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“Numa democracia, quem quer reforma deve ir para as ruas”, diz historiador americano

Para Don Doyle, mesmo quando atacado pela corrupção, o sistema democrático tem a vantagem de poder se corrigir no próximo pleito

O historiador Don Doyle, de 68 anos, é um especialista em história americana particularmente interessado no Brasil. Já esteve aqui meia dúzia de vezes e morou um semestre no Rio de Janeiro, em 2004, quando deu aulas na Pontifícia Universidade Católica, graças a uma bolsa oferecida pelo programa Fulbright, vinculado ao governo dos Estados Unidos. Em sua obra mais recente, The Cause of All Nations – an International History of the American Civil War (A Causa de Todas as Nações – uma História Internacional da Guerra Civil Americana), lançada em dezembro e ainda sem tradução para o português, ele revisita um tema explorado à exaustão. O mérito do livro está, justamente, em sua originalidade. O estudo trata da influência do conflito americano na política de outros países – incluindo, não por acaso, também o Brasil. Segundo o historiador, a lei do ventre livre, por exemplo, que marca o início do fim da escravidão no país, foi consequência das batalhas travadas entre o Norte e o Sul dos EUA. A ideia central dele é que a Guerra Civil americana representou uma prova de fogo para a democracia moderna – as nações europeias não acreditavam que, àquela altura, um governo do povo pudesse dar certo em qualquer parte do planeta. Deu certo – e “em grande parte do mundo, incluindo o Brasil”, frisa Doyle, professor da Universidade da Carolina do Sul, em entrevista a VEJA. No entanto, “olhando para trás, é possível verificar que a democracia também pode produzir desgoverno e corrupção”, ressalta ele. “Mas a essência do sistema democrático é o poder que ele dá aos cidadãos para substituirem pacificamente seus líderes numa próxima eleição. Antes, porém, os reformadores devem ir para a praça pública fazer com que suas vozes sejam ouvidas. É isso o que, para este observador estrangeiro, está ocorrendo agora no Brasil”, analisa o historiador. “Espero que o país seja bem-sucedido na busca interminável daquilo que Lincoln chamou de governo do povo, pelo povo e para o povo”.

Por que o senhor escolheu um assunto já tão explorado como tema de seu livro mais recente? É verdade – há mais livros escritos sobre a Guerra Civil americana do que sobre qualquer outro grande evento da história do país. Além de ser um tema fascinante, parece que há um apetite inesgotável pelo assunto. E não só da parte dos historiadores, mas também dos leitores comuns. De qualquer maneira, de todos os livros que li sobre a Guerra Civil, nunca encontrei um que explorasse o que ela de fato significava para o mundo como um todo. Há bons trabalhos sobre a diplomacia na Guerra Civil, porém eu mergulhei em jornais e cartas da época, memórias de intelectuais, jornalistas, políticos e mesmo cidadãos comuns. Eles realmente acompanhavam a crise americana. Não era só mais uma guerra civil. Era algo que eles percebiam como uma disputa entre a liberdade, a democracia, a república e o governo eleito pelo povo em oposição às forças da dinastia e ao poder hereditário.

E por que a guerra era tão debatida fora dos Estados Unidos? Por muitas razões diferentes. O sul dos Estados Unidos, naquela época, fornecia por volta de 80% de todo o algodão do mundo e, portanto, havia uma apreensão das indústrias na Europa de que esse fornecimento fosse cortado ou reduzido e de que o conflito motivasse manifestações trabalhistas. Governos e pessoas em geral se interessavam pelos desdobramentos americanos porque os conservadores da Europa e da América Latina viam a Guerra Civil americana como uma prova de que governos democráticos não funcionavam. Achavam que era questão de tempo até que todas as repúblicas acabassem em anarquia ou despotismo. Muitos acreditavam que a grande república dos anglo-saxões iria acabar em guerra civil, justamente como a América Latina, após a independência. Para eles, a democracia e a república simplesmente não funcionavam. Contrapondo-se a essa turma, estavam os republicanos, aqueles que acreditavam em um governo do povo. No início eles negaram, mas depois abraçaram a ideia de que a guerra civil era uma prova de fogo para o experimento democrático. Muitos estrangeiros foram voluntários no exército da União (que representava os estados do Norte, não secessionistas). Muitos já estavam nos Estados Unidos, mas vários outros viajaram para integrar a luta. Eles vinham da Europa e dos países ao norte da América Latina. Estimo que 40% dos soldados da União fossem imigrantes descendentes de democratas e um quarto deles tenha nascido em países estrangeiros. Eles estavam lutando pela América, mas também por essa causa internacional de liberdade, de governo do povo e da democracia.

A guerra influenciou a política global daquela época? Tremendamente. Essa guerra estabeleceu reformas, emancipou os escravos e mudou a política global. No final de A Causa de Todas as Nações, eu escrevo sobre o ressurgimento republicano na América Latina. Em 1868 (três anos após o fim da Guerra de Secessão), em Cuba, eclodiu uma guerra pela independência, a Guerra dos Dez Anos. Com isso, os republicanos ofereceram emancipação aos escravos, para que eles os ajudassem a lutar. Isso pôs a escravidão em sua rota de extinção em Cuba. No Brasil, Dom Pedro, ainda durante a guerra, alertou seu governo de que a vitória da União teria impacto no país e que era preciso considerar o futuro da escravidão. Mais tarde, depois de Cuba ter adotado a lei do ventre livre, em 1870, o Brasil debateu uma lei similar, em 1871. Geralmente, os historiadores precisam inferir sobre como um evento influencia outro, mas, nesse caso, há uma correlação clara entre os fatos. Há um discurso muito bonito, feito por Zacarias de Góis e Vasconcelos, no Senado brasileiro, em setembro de 1871, que explicita o impacto do conflito no país. O trecho de que mais gosto é este: “…ficando o Brasil país único escravocrata na América, não era possível manter-se entre nós semelhante situação. Nem era preciso que empunhassem armas para compelir-nos a dar um passo no sentido da emancipação, bastava o riso do mundo, bastava o escárnio de todas as nações, apontando para o Brasil como país amigo da escravidão, disposto a mantê-la indefinidamente”. Era um período estranho na América Latina. Os liberais da região imploravam para que os Estados Unidos entrassem e os protegessem dos impérios monárquicos europeus. A experiência monárquica europeia começa a cair com o fim da Guerra da Secessão. Um exemplo é o de Napoleão, que decide tirar suas tropas do México, em 1866. Na Europa, a Inglaterra passa por uma grande reforma em 1867 e pessoas vão protestar no Hyde Park, demandando uma democracia ao estilo americano, onde todos pudessem votar. Na França, o país volta a ser uma república. Houve muitas mudanças ao redor do mundo. A guerra não era só a respeito da escravidão, mas também sobre democracia e igualdade.

O conflito ajudou a extinguir a escravidão no Brasil? Sim. O fim da escravidão no Brasil foi algo gradual. No discurso que citei anteriormente, eles estavam justamente discutindo os últimos acontecimento nos Estados Unidos e em Cuba. O Brasil tinha ficado sozinho. A escravidão só foi abolida em 1888, mas ela começou a caminhar para o fim em 1871. Antes disso, em 1864, houve uma recomendação de Dom Pedro ao próprio Zacarias de Góis e Vasconcelos, chefe do novo gabinete ministerial. Ele disse: “Os sucessos da União americana exigem que pensemos no futuro da escravidão no Brasil, para que não nos suceda o mesmo que a respeito do tráfico de africanos. A medida que me tem parecido profícua é a da liberdade dos filhos dos escravos, que nascerem daqui a um certo número de anos. Tenho refletido sobre o modo de executar a medida; porém é da ordem das que cumpre realizar com firmeza, remediando os males que ela necessariamente originará, conforme as circunstâncias permitem. Recomendo diversos despachos do nosso ministro em Washington, onde se fazem mais avisadas considerações sobre este assunto”.

Uma população dividida, como estava a americana na época da Guerra Civil e como ficou a brasileira após a recente eleição presidencial, invariavelmente motiva mudanças de grande porte ou as paralisa? Pode acontecer as duas coisas. Nós estamos bastante divididos nos Estados Unidos também. Os partidos parecem estar estimulando essa divisão. Nós não estamos nem um pouco próximos de uma guerra civil e espero que vocês também não estejam, o que geralmente acontece quando há uma disputa sobre questões que não podem ser resolvidas de outra maneira. O que posso dizer é que, se a alternativa para resolver a questão politicamente é a guerra civil, então, a democracia não pode funcionar. Abraham Lincoln afirmava: “O princípio mais básico da democracia é a lei da maioria”. A maioria ganha e a minoria precisa se organizar para reverter a situação. Lincoln, desde o início, via isso como uma das questões mais básicas da democracia. As pessoas podem governar a si mesmas? Podemos provar que um governo eleito pelo povo dá certo? A democracia está sempre sendo julgada.

Qual país na América Latina é um exemplo de democracia? O Brasil.

Mesmo com tantos casos de corrupção vindo à tona? A democracia é uma bagunça. Há muitos conflitos, é barulhenta, confusa. Nesse tipo de regime, pode acontecer de elegermos um governante que não está preparado para desempenhar o papel de líder da nação. Em uma democracia, todos estão aprendendo com ela. Mesmo que traga alguma corrupção, alguns governantes bobalhões, a democracia tem a capacidade de se corrigir. Na próxima eleição, você pode tirar os palhaços de cena e eleger um time todo novo. Como dizia Lincoln: “… entre os homens livres, não pode haver apelação bem-sucedida que os leve da cédula (eleitoral) à bala”.

Qual a sua avaliação das manifestações do último domingo, dia 15 de março, contra o governo Dilma Rousseff? Li com interesse as notícias sobre os protestos dos brasileiros, especialmente porque eles ocorreram no trigésimo aniversário do retorno da democracia ao Brasil. Como eu disse antes, meu livro A Causa de Todas as Nações mostra como em todos os lugares, na década de 1860, as pessoas estavam debatendo a questão da viabilidade do “governo do povo”; se aquele não era mais um experimento sem esperança, fadado a acabar em anarquia ou despotismo. A vitória da Amércia em 1865 deu esperança às pessoas da Europa e da América Latina de que a democracia poderia poderia ser a onda do future. E ela se tornou o futuro para grande parte do mundo, inclusive para o Brasil. Mas, olhando para trás, conforme destaquei, é possível verificar que a democracia também pode produzir desgoverno e corrupção, tal como as monarquias dinásticas. Mas a essência do sistema democrático é o poder que ele dá aos cidadãos para substituirem pacificamente seus líderes numa próxima eleição. Antes disso, os reformadores devem ir para a praça pública fazer com que suas vozes sejam ouvidas. É isso o que, para este observador estrangeiro, está ocorrendo agora no Brasil. Espero que o país seja bem-sucedido na busca interminável daquilo que Lincoln chamou de governo do povo, pelo povo e para o povo.

No livro Nacionalismo no Novo Mundo (Record, 2008), o senhor escreve que a América Latina foi negligenciada no debate sobre o tema central da obra. Por quê? Entre os acadêmicos, muito do interesse pelo nacionalismo emergiu durante a ascensão do nazismo na Alemanha. Os estudiosos tentavam explicar por que esse sentimento havia sido despertado diante da ideia de uma raça pura e cresceu a ponto de se tornar maior do que qualquer religião. O nacionalismo era uma espécie de religião cívica. Parecia uma doença que não afetava as nações americanas. Neste livro, escrito em parceria com o historiador brasileiro Marco Pamplona, da PUC-Rio, não tratamos do nacionalismo como uma doença, mas como um jeito natural de as pessoas se identificarem e explicarem suas histórias. Frequentemente o nacionalismo é associado à arrogância ou à agressão, mas tem também uma presença ordinária e banal nas nossas vidas. É um jeito de explicar quem somos, de dar um senso de propósito às nossas vidas para além da vida individual. Uma das facetas que mais chama atenção no nacionalismo no mundo moderno é o fato de cidadãos estarem dispostos a lutar e a morrer por suas nações. É difícil imaginar, do ponto de vista de quem habita o continente americano, a organização de um exército para lutar pela nação.

O senhor acredita que o modelo democrático está em crise? Sim e, portanto, é preciso que nossos líderes estudem alternativas e enfrentem esse período com uma percepção mais ampla de toda história. No século 19, tinha-se a visão de que as nações não eram apenas um grupo de pessoas de raças diferentes, mas que tinham missões históricas de demonstrar ao mundo valores, como o de um governo do povo, ou de deixar um legado. Esses ideais e esse senso de missão histórica são muito importantes; inspiram e mantêm as pessoas e os governos focados em objetivos maiores do que apenas ser eleito ou ganhar poder e enriquecer. As nações dão um propósito maior a tudo isso.

Os Estados Unidos sempre foram vistos como o bastião da democracia. O crescimento de países como Rússia e China são uma ameaça à liderança americana? Há preocupações no âmbito da competição econômica e geopolítica, mas, do ponto de vista dos ideais, eles não são exclusivos dos americanos. A igualdade, a liberdade, os direitos iguais e a democracia são ideais compartilhados com republicanos na França, na Inglaterra, na América Latina. É por isso que o título do meu livro é A Causa de Todas as Nações. Os Estados Unidos e a Guerra Civil americana eram importantes porque lutavam por uma causa que não era exclusiva deles. Os Estados Unidos não veem a China ou a Rússia como uma ameaça. São esses países que veem os valores democráticos como uma ameaça ao poder deles. No fim, acho que os ideais democráticos serão melhor defendidos por si só do que por exércitos ou armas. São valores universais, alinhados com a maneira como a maioria das pessoas gostaria de viver.

O terrorismo pode mudar os valores democráticos? Se vai mudar ou não, saberemos com o tempo, mas é uma ameaça e tanto. O propósito do terrorismo é justamente assustar as pessoas. Vemos atos de terrorismo quase todos os dias e ele está virando uma parte corriqueira de nossas vidas. O governo está invadindo nossa privacidade para monitorar terroristas. Há uma infinidade de procedimentos de segurança. O terror fará com que os cidadãos aceitem essas medidas autoritárias, mesmo que elas cerceiem a liberdade deles próprios. Esse é o propósito do terrorismo. É muito perturbador porque, nas sociedades livres, a vida cívica depende da confiança no outro e da certeza de que podemos nos movimentar livremente sem explodir junto com uma bomba. O cidadão não precisa do estado para protegê-lo o tempo todo. O terrorismo é, certamente, uma ameaça aos ideais mais básicos da democracia.