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Obama espera a hora certa para entrar no jogo democrata

Enquanto não mergulha de vez na campanha para tirar Trump da Casa Branca, o político ganha dinheiro

Na campanha para a eleição presidencial nos Estados Unidos em 2020, com dezoito pré-candidatos de um lado e Donald Trump do outro, o mais popular entre os políticos democratas e um dos mais admirados do mundo tem primado pela ausência. Onde, afinal, anda Barack Obama? A resposta é: tentando não aparecer. Ciente do peso de seus alinhamentos, o ex-presidente tem motivos para, por enquanto, preferir os bastidores. Nada falar é a melhor forma de preservar seu legado, sacudido de lá para cá, sem dó, entre a execração sistemática de Trump, que de junho a outubro desancou o nome do antecessor 366 vezes no Twitter, e o incansável incensar de Joe Biden, o pré-candidato que foi seu vice e cita os feitos do “governo Obama-Biden” em todos os discursos. Eximir-se é também o mais prudente diante da indefinição na linha de frente do páreo democrata — é até natural faltando oito meses para a convenção que vai anunciar o nome escolhido.

Por mais que Obama prefira não intervir no momento, um fator imprevisto está tirando-o do recolhimento a que se propôs: o entusiasmo com que uma ala democrata tem inflado ideias de reformas radicais, como saúde pública ampla e irrestrita, estudo superior gratuito e arrocho nos ganhos dos bilionários e no poder dos grandes conglomerados. Com dois candidatos “liberais”, Bernie Sanders e Elizabeth Warren, arrebanhando doações e apoios e ameaçando o moderado Joe Biden, que até agora não conseguiu se impôr na corrida, o ex-presidente achou por bem meter sua colher. “O americano médio não acredita que é preciso desmontar o sistema para depois reconstruí-lo. Há muitos eleitores indecisos e muitos democratas que anseiam por sensatez. Eles não querem maluquices”, alertou, em um discurso recente. Duas semanas antes, havia aconselhado os jovens a evitar os excessos da vigilância constante contra racismo, machismo e outras expressões de desigualdade que, segundo ele, provocam divisões insuperáveis. “Isso não é ativismo”, afirmou. “Isso não vai mudar nada.” O objetivo desses discursos é bater na tecla que, na sua opinião, tem de dar o tom da campanha democrata: a característica mais importante do futuro candidato é sua capacidade de derrotar Trump.

Não é comum que presidentes em fim de mandato endossem pré-candidatos — em geral, esperam a convenção para só então mergulhar na disputa. Obama, no entanto, apoiou Hillary Clinton em 2016 dois meses antes da decisão, justamente porque seu adversário era Bernie Sanders, o socialista do Senado que já então encantava os jovens e fazia tremer a conservadora América do meio (não adiantou: ela perdeu para Trump). Agora, usa sua força política para tentar impedir que o dilema se repita. “Ele é o único capaz de reunir o apoio de todas as alas do Partido Democrata”, avalia o sociólogo Robert Shapiro, da Universidade de Columbia, em Nova York.

Mesmo afastado do cotidiano político, o ex-presidente mantém abertas as portas de seu escritório em Washington aos pré-candidatos, e a maioria deles já bateu ponto. “Com tantos nomes na corrida, o apoio dele deve ter efeito significativo”, diz Christopher Devine, professor de ciência política da Universidade de Dayton, em Ohio. Mas, enquanto a eleição não vem, a maior parte do tempo de Obama é dedicada ou a descansar, ou a ganhar dinheiro. O ex-primeiro-casal assinou um contrato de 65 milhões de dólares para publicar, cada um, sua autobiografia. A dela, Minha História, já vendeu mais de 10 milhões de cópias e caminha para se tornar o maior dos best-sellers do gênero. A dele estava prevista para este ano, mas não ficou pronta (a pessoas próximas, ele diz que é porque escreve mesmo; Michelle teve ghostwriter). Os Obama também estão produzindo para a Netflix uma série de documentários e filmes sobre democracia, direitos civis e racismo. O primeiro já se encontra disponível na plataforma e há outros seis na fila.

Aos 58 anos, Obama marca presença em palestras e debates mundo afora — esteve em São Paulo em maio, para uma conferência sobre inovação e tecnologia — e cobra cachê de até 400 000 dólares, o salário anual do presidente dos Estados Unidos. A fortuna da família está calculada hoje em… 135 milhões de dólares. Nada mau. Há rumores de compra de uma mansão de 15 milhões de dólares em Martha’s Vineyard, balneário de ricaços onde os Obama passam parte do verão desde os tempos de Casa Branca. Se tudo correr conforme os planos, Obama deverá entrar com força na campanha democrata a partir de julho, com grandes chances de fazer barulho: sua mobilização empurrou os democratas para a maioria na Câmara de Representantes, em 2018. Sim, ele pode.

Publicado em VEJA de 4 de dezembro de 2019, edição nº 2663