ONGs do Tibete acusam governo chinês de ocultar mortes e real dimensão de enchentes
Grupos de direitos humanos afirmam que número de vítimas é 'muito maior' do que Pequim admite; dados oficiais falam em 16 mortos e 546 desaparecidos
Grupos de defesa dos direitos humanos no Tibete começaram a denunciar o governo chinês por tentativa de esconder o real tamanho da tragédia que atingiu a área na semana passada, quando enchentes devastadoras provocaram um tsunami de lama que engoliu casas, estradas, pontes e usinas elétricas perto da fronteira com o vizinho Nepal.
O Tibete é uma região semiautônoma da China desde os anos 1950, algo formalizado após uma ocupação do Exército, e desde então há tensões, especialmente envolvendo restrições à livre circulação de pessoas e à prática do budismo tibetano.
Número de vítimas é ‘muito maior’
A organização Campanha Internacional pelo Tibete informou acreditar, com base em fontes locais, que o número de vítimas é “muito maior” do que mostram os dados divulgados por Pequim.
O balanço oficial fala em 16 mortos e 546 desaparecidos, incluindo 261 cidadãos estrangeiros — para efeito de comparação, no Nepal, o saldo de fatalidades se aproxima de 1. 000, enquanto o paradeiro de 4. 300 pessoas é desconhecido.
Os defensores de direitos descobriram que pelo menos 300 casas foram destruídas no lado tibetano da fronteira, colocando em xeque as informações oficiais sobre a quantidade de vítimas.
“O que é visível no Nepal expõe o que está sendo ocultado no Tibete. Quatro vilarejos — Sale, Serchung, Labi e Rizi — estiveram entre os mais atingidos, com cerca de 300 casas supostamente destruídas e muitas pessoas ainda desaparecidas”, declarou ao jornal britânico The Guardian Tencho Gyatso, o presidente da Campanha Internacional pelo Tibete. Ele acrescentou que tudo indica que o número de vítimas “é muito maior” do que Pequim admite.
Controle da narrativa
Além disso, o debate público sobre a tragédia enfrenta restrições. Autoridades de segurança no Tibete anunciaram, no domingo, 30, que puniram pelo menos 10 pessoas por compartilharem “informações falsas sobre o desastre”, sem dar detalhes sobre a natureza das punições. Em um dos casos, um usuário identificado apenas como Zhang contestou o número oficial de mortos, escrevendo: “Claramente, milhares de pessoas foram arrastadas. ”
Outro usuário, chamado Zhou, comentou: “Uma vila inteira foi destruída. Com certeza houve mais de mil (mortes). ”
Três dias antes, o jornal estatal The Daily já havia reportado que dois tibetanos foram detidos para interrogatório por divulgarem “boatos” de que mais de mil pessoas haviam sido arrastadas pela enxurrada perto da fronteira.
A cobertura sobre as enchentes é dominada pela mídia estatal chinesa, enquanto jornalistas independentes e estrangeiros têm acesso restrito a informações. Cidadãos tibetanos podem ser presos por compartilhar informações com repórteres e grupos de defesa fora da China. De acordo com Gyatso, sobreviventes das enchentes foram levados para Gyirong, situada a cerca de 30 km da passagem de fronteira atingida pela avalanche de lama. Todos estão sob controle rigoroso e com restrições de comunicação, constatou a Campanha Internacional pelo Tibete.
“O instinto do governo chinês é sempre tentar controlar a situação e garantir a narrativa de que é um governo extremamente eficiente”, disse Maya Wang, da ONG Human Rights Watch.
Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China declarou, nesta segunda-feira, 31, que a divulgação de informações sobre as inundações foi transparente, denunciando críticas como “campanhas de difamação maliciosas e sensacionalismo”.







