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Novo padrão eleitoral chileno abre incógnita sobre participação de jovens

A nova lei de inscrição automática e voto facultativo no Chile incluirá nos registros eleitorais cerca de quatro milhões de jovens, que no ano passado demonstraram seu desencanto em relação à classe política em grandes manifestações, mas cuja participação nas urnas é uma incógnita.

“Não me inscrevi nunca porque não deu tempo, e depois, podendo fazê-lo, por decepção com o sistema político. Agora (com a inscrição automática), se algum candidato para a próxima eleição me interessar, vou (votar)”, explicou à AFP Mónica Figueroa, estudante de 25 anos.

“A política não chama a minha atenção. Por que vou me meter em algo que na realidade não entendo?”, afirmou Daniel Barcur, de 18 anos.

A nova lei, promulgada em janeiro, elimina o trâmite necessário para se inscrever nas listas eleitorais – algo que fazia muitos desistirem – e torna automática a presença dos maiores de 18 anos nos registros do censo eleitoral, que havia sofrido um “envelhecimento”.

Além disso, o voto já não será obrigatório, mas facultativo, fazendo com que aqueles que não quiserem ou não puderem votar não sejam punidos com multas, como ocorria até então.

O atual registro eleitoral chega a oito milhões de eleitores, e com as reformas aumentará para 12,5 milhões, 80% deles com menos de 35 anos, segundo dados oficiais.

Agora os políticos “terão que lutar para ganhar meu voto”, acrescentou Barcur.

Milhares de jovens estudantes, como Figueroa e Barcur, saíram em 2011 às ruas nos maiores protestos desde a chegada da democracia para pedir uma mudança no sistema educacional herdado da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), com mais de 40 protestos, ocupações de colégios e panelaços que provocaram confrontos com a polícia.

Mas agora será preciso ver se esta capacidade de união e de luta dos jovens por seus direitos se traduzirá em uma maior participação deles na vida política.

“Os jovens têm mais interesse na política do que antes, mas isto não significa que votarão. Há uma rejeição aos políticos, não à política”, descreveu Miguel Crispi, coordenador-geral do movimento Revolução Democrática, que reúne jovens em busca de uma regeneração da democracia chilena.

“O que aconteceu no ano passado foi que foram recuperados a fé e o valor nos projetos coletivos, a possibilidade de gerar mudanças, não ‘com’, mas ‘apesar das’ instituições”, que não ajudaram a canalizar as demandas, explicou à AFP Noam Titelman, presidente dos estudantes da Universidade Católica do Chile (FEUC).

Já nas manifestações pôde ser vista uma divisão de posturas entre os que priorizavam a negociação com o governo e os que rejeitavam frontalmente qualquer diálogo com a classe dirigente, que era culpada pelos males do sistema.

Alguns líderes dos protestos, como a popular Camila Vallejo ou Camilo Ballesteros, da Universidade de Santiago do Chile, pretendem seguir em frente com suas reivindicações sem deixar para trás sua filiação ao Partido Comunista chileno, que representarão nas próximas eleições municipais.

Outros, como o ex-líder da Universidade Católica, Giorgio Jackson, optaram por participar de novos movimentos, como Revolução Democrática, que com 2.500 integrantes está dando os primeiros passos para se converter em um partido.

“Temos que dar o salto a partir do envolvimento dos jovens para que todas as coisas pelas quais nos mobilizamos possam chegar à realidade e não ficarmos apenas nas ruas de nosso país”, disse Jackson à AFP.

Para as próximas eleições municipais, previstas para o fim do ano, e as presidenciais de 2013, o movimento estudantil ainda não decidiu se irá convocar os jovens a votar.

“É um tema sobre o qual ainda falta uma discussão maior no movimento, onde há diferentes posturas. A heterogeneidade foi nossa marca”, disse Titelman.

“Votar em si mesmo não é o problema, mas que ocorram transformações na oferta política. É importante se perguntar por que as pessoas não votaram. E é porque a oferta é escassa e não atrai”, acrescentou Crispi.

Por enquanto, os partidos tradicionais se preparam para conquistar estes novos potenciais eleitores.

“Será uma oportunidade para que, sem fazer um trâmite, possa opinar. E permite que você faça de forma livre e quando você quiser”, explicou Sandra Gonzalez, de 22 anos.