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O papel de Ahmadinejad nos ataques a embaixadas em Teerã

Presidente ajudou a planejar invasão a embaixada americana em 1979

Há fortes indícios de que a invasão à embaixada britânica em Teerã, na última terça-feira, tenha um dedo do governo iraniano – a exemplo do ataque semelhante à representação americana no país em 1979, seguida do sequestro de 52 diplomatas. Na época, centenas de “estudantes islâmicos” tomaram a embaixada dos Estados Unidos em Teerã e fizeram reféns para trocá-los pela extradição do Xá Mohamed Reza Pahlevi. O jovem Mahmoud Ahmadinejad, atual presidente iraniano, então com 23 anos e estudante da Universidade de Ciência e Tecnologia de Teerã, era um dos líderes do Escritório pelo Fortalecimento da União, o grupo radical estudantil que organizou o cerco de 444 dias à embaixada americana.

Entenda o caso

  1. • Centenas de manifestantes iranianos invadiram a embaixada britânica em Teerã, em 29 de novembro, queimaram bandeira, saquearam e jogaram documentos fora.
  2. • Uma hora depois, o complexo de Gholhak Garden (onde vivem diplomatas) foi tomado e 6 pessoas foram feitas reféns por 3 horas.
  3. • Os ataques foram uma resposta às sanções adotadas na semana anterior pela Grã-Bretanha contra o programa nuclear iraniano, que segundo a AIEA estaria prestes a fabricar uma bomba atômica.
  4. • Um dia antes, o Irã aprovou uma lei que diminui as relações diplomáticas com o país.

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No livro Guests of the Ayatollah (“Hóspedes do Aiatolá”, em tradução livre), o jornalista Mark Bowden ajuda a esclarecer o papel desempenhado por Ahmadinejad. Inicialmente contra a ideia de ocupar a representação americana – que ele julgava ser um alvo óbvio demais, – ele defendia um ataque à embaixada da União Soviética. Seus colegas de facção, no entanto, venceram a disputa em votação e os americanos foram atacados.

Mais tarde, ao ser eleito presidente do Irã, em 2005, Ahmadinejad foi acusado por alguns dos antigos reféns americanos de 1979 de ter sido um dos sequestradores. Ele negou. Insistiu que não estava lá e contou com a solidariedade de seus antigos colegas no grupo radical, todos sequestradores assumidos naquele episódio, e que vieram em seu socorro para negar que Ahmadinejad estivesse com eles na ação contra os Estados Unidos. Vários desses antigos sequestradores são hoje fortes opositores de Ahmadinejad – o que não os impediu de respeitar os velhos laços dos tempos de terrorismo estudantil.

Se a participação de Ahmadinejad em 1979 permanece envolta em mistério, o mesmo não se pode dizer agora. Tudo indica que o grupo estudantil Voluntários Islâmicos (Basij) esteja por trás do ataque à embaixada britânica. Trata-se de uma facção radical apoiada pelas autoridades iranianas, especialmente pelo líder supremo, o aiatolá Khamenei. Diante do ataque desse grupo radical, Ahmadinejad nada fez. Era seu dever como chefe de governo garantir a segurança dos diplomatas. Ele se omitiu porque, afinal, a Grã-Bretanha é uma das pontas do que os iranianos chamam de tríade satânica (formada também EUA e Israel). E porque, um dia antes da ação, veio do próprio aiatolá Khamenei o sinal verde para os ataques, ao classificar a Grã-Bretanha como símbolo da arrogância do Ocidente imperial, com um “histórico de humilhação de nações, civilizações e culturas”.