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No mundo árabe, poucos choram pela morte de bin Laden

Desde o 11 de setembro, grupos islâmicos radicais tentam se desvincular da Al Qaeda e abdicam da violência. A estratégia é ganhar força por meios políticos

Após o anúncio da morte de Osama bin Laden, pouco se falou sobre o assunto nos países árabes que vivem desde o início do ano uma onda de revoltas populares. Pelas ruas, apenas pequenas manifestações pontuais. Os islâmicos parecem preocupados demais com seus problemas internos para reagir à morte do terrorista. Além disso, os métodos de bin Laden já perderam apelo. Agora, os jovens árabes tentam provar repetidamente que não acreditam em atos violentos. O princípio da “primavera árabe” são manifestações pacíficas para externar reivindicações políticas, econômicas e sociais. O fato é que apesar de o terrorismo ainda ter militantes, o extremismo religioso tem cada vez mais um caráter político.

No Egito, o movimento fundamentalista Irmandade Muçulmana já se adequou à nova era, mostrou que não tem pressa, e tenta chegar ao poder pelas vias constitucionais. A maior força de oposição no país – que era apenas tolerada durante a ditadura de Hosni Mubarak, mas proibida oficialmente de atuar na política – anunciou no fim de abril a criação do próprio partido para participar nas eleições legislativas de setembro.

O mesmo pode estar ocorrendo na Turquia, que era tida como o modelo de país laico, governado por um partido islâmico. De acordo como historiador turco Soner Cagaptay, os políticos do AKP chegaram ao poder com ajuda de outros seculares, mas dez anos depois, a legenda tenta enfraquecer as instituições democráticas do país. Entre as medidas controversas está o direito obtido pelo governo de indicar boa parte dos juízes da Suprema Corte sem precisar da aprovação do Parlamento.

Não é de hoje que os métodos de bin Laden já não têm mais apelo. Desde o atentado às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, a rede Al Qaeda perdeu popularidade entre os muçulmanos, mesmo os radicais. Isso aconteceu porque os seguidores do terrorista não oferecem um projeto político consistente para a aqueles que hoje partem em manifestações pelas ruas dos países árabes. Apenas insistiram no uso da violência, o que vai contra os ideais da ‘primavera árabe’.

“Política e ideologicamente, bin Laden morreu anos atrás”, disse ao site de VEJA Arshin Adib-Moghaddam, professor convidado de Política Internacional e Comparativa no Oriente Médio, da Universidade de Londres. “A Al Qaeda não consegue reunir um apoio massivo no mundo árabe e islâmico porque sua estratégia de terrorismo niilista foi rejeitada.”

Apenas algumas poucas vozes solitárias lamentaram a morte de bin Laden, todas elas vindas de grupos extremistas, como alguns membros do palestino Hamas, que controla a Faixa de Gaza. O líder da Al Qaeda, na verdade, representava um peso, ou estigma, para a maioria dos muçulmanos. Não lhes agrada ser vistos em conjunto como pessoas que apoiam o terrorismo.

Divisões sectárias – A Al Qaeda trouxe ainda estragos significativos e profundos às regiões em que operava, incitando tensões sectárias. “A franquia da Al Qaeda no Iraque, por exemplo, promoveu uma série de ataques suicidas que matou dezenas de cidadãos iraquianos”, pontua Yoav Di-Capua, professor do departamento de História da Universidade do Texas.

Por também serem alvos de ataques do grupo, os governos de grande parte dos países árabes demonstraram que têm motivos para comemorar a morte de bin Laden. “O terrorista e a própria doutrina da Al Qaeda contrariam os governos seculares – desvinculados da religião – de países como a Síria e o Iêmen”, aponta o professor Danny Zahreddine, chefe do departamento de Relações Internacionais da PUC Minas.

No Líbano, o premiê, Saad Harini, comemorou: “este é o destino que os assassinos perversos merecem”. Na Líbia, os rebeldes celebraram a morte de bin Laden – para indicar que não são todos membros da Al Qaeda, como o ditador Muamar Kadafi vinha afirmando para conquistar apoio ocidental.

Quando bin Laden foi morto – ou mesmo antes, quando o ditador Mubarak caiu, em consequência da revolta popular egípcia -, manifestantes de todos os países em crise já destacavam: “nós não somos o 11 de setembro”. O caminho desenhado por bin Laden já não ganha muitos novos seguidores, explica Di-Capua. “Se nos anos 1980 e 1990 muitos jovens se convertiam ao jihad, agora eles lutam por mudanças políticas de uma outra forma”, acrescenta o professor.

Reação – Um dia após a morte de bin Laden, os fundamentalistas da Irmandade Muçulmana divulgaram um comunicado, que soou mais como uma desculpa para alfinetar os americanos. No texto, dizia que, agora que o líder terrorista se foi, os EUA deveriam retirar todas suas tropas de países muçulmanos, como Iraque e Afeganistão, e reconhecer os direitos legítimos do povo palestino. Reação semelhante apresentou o governo teocrático do Irã, que aplaudiu o fim do líder terrorista, mas completou: “agora os EUA não têm mais desculpas para sua presença militar na região”.