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Navio negreiro naufragado no século XVIII é encontrado na África do Sul

A embarcação deixou a África em 1794 com até 500 escravos que trabalhariam nos engenhos do Maranhão, mas afundou após 24 dias de viagem

Pesquisadores encontraram no Cabo da Boa Esperança, região costeira da África do Sul, os vestígios de um navio negreiro português que naufragou com até 500 escravos a bordo. Nesta terça-feira, os membros do Museu de História e Cultura Afro-americanas da fundação Smithsonian, dos Estados Unidos, e do Museu Iziko, da África do Sul, realizarão uma cerimônia para confirmar a descoberta e honrar a memória dos 212 homens que morreram no acidente. Segundo os registros históricos, a embarcação havia partido de Moçambique no dia 3 de dezembro de 1794 rumo ao Estado do Maranhão, onde os negros cativos deveriam ser vendidos para trabalhar nos engenhos de açúcar. O barco, cujo nome era São José Paquete África, naufragou após 24 dias de viagem.

O achado, segundo o jornal The New York Times, é fruto de mais de uma década de trabalho de pesquisadores que almejavam encontrar restos de qualquer navio negreiro que pudessem ajudar a contar melhor a história das mais de 12 milhões de pessoas que foram capturadas no continente africano e vendidas como escravas nas colônias europeias. Após anos de pesquisas, a descoberta começou a tomar forma em 2011, quando foram encontrados arquivos em que o capitão português Manuel João detalhava o que havia acontecido com a embarcação. O documento mostra que o navio tentou se aproximar da costa sul-africana para fugir de fortes ventos em alto mar, mas se chocou contra pedras e ficou preso entre dois corais. A tripulação, ciente de como escravos eram valiosos na época, tentou salvá-los, mas somente a metade foi retirada com vida do navio.

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Os tripulantes portugueses conseguiram sobreviver ao desastre e, de acordo com os relatos, voltaram a vender os escravos remanescentes dois dias após o naufrágio. Em 2013, os pesquisadores encontraram mais um arquivo da época que confirmava a comercialização de um homem moçambicano que estava a bordo do navio São José. As indicações restringiram as áreas de busca e levaram mergulhadores aos vestígios da embarcação. A prova definitiva foram blocos de ferro que os portugueses usavam para estabilizar o navio negreiro – a medida era necessária porque os escravos se moviam dentro dos porões e não pesavam o suficiente para impedir o barco de tombar. Até o momento não foram encontrados restos humanos, mas algemas usadas para prender os cativos foram recuperadas no fundo do oceano.

Na cerimônia de terça-feira, os pesquisadores pretendem atirar terra de Moçambique no local do naufrágio para simbolizar os túmulos das pessoas que morreram no acidente. Lonnie Bunch, diretor do museu americano que participou das buscas, disse que “queria encontrar uma forma de recordar todas aquelas pessoas sem nome que perderam as vidas nas travessias” entre a África, as Américas e a Europa. A exposição que será inaugurada com as peças recuperadas também contará com uma área em que registros de áudio descreverão o comércio de escravos, um “espaço para prestar homenagens e relembrar”, segundo Bunch. A intenção do diretor é dedicar, futuramente, uma área do acervo que foque nas pessoas que sobreviveram ao acidente e acabaram comercializadas pelos europeus.

(Da redação)