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No caminho para a Copa, técnico do Egito enfrenta seleções rivais e turbulência política

Ex-treinador da seleção americana, Bob Bradley diz como instabilidade no país dificulta preparação dos jogadores para as eliminatórias da Copa do Mundo

Por Edoardo Ghirotto 12 out 2013, 14h05

“O futebol não vai mudar uma situação difícil, ou acabar com a questão do desemprego, da pobreza, ou da falta de comida. Mas, quando algo de bom acontece no país, isso ajuda a restaurar a esperança das pessoas. E essa é a nossa responsabilidade quando pisamos no gramado.”

O americano Bob Bradley havia assumido o comando da seleção egípcia de futebol havia poucos meses quando um tumulto em um jogo de futebol na cidade costeira de Port Said deixou 74 mortos, em fevereiro do ano passado. O Campeonato Egípcio foi cancelado depois da tragédia e a seleção não voltou a jogar no país. “Aquele foi um dia trágico, um massacre que mudou para sempre a forma como o futebol é visto no Egito”, disse o treinador ao site de VEJA. “Foi muito difícil para os jogadores que estavam em campo e viram pessoas morrendo no vestiário. Eu sabia que tinha de encontrar o jeito certo de ser um exemplo, um líder, que tentaria mostrar às pessoas que nunca esqueceríamos o ocorrido, mas encontraríamos um jeito de seguir em frente”.

O conflito ocorreu em meio à turbulência política no país, depois da queda do ditador Hosni Mubarak e de uma junta militar ter assumido o poder. O clima de tensão não se dissipou desde então. Pelo contrário. A junta militar – que foi acusada de negligência no episódio em Port Said – deu lugar ao presidente eleito Mohamed Mursi, membro da Irmandade Muçulmana, que foi deposto em agosto deste ano. No momento, um governo transitório formado pelo Exército dá as cartas. Mas a seleção de futebol vê a busca pela classificação para a Copa do Mundo de 2014 como uma chance para promover alguma união em um país polarizado. “Nem todos os atletas pensam da mesma forma, mas, como um grupo, somos irmãos, estamos juntos, e entendemos a responsabilidade de estarmos conectados com todas as pessoas. É este o papel de uma seleção, principalmente em tempos difíceis”, diz Bradley.

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O meio encontrado por Bradley para preparar o time foi fazer excursões fora do país, com extensos períodos de concentração e jogos amistosos. “É difícil quando você não sabe o que acontecerá com sua carreira. É por isso que eu digo que o crédito vai para os jogadores, porque eles continuam comprometidos com a seleção e orgulhosos de estarem aqui”.

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O Egito venceu os seis jogos que disputou na fase de grupos pelas Eliminatórias Africanas e tem previsto um duelo com Gana, no Cairo, no dia 19 de novembro. A partida pode marcar o retorno da seleção egípcia ao país, depois de dois anos, com um jogo no Estádio Militar 30 de Junho – recentemente rebatizado em referência ao dia em que milhares de pessoas foram às ruas da capital pedir a saída de Mursi da Presidência. A Associação de Futebol de Gana demonstrou preocupação e pediu à Fifa que reavalie a decisão de realizar a partida no Cairo.

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O técnico americano é testemunha dos frequentes confrontos nas ruas da capital envolvendo partidários do ex-presidente, grupos contrários a Mursi e forças de segurança. Ele acompanhou, inclusive, as manifestações que começaram no dia 30 de junho e culminaram com o golpe no dia 3 de julho. “Existe uma grande divisão aqui. E muitos egípcios não estavam satisfeitos com a liderança da Irmandade Muçulmana, o que levou ao que algumas pessoas chamam de ‘segunda revolução'”.

Bradley, de 55 anos, deixou o comando da seleção americana em julho de 2011, um ano depois de ver os EUA caírem nas oitavas-de-final da Copa do Mundo da África do Sul diante de Gana. Pouco depois, foi convidado pela Associação Egípcia de Futebol para liderar o time do país na busca por uma vaga na Copa do Mundo de 2014 – o Egito não se classifica desde 1990. “Quando fui chamado, eu já sabia que as pessoas amavam o futebol e sonhavam com a Copa do Mundo. Era uma oportunidade única e um desafio que me deixou empolgado”, afirmou. A estreia na seleção ocorreu em Doha, no Catar, com uma derrota por 2 a 0 para o Brasil. “Eu deixei claro que não chegava com todas as respostas. Eu fui ao Egito para aprender, ouvir e achar um jeito de montar uma equipe bem-sucedida.”

Não demorou até que ele percebesse que, ao lado das orientações táticas, o contato com os jogadores envolveria questões políticas. “Existem discussões no nosso grupo, mas com total respeito. Eu falo aos jogadores que não sou egípcio e que não tenho uma solução para o país. Mas, às vezes, eu ofereço uma perspectiva de alguém que vem de fora”, explicou.

“Nós entendemos que podemos servir como um exemplo do que significa trabalhar de forma unida. O futebol não vai mudar uma situação difícil, ou acabar com o desemprego, a pobreza, ou a falta de comida. Mas, quando algo de bom acontece no país, isso ajuda a restaurar a esperança das pessoas. E essa é a nossa responsabilidade quando pisamos no gramado”.

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