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O drama dos pais dos brasileiros feridos

VEJA acompanhou os familiares que embarcaram ao encontro de dois brasileiros que estavam nas ruas de Paris durante os ataques terroristas

A voz ofegante, mas nítida, em mensagem enviada por WhatsApp, a garantia de que tudo vai bem, era o único consolo de Patrícia Santos e Abel Camargo na sala de espera do voo da Air France que, na tarde de sábado, os levaria para Paris. De um leito do hospital Bichat-Claude Bernard , o filho do casal, o arquiteto Gabriel Sepe, de 29 anos, se ateve àqueles 30 segundos tranquilizadores. Ele acabara de ser operado para a retirada das balas que o atingiram no pulmão e na tíbia. Gabriel estava com um grupo de amigos brasileiros no restaurante Le Petit Cambodge, próximo ao Canal Saint-Martin, quando a fuzilada começou. Pelo menos doze pessoas morreram ali.

A poucos metros de Abel e Patrícia, as irmãs Maria Victoria e Rita Mendes Gonçalves esperavam um outro voo que os levaria a Paris e ao encontro de Camila Issa, de 29 anos, estudante de psicologia na Universidade Sorbonne-Paris VII, internada no hospital Pitié-Salpêtrière. Camila também estava no Le Petit Cambodge. Pelo menos sete estilhaços atingiram-na.

Gabriel e Camila não se conheciam. O destino lhes pôs lado a lado no pior atentado da história da França. As mães, evidentemente, também não. Na manhã deste domingo, recepcionada por um funcionário do consulado brasileiro em Paris, Victoria misturava cansaço com ansiedade. “Sei que minha filha está bem porque ela mesmo telefonou”, disse a VEJA. “Mas só terei certeza depois de vê-la, de abraçá-la.” Informada da chegada dos pais de Gabriel, já na saída do Aeroporto Charles de Gaulle, Victoria se agitou. “Quero vê-los, quero saber quem são, estamos numa mesma história maluca.”

O abraço foi rápido e emocionado, com choro de materna cumplicidade. “Inacreditável”, disse Victoria. “Parece um filme”, respondeu Patricia. Uma e outra passaram informações sobre os filhos – aparentemente bem, ambos. Não era assim que desejavam voltar a Paris, mas assim foi, num encontro improvável. “Onde vamos parar?”, indagava Abel, pai de Gabriel, instado a falar do terrorismo. A mãe de Camila lamentava a tragédia, o azar de a filha estar diante dos tiros, mas a sorte de tê-la viva, e se perguntava se ela aceitaria ficar por mais um ano em Paris, tempo que lhe resta de mestrado. “Não sei, não sei”. A resposta veio depois de uma consulta com a irmã, psicóloga como a sobrinha, que a acompanhava. “Acho que sim, ela fica”, determinou Rita, a tia, ao lembrar que o próprio campo de estudos de Camila é um atalho para sua estada na França de 2015, ano do Je Suis Charlie e do 13 de novembro. Ela estuda os reflexos psicológicos nos grupos de imigrantes que vivem na França.

A caminho dos hospitais, as famílias de Camila e Gabriel viram nas ruas de Paris ônibus de turistas, especialmente orientais, que paravam para fotografar ícones como o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel, que ainda estão lá, firme, fortes e ensolarados, porque sempre haverá Paris.

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