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Novo premiê toma posse – e o desafio é cumprir o mandato

Yoshihiko Noda é o sexto chefe de governo a comandar o país em cinco anos

Por Cecília Araújo 30 ago 2011, 02h21

A Câmara Baixa do Japão nomeou nesta terça-feira o novo primeiro-ministro do país, cuja nomeação ainda será votada no Senado, mas apenas por protocolo. Isso significa que Yoshihiko Noda já é efetivamente o novo chefe de governo do país. E ele tem pela frente um desafio tão (ou mais) importante quanto superar a grave crise econômica interna: manter-se no cargo até o fim do mandato. São cinco anos – período em que o país já trocou de premiê nada menos do que seis vezes. Com a renúncia de Naoto Kan oficializada na segunda-feira, a eleição do ex-ministro das Finanças para presidente do Partido Democrático Japonês (por 308 votos a favor e 157 contra) transformou-o no novo premiê. A expectativa sobre Noda é grande também devido à delicada situação do país, que ainda sofre com a crise nuclear de Fukushima, o desafio da reconstrução – após o tsunami de 11 de março -, a deflação persistente e o contínuo fortalecimento do iene – que prejudica a exportação, que é o motor da economia.

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Basta recapitular um pouco o passado do Japão para concluir que a decisão de escolher Yoshihiko Noda para o cargo – em vez do ministro de Indústria e Comércio Exterior, Banri Kaieda, seu concorrente – não foi uma surpresa. O novo premiê é um estadista conhecido por defender a disciplina fiscal, o que se encaixa perfeitamente com a necessidade dos japoneses de sair do lamaçal onde estão atolados há anos, segundo o cientista político do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) José Niemeyer. “Era preciso alguém que fosse capaz de controlar os gastos públicos e, ao mesmo tempo, tirar as amarras que prendem a economia japonesa”, analisa. Um dos raros temas para o qual Naoto Kan contou com o apoio popular durante o único ano em que permaneceu no poder, foi o projeto de reduzir a energia nuclear, a exemplo do que alguns países europeus já começaram a discutir após o acidente na usina nuclear de Fukushima. Noda, ao que tudo indica, deve seguir com o projeto.

Contudo, propostas populares não são sinônimo de popularidade no Japão. Noda até já disse que não espera ser unanimidade, principalmente junto à imprensa. E a falta de empatia pode prejudicá-lo, assim como fez com seus cinco últimos antecessores (confira quadro abaixo). A imprensa e os formadores de opinião têm cada vez mais influência do Ocidente – onde ter carisma é fundamental. E o exemplo mais recente que o país tem para se espelhar é muito distante: Junichiro Koizumi deixou o cargo há mais de cinco anos, após cumprir todo o mandato (2001 a 2006) e gozar de uma invejável popularidade. “Esse perfil de líder tende a mudar de acordo com a lógica de economia global, em que parcerias são importantes para qualquer negócio. E sair dessa posição de ‘pés de barro’ envolve uma liderança mais carismática”, destaca Niemeyer. O caminho que Noda tem a percorrer é delicado e exige um jogo de cintura descomunal, porque se a sociedade não perceber uma mudança relevante na postura do novo premiê, a contagem regressiva para sua saída já pode estar prestes a começar.

Yoshihiko Noda, novo premiê do Japão
Yoshihiko Noda, novo premiê do Japão VEJA

Perfil – Yoshihiko Noda, de 54 anos, nasceu em Funabashi, subúrbio da capital Tóquio. É casado e tem dois filhos. Formou-se em Ciências Políticas e Econômicas pela Universidade de Waseda, em 1980. Estudou também no Instituto Matsushita de Governo e Gestão, de formação de líderes. Iniciou sua carreira política em 1987, na prefeitura de sua província-natal, Chiba, e seis anos depois, entrou para o Parlamento pela primeira vez. Filho de militar, tem posições conservadoras. Como ministro das Finanças da gestão de Naoto Kan, além da disciplina fiscal, sempre defendeu a aliança com os Estados Unidos. Ao ser eleito premiê, pediu unidade do partido, que enfrenta uma profunda divisão atualmente, assim como todo o Parlamento. Por isso, pode até considerar a criação de uma coalizão com o Partido Liberal-Democrata, de oposição, para encaminhar o país, finalmente, a uma efetiva (e urgente) reconstrução.

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