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O perigoso crescimento da extrema direita na Alemanha

Terceiro grupo mais influente no Parlamento, ela está infiltrada nas forças de segurança e agora quer aliciar os descontentes com a crise sanitária

Por Julia Braun - Atualizado em 25 set 2020, 10h47 - Publicado em 25 set 2020, 06h00

Com as cicatrizes da II Guerra Mundial permeando as leis e as instituições da Alemanha, as manifestações da extrema direita permaneceram raras e hostilizadas durante décadas. Não mais. As filas intermináveis de imigrantes que cruzaram as fronteiras da Europa em 2015 deram voz e força aos movimentos racistas e xenofóbicos do continente e a dormente extrema direita alemã aproveitou a oportunidade para sair da sombra — até porque o país foi um dos que mais receberam e acomodaram refugiados na época. Porta-voz do nacionalismo extremado, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), com 89 assentos, tornou-se o terceiro grupo com maior influência no Parlamento e a bancada mais ampla de oposição. Na quinta-feira 17, em mais uma chocante evidência de ressurgimento dos fantasmas do passado, 29 policiais foram suspensos por compartilhar propaganda nazista — suásticas, fotos de Adolf Hitler e até a montagem de um imigrante executado em câmara de gás — em pelo menos cinco grupos de WhatsApp.

Não foi o primeiro rastro de interferência da extrema direita nas forças de segurança da Alemanha. Em julho, um batalhão inteiro da tropa de elite do Exército foi desmantelado diante da comprovação de vínculos com a ideologia nazista, presente nas saudações entre soldados e nas músicas de conteúdo racista que costumavam entoar. As averiguações comprovaram que o comandante desviava explosivos e munição ilegalmente para uso em ataques violentos. Outros 600 militares são investigados atualmente por manter laços com organizações extremistas. Só na unidade criada para o combate ao terrorismo (KSK), vinte comandantes estão na mira da Justiça. “A classe política sempre minimizou o problema do extremismo nas forças de segurança, mas não dá mais para ignorar o problema”, diz Kai Arzheimer, cientista político e professor da Universidade de Mainz.

No ano passado, quando houve crescimento de 10% no número de atos violentos cometidos por grupos nacionalistas, o governo declarou a extrema direita a “maior ameaça” à segurança nacional. A listagem oficial de radicais de direita registra o nome de 32 000 pessoas, das quais 13 000 propensas à violência. Fundado em 2013 por um professor universitário, um jornalista e membros do alto escalão da tradicional centro-direita alemã, o AfD fez da anti-imigração sua principal bandeira e assim se tornou a primeira e única legenda da extrema direita a compor o Parlamento desde o fim da II Guerra. Em estados do leste do país, como Brandenburgo e Saxônia, chega a ser a segunda maior força política.

O discurso anti-imigrantes, no entanto, perdeu espaço com o novo coronavírus e os ultranacionalistas tentam fazer do combate à pandemia agora seu grito de guerra contra os governos e os partidos tradicionais. Nas últimas semanas, duas grandes manifestações em Berlim convocadas para protestar contra as restrições impostas à população foram infiltradas por militantes do Reichsbürger, grupo que empunha a mesma bandeira preta, banca e vermelha do antigo império alemão que serviu de inspiração para o nazismo. Portando emblemas da monarquia prussiana e cartazes exigindo a renúncia da chanceler Angela Merkel, centenas de manifestantes, entre os quase 40 000 presentes, tentaram invadir o prédio do Parlamento e 300 foram presos.

Embora mais de 70% dos alemães se declarem satisfeitos com as medidas para controlar a pandemia — o país é referência nessa luta —, a extrema direita tenta capitalizar o cansaço da população com as restrições ainda em vigor e, principalmente, o desagrado com o desemprego, previsto para se acirrar nos próximos meses. Desde o fim da II Guerra, a Alemanha reprime o extremismo com vigor — o uso de símbolos e expressões do nazismo está proibido, negar fatos ocorridos durante o regime de Hitler é ilegal e a incitação ao ódio é punida com até cinco anos de prisão. Nada disso, porém, vem sendo suficiente para impedir que a extrema direita levante a cabeça. “A memória da geração que viveu a guerra está desaparecendo. Mas não se pode baixar a guarda em um país com essa história”, alerta o historiador Peter Fritzsche, professor da Universidade de Illinois. As eleições previstas para o ano que vem vão pôr em teste as defesas erguidas contra a reedição da barbárie na Alemanha.

Publicado em VEJA de 30 de setembro de 2020, edição nº 2706

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