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Obama diz que negociações para transição já começaram

EUA rejeitam argumento de Mubarak sobre caos no país após eventual renúncia

Os Estados Unidos rejeitaram nesta sexta-feira o argumento do presidente egípcio, Hosni Mubarak, de que o caos tomará conta do Egito se ele deixar o poder. O presidente Barack Obama disse que as negociações para a uma mudança de regime no país já foram iniciadas. Segundo ele, a transição deve começar imediatamente e incluir representantes da oposição. Há 11 dias, milhares de egípcios pró-democracia pedem a renúncia de Mubarak. Os choques violentos entre manifestantes e partidários do ditador deixaram ao menos 11 mortos e cerca de 5.000 feridos. “O mundo todo está assistindo”, disse Obama, ao afirmar querer ver “os distúrbios se transformado em um momento de oportunidades”.

Obama pediu o fim da violência no Egito e disse que a mensagem dos EUA, “forte e clara”, é de que os ataques contra jornalistas, ativistas e manifestantes pacíficos são “inaceitáveis”. O presidente novamente evitou culpar Mubarak pela violência, mas afirmou que o governo egípcio é responsável pela segurança de seu povo. Ele ainda disse que Mubarak deve “ouvir o povo egípcio” e pensar na melhor maneira de seguir em frente. Segundo o presidente dos EUA, a questão agora é como Mubarak pode deixar um legado que permita a transição sem desordem no país.

Mais cedo, a Casa Branca já havia dado sinais de que aumentaria a pressão para que haja uma transição ordenada de poder no Egito. O porta-voz do governo americano, Robert Gibbs, convocou Mubarak e seu governo a sentar-se com uma ampla coalizão da oposição e grupos da sociedade civil excluídos do poder no Egito para discutir um novo acordo político. Gibbs deu a entender que o único caminho para acabar com a atual crise seria a renúncia de Mubarak rapidamente, seguindo indicações de que Washington estaria tentando promover a saída do líder egípcio do poder. “Há ações concretas que ele pode tomar e que o vice-presidente pode tomar em direção a um caminho de real mudança, que pode diminuir a instabilidade e garantir que não sejamos envolvidos no caos, como ele descreve”, afirmou Gibbs.

Sucessão – Contudo, nesta sexta, o primeiro-ministro do Egito, Ahmed Shafiq, disse que é improvável que Mubarak transfira o cargo para o recém nomeado vice-presidente do país. “Precisamos do presidente por razões legislativas”, disse Shafiq, referindo-se a Mubarak, segundo a rede de TV Al Arabiya.

Já o carismático chefe da Liga Árabe, Amr Mussa, não descartou assumir o posto no futuro. Perguntado se pretendia se candidatar nas próximas eleições, ele respondeu com um simples “por que dizer não?” “É claro que estou a serviço de meu país… Estou pronto para servir como um cidadão que tem o direito de ser candidato”, declarou à rádio francesa Europe 1, antes de fazer uma aparição na Praça Tahrir, epicentro dos protestos anti-Mubarak.

Mussa, ex-ministro das Relações Exteriores, de 74 anos, é uma figura dinâmica, com um senso de humor perspicaz e que frequentemente ofuscou o seu ex-chefe, Mubarak. Sua popularidade vem de fortes posições contra Israel e um discurso que encontra eco no povo árabe.

O ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica e Nobel da Paz, Mohamed ElBaradei, também se colocou à disposição para liderar o país, desmentindo a notícia do jornal austríaco Der Standaard de que não pretendia ser candidato. “Não é verdade”, disse. “Se o povo egípcio quiser que eu continue o processo de mudança, não vou desapontá-lo”.

Protestos – Desde o início do dia mais de 100.000 egípcios se reuniram na praça Tahrir, no centro do Cairo, para exigir a renúncia de Mubarak. O protesto, denominado “Dia da Partida”, foi o maior desde a última terça-feira e pretendia ser um ultimato dado pela oposição para que o ditador deixasse o poder.

Também nesta sexta, a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, pediu ao regime egípcio que investigue se a violência registrada nos protestos dos últimos dias foi planejada e identifique os responsáveis pelos incidentes. Embaixadores da União Europeia (UE) – que é formada por 27 países – disseram ainda que vão enviar uma nota de protesto para o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Egito contra agressões aos jornalistas no país.

Pouco depois do apelo, a rede de TV árabe Al Jazira afirmou que seu escritório no Cairo foi incendiado e destruída por “gangues” de criminosos. O canal de notícias acusou as autoridades egípcias ou seus simpatizantes de tentar impedir sua cobertura dos protestos.

Além da Al Jazira, diversos meios de comunicação informaram que jornalistas foram detidos no Cairo, quando cobriam os levantes populares. Há relatos de prisões de profissionais da Rádio Nacional e TV Brasil, do Brasil, e das redes estrangeiras BBC, Al-Arabiya, ABC News, TVP, TF1, France 24 e Washington Post.

O repórter Corban Costa, da Rádio Nacional, e o repórter cinematográfico Gilvan Rocha, da TV Brasil, também foram detidos, vendados e tiveram passaportes e equipamentos apreendidos. Eles devem chegar ao Brasil no próximo sábado.

Um jornalista egípcio que tinha sido ferido por tiros de um franco-atirador no dia 28 de janeiro morreu nesta sexta no Cairo, informou a edição digital do diário estatal Al-Arham, do conglomerado de comunicação homônimo, para o qual o profissional trabalhava.