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Nicolás Maduro contrata agência “progressista” dos EUA para melhorar imagem de seu governo

O presidente venezuelano recorreu a um escritório de relações públicas, com sede em Washington, para organizar excursão de observadores amigos no dia das eleições legislativas

O governo da Venezuela contratou um escritório de relações públicas com sede em Washington para tentar melhorar sua imagem. A tarefa coube a uma agência que se autodefine como especializada em clientes “progressistas”, a FitzGibbon Media.

Maximilien Arveláiz, encarregado de negócios do governo venezuelano na representação do país em Washington e ex-embaixador em Brasília de 2010 a 2013, fez uma escolha estratégica. Além de conviver com a esquerda americana, a FitzGibbon tem em seu portfólio clientes de uma série de organizações de defesa dos direitos humanos, entre as quais a Anistia Internacional. Ironicamente, uma das maiores manchas na imagem do regime venezuelano são as violações aos direitos humanos, a perseguição aos opositores políticos e a manipulação da Justiça.

Nas últimas semanas, a FitzGibbon distribuiu uma série de convites para escritores, jornalistas e ativistas simpatizantes do regime chavista convidando-os a atuar como observadores internacionais nas eleições venezuelanas, marcadas para o dia 6 de dezembro. Segundo um desses e-mails, ao qual VEJA.com teve acesso, a viagem será paga pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e é apresentada como “uma oportunidade” para “os membros da comunidade internacional e de imprensa verem como o sistema eleitoral funciona. Um dos mais impenetráveis do planeta, segundo o Centro Carter”.

Os relações públicas não mencionam o fato de a organização fundada pelo ex-presidente americano ter encerrado suas operações na Venezuela em maio deste ano, justamente por não haver condições de monitorar as eleições de maneira independente. Em nota oficial, porém, o Centro Carter limitou-se a dizer que decidiu “focar seus recursos limitados em outros países que tenham solicitado apoio”. Procurados, os representantes do FitzGibbon Media não responderam às perguntas da reportagem.

VEJA.com teve acesso a documentos oficiais do CNE onde aparecem os nomes de 102 “observadores nacionais”. Todos com total alinhamento com o chavismo. O documento de 25 páginas traz, além dos nomes, todos os dados para emissão dos bilhetes. Entre os observadores amigos há dois brasileiros. O diplomata Samuel Pinheiro Guimarães Neto, que foi ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O segundo é o jornalista Carlos Alberto de Almeida, um servidor aposentado do Senado que é representante no Brasil da emissora estatal venezuelana Telesur.

O esforço dos venezuelanos em montar uma comissão de observadores internacionais alinhados com seu governo tem como objetivo amenizar as críticas e suspeitas sobre a lisura no processo. No início do mês, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, criticou os venezuelanos, que se negaram a receber observadores internacionais independentes e com acesso irrestrito ao processo eleitoral. Segundo Almagro, “as condições em que o povo irá votar não estão, neste momento, garantidas em matéria de transparência e justiça eleitoral”.

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Em nota, Almagro acusou os chavistas de usarem recursos públicos em favor dos candidatos governistas e de perseguir os opositores, inclusive, vetando candidaturas de adversários. O secretário-geral também lamentou o veto do presidente Nicolás Maduro à participação da OEA nas eleições. A carta de Almagro foi divulgada duas semanas depois de o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, José Antonio Dias Toffoli, anunciar que o Brasil não enviaria representantes para acompanhar as eleições venezuelanas.

Segundo nota emitida pelo TSE, “a demora do órgão eleitoral venezuelano em pronunciar-se sobre a versão revista do acordo fez com que a missão não pudesse acompanhar a auditoria do sistema eletrônico de votação e tampouco iniciar a avaliação da observância da equidade na contenda eleitoral, o que, a menos de dois meses das eleições, inviabiliza uma observação adequada”.

Estre as missões da consultoria contratada por Maduro está a de ajudar a Embaixada da Venezuela em Washington no esforço da normalização das relações com os Estados Unidos. Os dois países estão sem embaixadores desde 2010, quando o então presidente Hugo Chávez expulsou o representante americano sob a acusação de que teria se associado à oposição para desestabilizar o governo.