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O inimigo nº 1 de Evo Morales

Filho de imigrantes iugoslavos, o boliviano Branko Marinkovic, 41 anos, realizou uma viagem por vários países para denunciar a prisão de mais de quarenta jornalistas e políticos de oposição na Bolívia. Presidente do Comitê Cívico do departamento de Santa Cruz e líder do movimento por autonomia regional, é considerado o “inimigo número 1” do presidente Evo Morales. Marinkovic conversou com o repórter Duda Teixeira, por telefone.

O senhor se considera o inimigo número 1 de Evo Morales? Não penso assim. Quando me identifica como seu maior inimigo, o presidente não está promovendo um ataque contra uma ou outra pessoa, mas contra todo o sistema democrático. A questão é que eu me considero o amigo número 1 da democracia na Bolívia.

Como o senhor tem sido atacado? Um documentário de quase oito minutos transmitido pelo Canal 7, estatal, vincula eu e meu pai ao nazismo e à matança de judeus na II Guerra, o que é totalmente falso. O vídeo fala do meu passado e insere imagens de campo de concentração. Eu não tenho nada a ver com isso (assista abaixo o vídeo do canal estatal 7). Meu pai, que era croata, lutou por quatro anos com os comunistas contra os alemães e os fascistas. Exatamente o contrário. E ofensas assim têm sido uma constante. Primeiro, fazem uma campanha difamatória na mídia. Em seguida, iniciam processos judiciais sem qualquer fundamento. O objetivo final é conseguir a morte civil de todos aqueles que pensam de forma diferente.

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Que processos? Fui acusado de ter me apropriado indevidamente de terras e de ter forjado os documentos de posse. O julgamento durou nove meses e durante esse período fui caluniado até por ministros do governo. Ao final, fui absolvido. Ficou comprovado que as terras tinham sido adquiridas por meu pai sem qualquer irregularidade. Mas é a campanha na mídia que fica na cabeça das pessoas, não a decisão do juiz.

A Justiça tem atuado de forma independente? Em alguns lugares, sim. Em outros, não. Alguns réus de processos são obrigados a ir a julgamento em outro departamento que não possui qualquer relação com o caso. Apesar de ser de Santa Cruz, eu fui julgado em La Paz, sede do governo. Da mesma forma, jornalistas que foram presos em Pando estão detidos na capital sem qualquer acusação formal.

Por que seus pais migraram para a Bolívia? Na ex-Iugoslávia do ditador comunista Tito, meu pai disse em uma reunião de estudantes universitários que o comunismo era bonito no livro, mas que a economia não iria funcionar. Por conta disso, passou nove meses preso em regime de trabalhos forçados em uma ilha. Minha mãe teve o pai e irmão fuzilados por estarem contra o regime. Quando meu pai ficou livre, os dois decidiram ir para a Bolívia onde um avô meu trabalhava em uma empresa inglesa.

Qual é a diferença entre o comunismo daqueles tempos e o de agora? Antes, atacava-se a democracia usando armas. Agora isso é feito com dinheiro e campanhas políticas na mídia.

No ano passado, o senhor foi acusado pelo governo de ser o responsável pela inflação do preço dos alimentos. Como vê isso? Não foi culpa minha, mas da economia mundial. O valor das commodities e do petróleo subiu de maneira recorde no ano passado. O governo, então, em lugar de estimular mais produção, proibiu a exportação. Sem poder vender ao exterior, muitos fazendeiros desistiram do negócio. Agora, o valor das commodities e do petróleo caiu, mas os preços dos alimentos seguem altos porque há escassez de produtos.

Caso Morales consiga impor uma nova constituição, o senhor pretende continuar na Bolívia? Sim. Minhas empresas criam 16.000 empregos diretos e indiretos. São pessoas que dependem de mim. Além disso, foi nesse país que nasci e pude aproveitar as oportunidades. Quero que meus filhos cresçam em um ambiente semelhante e com liberdade.