bote motorizado cheio de rohingyas que foi interceptado pela Marinha da Tailândia rumando à Malásia. A Marinha tailandesa teria retirado o motor do barco e deixado os rohingyas à deriva.

Desde então, os relatos de violações de direitos humanos perpetrados contra a etnia se multiplicaram, com a violência e tensão no sudeste asiático atingindo proporção de catástrofe humanitária.

(Com agências)