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O milionário que resgata imigrantes no mar

Christopher Catrambone criou sua própria fundação de resgate e desde 2014 sai com sua família pelo Mediterrâneo para salvar vidas

Quando Christopher Catrambone, empresário americano de 31 anos, decidiu tirar férias de seu negócio milionário para viajar em seu iate pela costa da Sicília até a Tunísia, não imaginava que seus planos para o futuro estariam prestes a mudar. Dono de uma companhia que oferece seguros em zonas de conflitos – para funcionários do exército americano, voluntários de ONGs internacionais, jornalistas e missionários – Christopher desviou totalmente o rumo de sua vida ao decidir montar sua própria equipe de busca e resgate para salvar imigrantes que se arriscam a atravessar o Mar Mediterrâneo para chegar à Europa.

Durante a viagem de três semanas, que partiu da ilha de Malta – onde vive com sua mulher Regina e a filha dela, Maria Luisa – Catrambone ouviu Marco Cauchi, ex-veterano do exército de Malta e membro das operações marítimas de resgate da ilha, que pilotava o barco, contar suas histórias de resgates e afogamentos. Depois de ouvir os relatos de morte de imigrantes no mar, Catrambone tornou-se obcecado em encontrar uma solução para diminuir as estáticas de refugiados vindos da África e Ásia que acabam à deriva em águas internacionais.

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Em junho de 2014, Cauchi dirigiu pela primeira vez o barco de 40 metros que seria usado nas operações de resgate planejadas por Catrambone. A embarcação, chamada Phoenix, foi levada de Portsmouth, na Virgínia, até a costa de Malta, onde foi totalmente reformada. No total, foram gastos 5,2 milhões de dólares (16,6 milhões de reais) para comprar e reformar o barco. As despesas foram cobertas pela Tangiers Group, companhia de Catrambone, mas a embarcação seria operada por uma fundação criada pelo empresário, a Migrant Offshore Aid Station (Moas), ou Posto de Apoio Marítimo para Imigrantes, em português.

Quando tentou arrecadar fundos para a sua fundação, Catrambone teve de lidar com o ceticismo dos doadores em relação ao seu projeto. Em outubro de 2013, a Marinha italiana havia lançado uma operação para resgatar imigrantes líbios, com custo de 9 milhões de euros (31,9 milhões de reais) por mês. Moas também não sairia nada barata, com gastos mensais de mais de 600.000 euros, ou mais de 2 milhões de reais. Além de adquirir dois botes infláveis, Catrambone também alugou dois drones e contratou uma experiente equipe de busca e resgate.

Assim, em agosto de 2014, quando a crise imigratória se intensificava, o Phoenix saiu em sua primeira missão internacional, rumo à costa da Líbia. Naquele ano, 100.000 pessoas se aventuraram em barcos que deixavam a costa do país. Dessas, pelo menos 3.400 morreram.

Imigrantes que foram encontrados em um barco no mar tentam agarrar uma garrafa d'água. Mais de 700 imigrantes foram achados a deriva em um navio pesqueiro seis dias atrás e foram levados a Mianmar Imigrantes que foram encontrados em um barco no mar tentam agarrar uma garrafa d’água. Mais de 700 imigrantes foram achados a deriva em um navio pesqueiro seis dias atrás e foram levados a Mianmar

Imigrantes que foram encontrados em um barco no mar tentam agarrar uma garrafa d’água. Mais de 700 imigrantes foram achados a deriva em um navio pesqueiro seis dias atrás e foram levados a Mianmar (/)

O plano era agir de acordo com as instruções do Centro Coordenador de Resgates Marinhos (MRCC, na silga em inglês), em Roma, que cobre a zona de travessia desde a Líbia, e pode ordenar qualquer embarcação a realizar os resgates. O primeiro chamado veio depois de 4 dias, em 30 de agosto. Rapidamente, a equipe da Moas se viu envolvida em dois resgates simultâneos, incluindo o de um barco de pesca que carregava 350 pessoas, muitas delas vindas da Síria, que estava afundando aos poucos. O resgate salvou muitas crianças pequenas e deixou toda a tripulação emocionada: “Essas crianças e mães estavam nas mãos do mar, nas mãos da morte”, contou Catrambone ao The Guardian. Em 10 semanas, o Phoenix resgatou 1.462 pessoas e ajudou outras 1.500 em navios da Marinha italiana. Enquanto Catrambone acompanhava as missões de resgate que deixavam a embarcação nos botes, Regina e sua filha ajudavam a cuidar dos imigrantes resgatados.

Catrambone não está interessado na parte política ou legal dos resgates. Para ele, o grande ponto é salvar vidas. “Se você é contra salvar vidas no mar, então você é um fanático e não pertence a nossa comunidade. Se você permite que seu vizinho morra em seu quintal, então você é responsável por aquela morte”.

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Falta de apoio – Em abril de 2015, a tripulação do Phoenix se preparou para mais uma temporada de resgates. Dessa vez, foram auxiliados pela filial holandesa da organização Médico Sem Fronteiras, que cuidaria dos imigrantes a bordo. O apoio de uma organização de renome não representou aumento nas poucas doações que recebe. Pelo contrário: depois de anunciar que se uniriam ao Phoenix, o Médicos Sem Fronteiras também perdeu alguns dos seus doadores, que aparentemente não concordam com a acolhida dos refugiados.

A primeira missão de 2015 envolveu dois barcos de pesca lotados de imigrantes da Eritreia, que fogem de uma ditadura que já dura mais de 20 anos conhecida por torturas, mortes extrajudiciais e serviço militar forçado. Mesmo com problemas no momento do resgate – vazamento de ar de um dos botes e três pessoas quase morreram afogadas – a tripulação considerou a operação um sucesso. Depois de dois dias de viagem, os refugiados foram recebidos em acampamento com tendas para atendimento médico e alimentação na costa da Sicília.

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Catrambone afirma que acabaria com as operações da Moas no Mediterrâneo se a Europa tivesse algo melhor para oferecer, mas que, infelizmente, não parece provável que isso aconteça em breve. Ele afirma que gostaria de ter um orçamento maior, de 10 milhões de euros por anos, para fretar um barco maior que o Phoenix, capaz de fazer o trajeto das zonas de resgate até a costa siciliana em cinco ou seis horas. Atualmente, seu barco opera em águas internacionais, próximas à costa da Líbia. Catrambone, no entanto, não descarta a possibilidade de navegar por outros mares – uma tragédia semelhante à vista no Mediterrâneo também ocorre em Mianmar, com a minoria muçulmana Rohingya fugindo de perseguição. Mas, para tudo isso, precisa de mais dinheiro.

O futuro não parece promissor, mas Catrambone e sua mulher se orgulham de seu trabalho. “Mesmo que um dia a gente fique pobre, eu nunca mudaria nada”, diz, confiante de que se algum dia seu negócio falir, ele e sua mulher não teriam nenhum arrependimento em ter gastado tanto dinheiro e tempo nas operações de resgate.

(Da redação)