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No Peru, Brasil definirá se rompe ou não relação com Venezuela

O chanceler Ernesto Araújo se reúne com colegas do Grupo de Lima para decidir sobre o isolamento diplomático de Caracas

Por Denise Chrispim Marin - Atualizado em 4 jan 2019, 17h37 - Publicado em 4 jan 2019, 17h11

Em sua primeira missão no exterior, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, desembarcou nesta sexta-feira no Peru para a reunião de chanceleres do Grupo de Lima, que definirá o reconhecimento ou não do novo mandato de Nicolás Maduro como presidente da Venezuela. Reeleito em maio em eleições consideradas fraudulentas pela comunidade internacional, o venezuelano iniciará seu novo período de seis anos de governo em 10 de janeiro.

Araújo tende a votar pelo “não”, apesar dos 2.200 quilômetros de fronteira seca entre o Brasil e a Venezuela. Tratou da questão com o secretário americano de Estado, Mike Pompeo, na última quarta-feira, no Itamaraty. Pompeo viera a Brasília como representante do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para a posse de Jair Bolsonaro, com quem também se encontrou.

Ao final de sua conversa com Araújo, Pompeo afirmou à imprensa que o Brasil e os Estados Unidos trabalharão juntos contra “regimes autoritários no mundo”, em uma referência especial à Venezuela, Cuba e Nicarágua. Araújo, ao lado do americano, não se manifestou sobre a questão.

“É inquestionável que as Nações trabalham melhor quando elas compartilham valores que as definem. Os povos dos Estados Unidos e do Brasil compartilham valores como democracia e liberdade”, afirmara Pompeo. “A transmissão de governo que assistimos aqui não acontece em muitas partes do mundo. Na Venezuela, em Cuba e na Nicarágua, as pessoas têm dificuldades para expressar suas opiniões e de contar com governos responsáveis por elas.”

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Pompeo passou por Cartagena das Índias para uma conversa com o presidente colombiano, Iván Duque, que também defende o não-reconhecimento do novo mandato de Maduro, antes de regressar a Washington. Da capital americana, nesta sexta-feira, ele manteve uma vídeo-conferência com os chanceleres do Grupo de Lima logo depois da primeira rodada de conversas entre os latino-americanos. Os Estados Unidos, porém, não fazem parte do Grupo.

Pompeo acertara com o chanceler peruano, Néstor Popolizio, o “aumento da pressão” sobre o governo Maduro para restaurar “a democracia e a prosperidade” na Venezuela. Para isso, Estados Unidos e Peru concordaram em unir esforços para isolar diplomaticamente o governo de Nicolás Maduro e “recuperar” a democracia na Venezuela.

Os países do Grupo de Lima já consideraram anteriormente como “ilegítimo” o resultado das eleições venezuelanas. Cada país, entretanto, tem uma conjuntura particular em relação à Venezuela. A Colômbia foi o país da região que mais recebeu imigrantes venezuelanos desde 2015 — cerca de 2 milhões. O Brasil é o que tem a maior extensão de fronteira terrestre, fato que torna difícil e não recomendável o rompimento de relações diplomáticas.

Como ressaltou o ex-chanceler Aloysio Nunes Ferreira, que representou o Brasil diante do Grupo de Lima até 31 de dezembro passado, a preservação do contato diplomático com Caracas foi essencial para lidar com questões como epidemias na região de fronteira, imigração e fornecimento de energia venezuelana a Roraima.

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Se o Brasil vier a romper a relação bilateral, terá de tomar para si a responsabilidade de tratar dessas e de outros questões que não respeitam as demarcações de fronteira, como o tráfico de armas e de drogas.

Criado em 2017 em meio à onda de protestos contra Maduro, o Grupo de Lima é integrado por Brasil, Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, Guiana e Santa Lúcia.

Complô

Maduro vem reagindo há dias à movimentação dos Estados Unidos e do Grupo de Lima, cuja maioria dos membros está governada por líderes de direita. Para o ditador venezuelano, há um complô em gestação para causar incidentes armados nas fronteiras da Venezuela com a Colômbia e com o Brasil e, desta forma, justificar uma intervenção militar americana, com apoio dos vizinhos da América do Sul.

Durante a reunião em Lima, segundo o governo peruano, os participantes “vão considerar iniciativas de coordenação regional para a restauração da democracia e do respeito aos direitos humanos na Venezuela e para enfrentar o êxodo de cidadãos venezuelanos”. O novo governo brasileiro é favorável à adoção de restrições ao ingresso de imigrantes.

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Em função da grave crise econômica, a Venezuela enfrenta o êxodo de mais de 3 milhões de venezuelanos, especialmente para os países vizinhos. A população foge da escassez de alimentos e de remédios e de uma inflação estimada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 10.000.000% para 2019.

(Com EFE)

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