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Netanyahu recebe genro de Trump para discutir paz com palestinos

Visita de Jared Kushner coincide com a dissolução do Parlamento israelense; seu projeto de acordo já tem a negativa dos palestinos

Por Da Redação - 30 Maio 2019, 17h47

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, recebeu nesta quinta-feira, 30, uma delegação dos Estados Unidos liderada por Jared Kushner, conselheiro e genro do presidente Donald Trump, para discutir a paz entre israelenses e palestinos. A visita coincidiu com a dissolução do parlamento e a convocação de novas eleições em Israel, apenas 50 dias depois do pleito anterior.

“Tivemos um pequena eventualidade ontem à noite”, disse Netanyahu a Kushner, referindo-se à dissolução da Knesset, motivada pelo fracasso do primeiro-ministro para formar um governo de maioria. O novo ciclo de votações está agendado para o dia 17 de setembro.

Netanyahu ressaltou que os fatos de ontem à noite “não irão detê-lo” e destacou que Israel seguirá trabalhando com os Estados Unidos e seus aliados para concretizar os detalhes sobre a conferência do Bahrein em 25 e 26 de junho. Nesse encontro, espera-se que os americanos apresentem a parte econômica de sua proposta de paz para o conflito palestino-israelense.

Desde 2017, Kushner é o encarregado na Casa Branca pelos assuntos do Oriente Médio. Marido de Ivanka Trump, ele passou os últimos dois anos tentando estabelecer as bases diplomáticas para um acordo de paz entre Israel e Palestina, suspenso desde 2014.

O conselheiro do presidente já havia se reunido com Netanyahu, amigo pessoal de seu pai, Charles Kushner, no início do processo. À época, um vídeo disponibilizado pelo governo mostrava os dois se abraçando enquanto o primeiro-ministro celebrava “a oportunidade para perseguir nossos objetivos comuns de segurança, prosperidade e paz.” 

Na ocasião, o americano também se reuniu com presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, em Ramallah, na Cisjordânia. Mas as negociações com o líder palestino não tiveram um final feliz.

Benjamin Netanyahu e Jared Kushner
Antes da tempestade: há dois anos, Kushner e Netanyahu celebraram a ‘oportunidade’ para alcançar segurança, prosperidade e paz na região conflituosa – 21/06/2017 Amos Ben Gershom/GPO/Getty Images

Abbas já anunciou que não participará do acordo, por considerar que o texto contém um forte viés em favor de Israel. O boicote dos palestinos às iniciativas do governo americano se intensificaram desde que Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel, em dezembro de 2017, rompendo com décadas de consenso internacional.

Tentando incentivar a adesão de parte dos palestinos, a equipe de Kushner deu pistas de um plano de crescimento econômico para suas regiões.

“Nós não fomos consultados por nenhum dos envolvidos na reunião anunciada em Manama, no Bahrain”, declarou Saeb Erekat, secretário geral da Organização para a Libertação da Palestina no último dia 20, anunciando que nenhum grupo palestino estará presente na Conferência do Bahrein e pedindo aos países da comunidade internacional que não compareçam ao encontro.

Os palestinos veem a oferta do governo Trump como uma recompensa econômica em troca da aceitação pacífica, por eles, da ocupação israelense a seus territórios. “Tentativas de promover uma regularização econômica da ocupação israelense na Palestina serão rejeitadas”, decretou Erekat.

“Nossa luta não é para melhorar nossas condições de vida sob a ocupação, mas para alcançar o potencial completo da Palestina, acabando com a ocupação israelense”, completou.

Outros líderes políticos e empresários palestinos já adotaram o boicote ao encontro de junho, aumentando as dúvidas em torno das possibilidades de sucesso do plano.

“Qualquer projeto econômico sem uma solução política é vender uma ilusão”, disse Arafat Asfour, presidente do Palestine Trade Center.

Viagens pelo Oriente Médio

A expectativa é de que a íntegra do plano de Kushner seja divulgada ainda no mês de junho. Washington não deu pistas sobre os aspectos políticos do documento, que deve oferecer propostas para o desenvolvimento econômico palestino, com apoio do Egito, Líbano e Jordânia.

Antes de chegar a Israel, o conselheiro de Trump passou por vários países do Oriente Médio para discutir mais aspectos do plano com seus aliados. A partir de 1º de junho, ele irá a Montreux, na Suíça, e depois a Londres, na Inglaterra, onde participará da visita de Estado do presidente Trump.

Durante sua passagem pela Jordânia, Kushner se reuniu com o rei Abdalah II para discutir os impasses do acordo de paz. A nação é guardiã dos lugares sagrados muçulmanos em Jerusalém e, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), abriga pelo menos 2,2 milhões de refugiados palestinos.

“Temos a necessidade de redobrar os esforços para conseguir uma paz global e duradoura baseada na solução de dois Estados (israelense e palestino, com fronteiras definidas) que garanta o estabelecimento de um Estado palestino independente com Jerusalém Oriental como sua capital”, declarou o rei em um comunicado oficial logo após o encontro, mantendo-se ao lado do povo árabe. 

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Antes, o conselheiro americano esteve no Marrocos, ao lado do enviado especial da Casa Branca para o Oriente Médio, Jason Greenblatt, que se disse “honrado” por jantar “com sua majestade o rei Mohamed VI”. “O Marrocos é um amigo importante e um aliado dos Estados Unidos”, escreveu o braço direito do mediador. 

 

Os detalhes do que foi tratado na reunião de hoje com Netanyahu, na qual Greenblatt também esteve presente, não foram revelado. Mas o primeiro-ministro enalteceu as ações americanas “para integrar alianças na região contra os desafios comuns.”

Após a dissolução do Parlamento, na quarta-feira, Israel fica em uma situação de paralisia política, que se manterá até as próximas eleições, em setembro, e a formação definitiva de um novo governo. O cenário pode dificultar ainda mais o desenvolvimento e a concretização do chamado “Acordo do Século”, a proposta de paz elaborada pelo atual governo americano.

Kushner e Greenblatt não tem novas reuniões programadas com as autoridades palestinas.

Crise nos EUA

Enquanto seu aliado enfrenta uma crise em Israel, Trump também não vive seu melhor momento político nos Estados Unidos.

Na quarta-feira 29, o procurador especial Robert Mueller quebrou um silêncio de dois anos e afirmou que o relatório de sua investigação sobre o suposto conluio da campanha eleitoral de Trump com a Rússia, em 2016, não exonerou o presidente de responder por crimes.

As declarações aumentaram a pressão para que os democratas iniciem um processo de impeachment na Câmara. Os pré-candidatos à Presidência pelo Partido Democrata Cory Booker, Kirsten Gillibrand e Pete Buttigieg se manifestaram publicamente pedindo a abertura do processo.

A imprensa americana já analisou a possibilidade de impeachment. Uma pesquisa divulgada no dia 1º de maio mostra que a maioria dos eleitores democratas apoia a abertura do processo com base no relatório de investigação.

Mas, quando somados os eleitores republicanos e independentes, 53% dos americanos são contra o impeachment, 39% são a favor e 8% estão indecisos.

“Os líderes democratas na Câmara não querem o impeachment. Sabem que precisarão lutar para manter as cadeiras que ganharam de republicanos em 2018. E o impeachment não passará no Senado”, disse Gary Nordlinger, professor da Universidade George Washington. “Não é como em Watergate, onde tínhamos a voz de Richard Nixon gravada planejando obstrução de Justiça.”

Atualmente, os democratas concentram a maioria dos assentos na Câmara dos Deputados, mais ainda são minoria no Senado.

(Com EFE, AFP)

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