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Napoleão tinha a aparência de estrela de rock, diz escritor inglês

Duzentos anos depois, a batalha de Waterloo perdida pelo general francês ajuda a entender a Europa de hoje

Por Nathalia Watkins - 20 Jun 2015, 15h07

Bernard Cornwell é um dos mais consagrados escritores ingleses da atualidade. Suas mais de 40 obras foram traduzidas para dezesseis idiomas. O mais recente lançamento do autor é Waterloo: A história de quatro dias, três exércitos e três batalhas (Editora Record, R$ 42,00) Baseado em testemunhos e documentos, Cornwell traz uma história dramática e as singularidades dos protagonistas daquele confronto de junho de 1815, há exatos 200 anos: o duque de Wellington, que comandava a aliança inglesa-holandesa; o general Gebhard Leberecht von Blücher, líder das tropas prussianas, e o próprio Napoleão Bonaparte. Cornwell falou a VEJA, por telefone.

O que é possível dizer de novo a respeito de Napoleão Bonaparte?

Ele era um grande homem. Tinha uma inteligência extrema. Em muitos aspectos, não era um tirano, não era um Hitler, não tinha seu próprio partido político. Era um belo governante. Reescreveu o código constitucional da França e era ótimo administrador, trabalhava muito e trazia toda a sua inteligência para a resolução de problemas. O problema de Napoleão é que ele era um eterno apaixonado pela guerra. Podemos dizer que havia dois Napoleões: o primeiro, um governante extremamente inteligente e iluminado. O segundo, um lorde da guerra. Como se entediava facilmente, a guerra provocava excitação que ele precisava. Adorava os riscos, era um apostador. Amava as apostas em batalhas, impor sua vontade aos inimigos. Inevitavelmente, acabou dominado pela guerra. Até quando ele capturava territórios, se deparava com altíssimas taxas que tinha que pagar por outros conflitos, o que arruinava todos os efeitos positivos do que ele havia previamente conquistado. Eu admiro Napoleão, é até possível gostar dele.

O que causou a derrota de Napoleão em Waterloo?

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Não acho que ele tenha sido muito ambicioso. Ele não tinha outra opção senão atacar. Seu erro em Waterloo foi ser fatalista. Ele simplesmente não controlou a batalha propriamente dita, e deixou que outros fizessem isso por ele. Algumas pessoas pensavam que ele estava doente – não se sabe se ele estava, mas certamente já não tinha a energia de quando tinha 23 anos e era general, robusto e com aparência de estrela de rock.

O que poderia ter acontecido se ele tivesse saído vitorioso?

Depende de como ele ganhasse a batalha. Se destruísse o exército do Duque de Wellington, certamente investiria na tentativa de perseguir os prussianos. Se ele tivesse conseguido expulsar os britânicos e prussianos da guerra, teria de pensar em atravessar a França para enfrentar os austríacos e os russos, que ainda teria de derrotar. Havia 300 000 austríacos e russos se aproximando da França pelo leste. Seria uma encrenca e tanto. Se também tivesse sucesso nisso, suspeito que a guerra simplesmente continuaria. Não acho que haveria paz, a não ser que ele aceitasse as demandas europeias. Quem sabe?

É verdade que Napoleão foi responsável pela morte de seis milhões de pessoas?

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Sim, é o número de baixas que associam a ele e as guerras na Europa, e é provavelmente correto. Nem todos eram militares, houve também muitos civis mortos, especialmente na Espanha.

Um número tão expressivo não faz de Napoleão um homem cruel?

Bom, ele era cruel no sentido de que a guerra por si é cruel.

Quais os resquícios da batalha na Europa?

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Waterloo agora faz oficialmente parte da história e qualquer rivalidade entre Inglaterra e França desapareceu. A Batalha de Waterloo é um marco gigantesco na história. Se pensar, Inglaterra e França já experimentavam um período de cem anos de rivalidade antes de Waterloo. Até a revolução americana, o exército francês era o maior na América. O que Waterloo faz é acabar com essa rivalidade e o século XIX vem a se tornar o século britânico. Nesse sentido, a batalha é extremamente decisiva, um marco histórico.

As potências mais poderosas têm algo a aprender dessa batalha?

Há algumas lições técnicas a serem aprendidas e elas provavelmente foram aprendidas. Assegurar-se de que sua estrutura de comando funcione – o que não foi o caso da França, por exemplo. É uma lição técnica, assim como a importância de ter um chefe de equipe. É importante sabermos sobre a nossa história, porque ela vive se repetindo. Mas a maior de todas as lições que pode ser tirada de qualquer conflito é a lei das consequências inesperadas, ou efeitos colaterais.

A Guerra do Sete Anos, na qual a Inglaterra expulsou a França do Canadá, foi vista como uma grande vitória. Mas não se deram conta, quando se empossaram daquelas 13 colônias, de que elas não precisavam dos britânicos. Então esse conflito, considerado vitória para os britânicos, levou diretamente para a revolução americana, a qual os franceses veem como uma grande vitória para eles. Dessa vez, foram eles que não se deram conta de que não podiam manter àquela guerra e lavaram a França à falência, da qual surgiu a Revolução Francesa, depois da qual surgiu Napoleão. Esse foi um efeito colateral. Acho que o efeito colateral da Batalha de Waterloo, que acabou sendo vista como uma grande vitória em cima dos franceses, foi a escalada do nacionalismo alemão, que veio a resultar no que vimos a partir de 1914. A história nos surpreende.

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Então o senhor vê uma conexão entre a Primeira Guerra Mundial e a Batalha de Waterloo?

Sim, porque o êxito da pressão contra Napoleão significava a pressão de dominar o Estado alemão. Lembre-se de que não havia o país Alemanha em 1815, mas ele começou a existir por causa dos êxitos da “Alemanha” contra Napoleão naquela guerra. Gradualmente, a Alemanha foi se unindo e logo começa o aumento do nacionalismo alemão, que quer se tornar um império tão grande e poderoso como o britânico. Posteriormente, isso leva à 1ª Guerra Mundial.

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