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Ocidente tem uma opção: lançar uma guerra financeira contra a Rússia

Recorrer apenas a protestos verbais contra avanço de Putin faria o Ocidente parecer ridículo e ineficaz diante do resto da comunidade internacional

Por Harold James 12 abr 2014, 18h51

A revolução na Ucrânia e a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia causaram uma grave crise de segurança na Europa. Mas, com líderes ocidentais testando um novo tipo de guerra financeira, a situação pode se tornar ainda mais perigosa. Uma Ucrânia estável, democrática e próspera pode ser perturbadora, – e vista como uma ameaça – pela autocrática e economicamente esclerosada Federação Rússa do Presidente Vladimir Putin. Para evitar tal resultado, Putin está tentando desestabilizar a Ucrânia, apoderando-se da Crimeia e fomentando um conflito étnico no leste do país.

Ao mesmo tempo, Putin tenta estimular o apelo na Rússia duplicando os valores das pensões para crimeanos, aumentando os salários dos 200.000 funcionários públicos da região e construindo uma grande infraestrutura ao estilo das instalações olímpicas de Sochi – incluindo uma ponte de 3 bilhões ao longo do Estreito de Kerch. A sustentabilidade dessa estratégia no longo prazo é duvidosa, devido a tensão que vai ocasionar sobre as finanças públicas da Rússia. Mas, ainda assim, isso vai servir ao objetivo de Putin de projetar a influência da Rússia.

A União Europeia e os Estados Unidos, por sua vez, não querem uma intervenção militar para defender a soberania e a integridade territorial da Ucrânia. Só que recorrer apenas a protestos verbais faria o Ocidente parecer ridículo e ineficaz diante do resto da comunidade internacional, dando origem, em última análise, a novos – e cada vez maiores – desafios de segurança. Isso deixa as potências ocidentais com uma opção: lançar uma guerra financeira contra a Rússia.

Como o ex-funcionário do Tesouro americano Juan Zarate revelou em seu recente livro de memórias ‘Treasury’s War’, os Estados Unidos passaram a década subsequente aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 desenvolvendo um novo conjunto de armas financeiras para ser usado contra seus inimigos – primeiro, a Al Qaeda, em seguida, Coreia do Norte e Irã e agora a Rússia. Essas armas incluíram o congelamento de ativos e o bloqueio de acesso de bancos fraudulentos a finanças internacionais.

Quando a revolução ucraniana começou, o sistema bancário russo já era bastante desgastado e disfuncional. Mas a situação piorou muito após a queda do presidente Viktor Yanukovych e da anexação da Crimeia, que provocaram pânico na bolsa, o que enfraqueceu consideravelmente a economia russa, e sacrificou os ativos dos poderosos oligarcas da Rússia.

Em um sistema capitalista de compadrio, ameaçar a riqueza da elite governante desgasta rapidamente a lealdade ao regime. Para a elite corrupta, há um ponto além do qual a oposição oferece melhor proteção para sua riqueza e poder – um ponto atingido na Ucrânia quando o movimento Maidan ganhou força.

Os discursos de Putin revelam sua convicção de que a UE e os EUA não podem estar falando sério sobre a guerra financeira, o que, em sua opinião, acabaria por danificar mais seus mercados financeiros altamente complexos e interligados do que o sistema financeiro relativamente isolado da Rússia. Afinal, a ligação entre a integração financeira e a vulnerabilidade foi a principal lição da crise financeira que se seguiu ao colapso do banco de investimento americano Lehman Brothers, em 2008.

Na verdade, Lehman era uma instituição pequena comparada aos bancos austríacos, franceses e alemães, altamente expostos ao sistema financeiro da Rússia por meio do empréstimo de dinheiro depositado por pessoas físicas e empresas russas para devedores russos. Diante disso, o congelamento de ativos russos poderia ser catastrófico para os mercados financeiros europeus – e, na verdade, para o mercado global.

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O plano de Putin para desestabilizar a Ucrânia tem, portanto, duas frentes: capitalizar em questões de idioma ou animosidades nacionais na Ucrânia, para promover a fragmentação social enquanto tira vantagem das vulnerabilidades financeiras do Ocidente – especialmente dos europeus. Com efeito, Putin às vezes gosta de enquadrar esse feito como uma competição na qual ele é colocado contra o poder dos mercados financeiros.

​A corrida armamentista que antecedeu a I Guerra Mundial foi acompanhada exatamente pela mesma mistura de relutância militar e a pretensão de experimentar o poder dos mercados. Em 1911, um importante livro sobre o sistema financeiro alemão, escrito pelo banqueiro veterano Jacob Riesser, advertiu que: “o inimigo, no entanto, pode tentar agravar um pânico… seja pela repentina coleta de sinistros pendentes, pela venda ilimitada de nossos títulos imobiliários ou por outras tentativas de privar a Alemanha do ouro. Tentativas também podem ser feitas para desordenar nosso capital, nossa moeda e nosso mercado de títulos, e ameaçar a base do nosso sistema de crédito e pagamentos”.

Os políticos começaram a entender as consequências potenciais de vulnerabilidade financeira apenas em 1907, quando enfrentaram o pânico financeiro que se originou nos EUA, e que apresentou graves consequências na Europa continental (e, em alguns aspectos, prefigurou a grande depressão). Essa experiência ensinou cada país a fazer seu próprio sistema financeiro mais resistente para afastar ataques em potencial, e que ataques podem ser uma resposta devastadora à pressão diplomática.

Foi exatamente o que aconteceu em 1911, quando uma disputa sobre o controle do Marrocos estimulou a França a organizar a retirada de 200 milhões de marcos alemães investidos na Alemanha. Mas a Alemanha estava preparada e conseguiu evitar o ataque. De fato, os banqueiros alemães orgulhosamente observaram que a crise de confiança atingiu o mercado de Paris de forma muito mais dura do que os mercados em Berlim ou Hamburgo.

Os esforços dos países para proteger seus sistemas financeiros muitas vezes centralizaram-se no aumento da supervisão bancária e, em muitos casos, na ampliação da autoridade do banco central para incluir a provisão de liquidez de emergência às instituições nacionais. Debates posteriores sobre a reforma financeira nos EUA refletiram esse imperativo com alguns dos fundadores do Federal Reserve, o banco central americano, referindo as aplicações militares e financeiras ao termo “reserva”.

Naquela época, os esforços para a reforma do sistema financeiro foram impulsionados pela ideia de que instituir o capital agregado tornaria o mundo um lugar seguro. No entanto, essa crença alimentou uma confiança excessiva entre os responsáveis pelas reformas, impedindo-os de antecipar medidas militares, que logo seriam necessárias para proteger a economia. Em vez de ser alternativa à guerra, a corrida armamentista no sistema financeiro fez a guerra mais provável – como é muito possível que esteja acontecendo com a Rússia hoje.

Harold James é professor de História na Universidade de Princeton e pesquisador sênior do Centro para Inovação em Governança Internacional.

(Tradução: Roseli Honório)

© Project Syndicate 2014

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