Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês

O partido de Trump: bilionário é a nova face dos republicanos

Mesmo que venha a perder a eleição para presidente, o movimento que Trump representa moldará a política americana pelos próximos anos

Por Nathalia Watkins Atualizado em 22 jul 2016, 22h15 - Publicado em 22 jul 2016, 22h01

Em 1854, um grupo de abolicionistas se reuniu em Wisconsin para combater a expansão da escravatura. Eram os primórdios do Partido Republicano, que se definiria pela defesa da liberdade. Ao longo dos anos, a legenda sofreu metamorfoses que moldaram sua identidade. Já foi o partido dos presidentes Dwight Eisenhower, em cujo mandato foram aprovadas as primeiras leis de direitos civis, que paulatinamente acabaram com a segregação racial nos Estados Unidos, e Ronald Reagan, o campeão do livre-comércio e do fim da Guerra Fria.

Na semana passada, esse legado foi mandado às favas. O Partido Republicano tornou-se o partido de Donald Trump, o empresário do setor imobiliário e showman falastrão que venceu as primárias e foi aclamado, em convenção da legenda rea­lizada em Cleveland, no Estado de Ohio, como candidato da legenda às eleições presidenciais de novembro. Seu triunfo deveu-se à capacidade de capitalizar um crescente sentimento anti-imigrante, anti-­is­lâmico, antimercado e anti-establish­ment entre uma parcela significativa do eleitorado.

Não é um apoio irrisório. Trump enfrentou 56 primárias e caucus disputados entre dezessete concorrentes, e acabou sendo o pré-candidato mais votado da história do partido, com 14 milhões de votos. Oficializado candidato, já tem o apoio de 80% dos eleitores republicanos. Como em geral os candidatos do partido chegam às urnas com o apoio de 90%, alcançar esse porcentual nesta altura do jogo é um desempenho excelente. “Ele soube captar o desencanto com o governo, a estagnação econômica dos trabalhadores, os medos e as frustrações acerca da imigração e a rejeição ao politicamente correto”, diz o cientista político americano Kyle Kopko, da Universidade Elizabethtown. Seus apoiadores, na maioria trabalhadores brancos de classe média baixa, temem a transformação demográfica que tornou o país mais diverso. Hillary Clinton, a candidata democrata, está na frente nas pesquisas para a eleição de novembro. Na urna final, Trump pode morrer, mas o trumpismo pode nascer — e passar a dominar o conservadorismo americano pelos próximos anos. No discurso de consagração, Trump descreveu os Estados Unidos como um país à beira do abismo cuja única saída é confiar em seus poderes. “A administração falhou em educação. Falhou em emprego. Falhou em crimes. Fracassou em todos os níveis”, disse. “Eu estou com você, eu vou lutar por você e eu vou ganhar por você.”

A era trumpiana do Partido Republicano é ainda mais inevitável porque as lideranças conservadoras que rechaçam os valores abarcados pelo magnata tendem a sair da legenda ou perder voz. Os republicanos tradicionais ansiavam por um retorno grandioso à Casa Branca, mas não a bordo de uma estrela de reality show. O que mais incomoda essa parcela do partido é o desbragado populismo de direita do candidato. A consagração do outsider sem experiência política terá consequências irreversíveis para o partido. A adaptação à nova realidade já começou com mudanças no manual republicano. A plataforma aprovada pelo partido na semana passada foi considerada a mais radical da história e endossou algumas das propostas mais controversas do candidato, inclusive a tétrica construção de um muro na fronteira com o México. “Trump trouxe as vozes que haviam sido silenciadas nas fileiras conservadoras e decodificou posições existentes. Eliminou os eufemismos e usou linguagem explosiva”, diz o cientista polí­tico Mark Major, da Universidade Penn Sta­te. Ao mesmo tempo, ele desafiou bases da ideologia oficial do partido, como a diminuição do papel do Estado e a defesa do livre-comércio. Trump escancara sua fé no protecionismo. Prega o aumento dos impostos sobre produtos da China e do México e a renegociação do Tratado Norte-­Americano de Livre-Comércio (Nafta). “O partido ficou mais radical. Não é o mesmo de Abraham Lincoln, que usou o poder do Estado para libertar escravos. O Partido Republicano moderno não os libertaria, se eles existissem”, diz Major. Mais provável é que voltasse a escravizá-los se livres fossem.

Para ler a reportagem na íntegra, compre a edição desta semana de VEJA no iOS, Android ou nas bancas. E aproveite: todas as edições de VEJA Digital por 1 mês grátis no iba clube.

Continua após a publicidade

Publicidade