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Nas ruas de Caracas, o panelaço contra o foguetaço

Capriles detalha irregularidades eleitorais enquanto partidários da oposição fazem barulho com panelas e apitos. Chavistas respondem com foguetes

A noite desta terça-feira em Caracas, a capital da Venezuela, foi barulhenta. Partidários do governo e da oposição saíram às ruas dois dias após a eleição presidencial de domingo em uma ruidosa batalha que evidencia a profunda divisão do país e a contrariedade de uma enorme parcela da população com a eleição de Nicolás Maduro, contestada pelo adversário e líder opositor Henrique Capriles, que aponta fraude no processo eleitoral.

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Milhares de partidários de Capriles organizaram panelaços e soaram apitos e buzinas também das janelas e varandas de suas residências, enquanto a militância chavista, acionada por Maduro, soltou fogos de artifício como resposta à manifestação. Os panelaços oposicionistas foram convocados por Capriles para exigir do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) a recontagem de 100% dos votos, após a vitória chavista por apenas 1,78 ponto percentual no domingo – Maduro foi eleito com 50,75% dos votos, contra 48,97% para Capriles.

“Esta noite, às oito, vamos voltar a fazer a onda, faremos novamente o panelaço. Amanhã, de novo, porque é ilegítima a posse (de Maduro) na sexta-feira, quando voltaremos com a onda”, conclamou Capriles em entrevista. Depois dos confrontos que ocorreram na noite de segunda, deixando sete mortos e 61 feridos, o líder da oposição suspendeu uma marcha até a sede do CNE em Caracas, prevista para esta quarta-feira, e pediu aos manifestantes que evitem o conflito nas ruas.

Diante dos panelaços oposicionistas, o recém-eleito presidente Nicolás Maduro convocou um foguetaço no mesmo horário como forma de contra-ataque. “Convocamos, a partir de hoje e para todos os dias às oito, um grande foguetaço do povo em todo o país, o povo nas ruas”, disse Maduro em rede nacional de rádio e TV. “Se eles (a oposição) convocam um panelaço de ódio, de intolerância e de agressão à família, nós convocamos um grande foguetaço bolivariano, chavista”, afirmou Maduro, acrescentando que a ideia partiu de vários dirigentes, incluindo o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, e o chefe de sua campanha eleitoral, Jorge Rodríguez.

A tensão política e social na Venezuela aumentou muito depois que foi anunciada a vitória de Maduro por estreita margem sobre Capriles na eleição presidencial para escolher o sucessor de Hugo Chávez. O opositor denunciou fraude eleitoral, pediu a recontagem de votos e o governista disse no dia da eleição que aceitaria. Mas depois o CNE proclamou Maduro presidente eleito, sem que a recontagem fosse feita.

Denúncias – Sem reconhecer a vitória de Maduro, Capriles detalhou nesta terça-feira irregularidades detectadas durante a votação pela coalizão que o apoia. Entre elas estão fiscais da oposição retirados à força, inclusive com a “exibição de armas de fogo”, de 283 seções eleitorais; mais de 600.000 eleitores falecidos que ainda constam no registro eleitoral; violência e pressão contra eleitores em 397 seções eleitorais e voto de cabresto, com funcionários públicos e pessoas beneficiadas por programas do governo sendo acompanhadas até as urnas para a votar em Maduro em 564 seções.

Além disso, o líder da oposição venezuelana destacou a existência de toldos do partido PSUV (chavista) em 421 seções, 535 urnas eletrônicas danificadas do total de 39.000 utilizadas em todo o país e discrepância entre o número de eleitores registrados e contabilizados pelo CNE numa seção, onde no carderno eleitoral constavam 536 votantes e na ata do CNE existiam 717.

Para completar, Capriles ressaltou o aumento espetacular de votos para Maduro em 1.176 seções, onde o candidato governista teve mais votos do que o próprio Chávez na eleição de 7 de outubro do ano passado. Em algumas urnas, Maduro teve desempenho inacreditável na comparação com o falecido padrinho, obtendo mais 943% em uma seção, mais 530% em outra e mais 493% numa terceira.

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Medidas arbitrárias – Nesta terça, o chefe da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, que é vice-presidente do partido governista PSUV, anunciou que não reconhecerá e não concederá o direito de palavra aos parlamentares de oposição que não aceitem a vitória de Maduro. “Se não reconhecem Maduro como presidente, se não reconhecem as instituições, aqui não terão direito de palavra. Se quiserem, podem ir embora”, disse Cabello.

A ‘mordaça’ foi anunciada durante a discussão de um projeto de homenagem ao CNE, às Forças Armadas e ao candidato eleito, informou o jornal venezuelano El Mundo. O primeiro deputado atingido pela decisão foi Ismael García, do partido Avanzada Progresista, que apoia Capriles. Antes de iniciar sua intervenção, Cabello perguntou se ele reconhecia Maduro como presidente. Diante da resposta negativa, o chefe do Legislativo cedeu a palavra a outro deputado, do PSUV.

Maduro também disse que não reconhecerá nenhum governador que não reconheça sua vitória, incluindo Capriles, governador de Miranda. “Governador que não me reconheça, eu não reconheço. Pronto. Não reconheço governador golpista que não reconheça a Constituição. Os recursos dos estados eu darei diretamente ao povo por meio de projetos”. À decisão arbitrária, o governista acrescentou que convocará uma reunião do Conselho Federal de Governo, que reúne os governadores de todo o país, “para que tudo seja revisado”.

(Com agências France-Presse e EFE)