Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

O ano das cúpulas no Paraguai

Julia R. Arévalo.

Assunção, 14 dez (EFE).- Em meio ao otimismo pela celebração do bicentenário e pela bonança de sua economia, o Paraguai se esforçou em 2011 para receber as cúpulas Ibero-Americana, do Mercosul e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), ofuscadas pela significativa ausência de seus vizinhos.

No final de junho, o Paraguai entregou a presidência temporária do Mercosul ao Uruguai em uma reunião de líderes em Assunção que não contou com a presença da argentina Cristina Fernández de Kirchner, seguindo o conselho de seus médicos, segundo a explicação oficial.

Na 21ª Cúpula Ibero-Americana as ausências foram muitas e significativas: além de Cristina, faltaram ao compromisso a presidente Dilma Rousseff e o presidente do Uruguai, José Mujica, os outros sócios do Paraguai no Mercosul.

Analistas políticos em Assunção destacaram que a intenção clara foi ‘esvaziar’ o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, para demonstrar a rejeição à sua política externa, uma vez que o Paraguai continua bloqueando o ingresso no Mercosul da Venezuela (cujo presidente também não compareceu às cúpulas de outubro).

Lugo ignorou a desfeita e preferiu destacar o consenso que levou à Declaração de Assunção, na qual os líderes ibero-americanos enfatizaram o ‘papel do Estado na erradicação da pobreza e na redução da desigualdade, através de um investimento social sustentado’ e se comprometeram a proteger os ‘setores mais vulneráveis em tempos de crise’.

A crise nos Estados Unidos e na Europa e suas possíveis repercussões na América Latina dominaram os debates da reunião ibero-americana.

Em entrevista à Agência Efe, Lugo antecipou que o Paraguai não poderá repetir em 2011 a ‘façanha’ de 15% de crescimento de sua economia de 2010, que serviu, nas palavras do analista Alfredo Boccia, para que ‘o mundo inteiro prestasse atenção’ no país.

‘Isto ocorreu em um país que os economistas mundiais não sabiam localizar no mapa’, comentou à Efe Boccia, para quem esta conquista é mais importante para o Paraguai que sua incapacidade de atrair os vizinhos para cúpulas que servem apenas para renovar ‘expressões de desejos que nunca se cumprem’.

Um deles, refletido na Declaração de Assunção, é a velha reivindicação de livre trânsito do Paraguai por sua condição de país mediterrâneo, que perpetua seu isolamento e o torna dependente de seus vizinhos para o transporte de mercadorias.

Como observou Boccia, se Brasil e Argentina se recusam a participar de cúpulas é ‘para não escutar exigências, principalmente as vinculados ao comércio fronteiriço’.

Apesar de tudo, Boccia considerou que o Paraguai conseguiu em 2011 ‘tirar proveito’ de sua localização no mapa econômico mundial com o crescimento ‘inédito’ do ano anterior, embora neste a previsão do Banco Central tenha reduzido para 5,5%.

Um golpe para a economia nacional aconteceu em setembro com a suspensão de exportações de carne bovina (sua segunda fonte de divisas, depois da soja) por um surto de febre aftosa detectado em uma fazenda de San Pedro, no centro do país.

E o Governo enfrenta ainda o desafio de reduzir notavelmente os números da pobreza: 54,8% dos paraguaios são pobres e 30,7% indigentes, segundo dados de 2010 de um recente relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) que coloca o Paraguai no segundo pior posto de toda região, atrás de Honduras.

Entre as conquistas do Executivo, além de um ano de relativa estabilidade política, sem escândalos relacionados com a vida privada de seu presidente nem recaídas médicas do câncer que diagnosticou em 2010, o destaque foi um acordo em maio com o Brasil para triplicar o pagamento pelo excedente de energia paraguaio da central de Itaipu, que renderá US$ 360 milhões ao ano.

E entre as derrotas chamou a atenção o ponto final dado em julho pelo Senado a um projeto de emenda constitucional, por via de referendo, que teria permitido Lugo se apresentar à reeleição em 2013 ao término de seu mandato de cinco anos.

Lugo era incentivado pelos setores da esquerda que apoiam o ex-bispo e cujas relações com seus supostos aliados do Partido Liberal Radical Autêntico foram se tornando cada vez mais frias. EFE