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Novo presidente do Banco do Vaticano é alvo de críticas

Alemão Ernst von Freyberg é ligado a estaleiro que fabrica navios de guerra

A designação de Ernst von Freyberg para presidir o Banco do Vaticano, instituição envolvida em escândalos, não significará o fim da controvérsia. O advogado alemão cuja nomeação foi aprovada pelo papa Bento XVI nesta sexta-feira vai continuar a fazer parte do quadro executivo do estaleiro alemão Blohm + Voss, envolvido na produção de embarcações para o governo nazista. A suspeita sobre desvios na instituição era um dos temas que angustiavam Joseph Ratzinger no último ano de seu pontificado, principalmente porque a busca de uma solução dividia o Vaticano.

Como presidente do Instituto de Obras de Religião, nome oficial do banco, Freyberg vai comandar os esforços para melhorar a imagem da instituição, que está sob investigação por suspeita de lavagem de dinheiro. E que passou os últimos nove meses sem presidente – Ettore Gotti Tedeschi foi destituído em maio do ano passado pelo conselho de supervisão do banco. O italiano foi acusado de negligenciar suas responsabilidades elementares de gerenciamento e de violar as normas sobre prevenção de lavagem de dinheiro.

Logo depois do anúncio, no entanto, o Vaticano teve de explicar a ligação de Freyberg com o estaleiro sediado em Hamburgo, do qual ele é acionista minoritário. O porta-voz Federico Lombardi teve de responder como a Igreja justificava a designação de alguém que trabalha para uma companhia com um longo histórico de fabricação de navios de guerra, inclusive para a Alemanha nazista.

Inicialmente, o Vaticano ressaltou que a empresa não estava mais envolvida nesse tipo de negócio. Depois, divulgou um comunicado dizendo que a atividade principal da Blohm + Voss é a manutenção de embarcações e a construção de iates de luxo, e que a companhia também faz parte de um “consórcio que está construindo quatro fragatas para a marinha alemã”. Afirmou ainda que quando o trabalho com as quatro embarcações estiver completo, a empresa “será 100% não-militar”.

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Desde dezembro de 2001, o braço militar da Blohm + Voss, a Blohm + Voss Naval, está separada do estaleiro Blohm + Voss, informou o Washington Post. Segundo o jornal, no entanto, o envolvimento de Freyberg com a companhia data de muito antes da divisão. A empresa confirmou que o novo presidente do Banco do Vaticano é descendente de um dos fundadores do estaleiro.

Escolha – O Vaticano pontuou que a nomeação de Freyberg resultou de um “esmerado e detalhado” processo de seleção. Pela primeira vez, o Vaticano contratou uma agência internacional para escolher um candidato de “excelência moral e profissional”. As tensões que se escondem sob as nomeações para a cúpula do banco ainda não permitem saber a qual ala o presidente escolhido agradou.

Mas a atuação da agência na busca de um candidato não apaga a sensação desagradável de uma igreja preocupada em preencher as últimas vagas no poder, como se houvesse um pressentimento de que depois da saída do papa, isso não será mais possível, aponta o jornal Corriere della Sera, em artigo publicano nesta quinta.

E, de qualquer maneira, se por quase nove meses a instituição ficou sem presidente, de onde vem a necessidade de nomear alguém agora, sem esperar a eleição do novo papa? Pergunta o diário. “Pode parecer uma objeção capciosa, levantada por aqueles que não perdoam o “primeiro-ministro” de Joseph Ratzinger de ter centralizado o poder financeiro da Santa Sé em suas mãos”, diz o texto, referindo-se ao número dois do Vaticano, o secretário de Estado, Tarcisio Bertone.