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‘Não tentem fazer isso’, diz mãe de migrante morto na fronteira dos EUA

Em San Salvador, Rosa Ramírez lamenta a morte do filho Óscar e da neta Valéria, que completaria dois anos em julho

Por Da Redação - Atualizado em 27 jun 2019, 12h52 - Publicado em 27 jun 2019, 12h16

Rosa Ramírez, mãe do migrante salvadorenho que morreu afogado junto da filha no Rio Grande, na fronteira do México com os Estados Unidos, aconselhou outros refugiados a não seguirem o exemplo do filho. Óscar Alberto Martínez Ramírez, de 25 anos, e Valéria, de 23 meses, se afogaram no domingo 23 enquanto tentavam atravessar a fronteira de Matamoros, no norte do México, para o estado americano do Texas.

“Minha mensagem seria: não tentem fazer isso. Eu sei que neste país (El Salvador) tudo é muito difícil, mas as nossas vidas são mais valiosas”, disse Rosa Ramirez em entrevista à BBC.

Oscar trabalhava como cozinheiro em seu país natal e pretendia buscar uma nova oportunidade nos Estados Unidos. Para atravessar o rio, colocou Valeria por dentro de sua camisa. Os dois foram levados pela correnteza do Rio Grande diante do olhar da mãe da menina, antes de chegar ao lado americano da fronteira.

A jornalista Julia Le Duc, da agência Associated Press, capturou a imagem dos corpos na beira do rio pouca horas após a morte dos migrantes. A fotografia provocou uma grande comoção em todo o mundo e virou símbolo do drama dos imigrantes centro-americanos em busca do “sonho americano”.

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“Eu chorei muito quando nos despedimos porque senti, no meu coração, que era a última vez que iria abraçá-lo”, disse Rosa, referindo-se ao filho. “No dia 18 de julho, ela (Valéria) faria dois anos de idade. Ela deixa um vazio porque era uma menina alegre, e esta casa não é a mesma sem seus gritos, sem o som dela”, lamentou, entre lágrimas, enquanto mostrava uma foto da neta ao lado do filho.

Rosa Martínez decidira não viajar e ainda vive em sua casa em San Salvador, capital do país centro-americano. “Eu disse que o amava muito e pedi para que ele se cuidasse. Ele me disse a mesma coisa, que me amava e que, se Deus quisesse, ele iria passar a fronteira e queria ajudar a todos nós também, a família”, contou a salvadorenha, relembrando os planos de seu filho para o futuro.

“A última mensagem que ele me enviou foi no sábado de manhã, dizendo que me amava muito e pedindo de novo para nos cuidarmos. Essa foi a última mensagem que recebi, um dia antes de ele morrer”, completou.

Salvadorenho Óscar Martínez Ramírez e sua filha Valeria: afogamento na divisa do México com os EUA.

Salvadorenho Óscar Martínez Ramírez e sua filha Valeria: afogamento na divisa do México com os EUA. Foto/Arquivo pessoal

Violência

El Salvador é uma das nações mais violentas do mundo, com a atuação consolidada de gangues e a falta de controle da criminalidade. Entre as causas da insegurança estão os resquícios da guerra civil, que teve fim apenas em 1992, e o autoritarismo estatal.

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O presidente Salvador, Sánchez Ceren, eleito em 2014, criticou fortemente o diálogo do governo com membros das quadrilhas. Quando no poder, aplicou uma estratégia de enfrentamento que incluía abusos por parte dos policiais e o uso das Forças Armadas contra as gangues. Mas o efeito foi contrário, e a violência seguiu aumentando.

O site Acuerdos de Paz, fundado nos anos 1990 para mudar essa realidade, aponta como causas desse cenário: intolerância, agressividade, exclusão política, desintegração familiar, emigração, surtos de violência estudantil, atuação de gangues e narcotráfico e falta de políticas integrais.

Outros sete mortos

Desde quinta-feira 20, outros sete corpos de imigrantes foram encontrados nos limites entre o México e os Estados Unidos, segundo informações da polícia do Texas.  Entre as vítimas estão uma mulher, dois bebês e uma criança. A exposição ao calor e a desidratação são as possíveis causas dos óbitos.

As travessias exaustivas e clandestinas dos migrantes se intensificaram com os limites recém-estabelecidos pelo governo do republicano Donald Trump, que restringiu o número diário de pessoas que podem solicitar refúgio nos Estados Unidos nos postos de entrada da fronteira.

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Com a expectativa de meses na fila de espera para as entrevistas com as autoridades americanas, muitas famílias migrantes optam por cruzar a fronteira de modo arriscado para fazer suas solicitações e atravessar a região desértica.

Os coiotes, como são chamados os intermediários do tráfico ilegal de pessoas na fronteira, colocam em risco a vida dos migrantes, deixando-os em áreas isoladas ou enviando-os para cruzar o Rio Grande em jangadas improvisadas.

A Patrulha da Fronteira registrou 283 mortes de imigrantes no limite entre Estados Unidos e México apenas no ano passado. Ativistas de direitos humanos dizem que o número é muito maior, pois os restos mortais de muitas vítimas nunca são encontrados e os dados da agência não incluem todas as mortes registradas pelas autoridades locais.

Crianças, filhas de imigrantes ilegais apreendidos na fronteira com o México, são vistas no Departamento de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos, em McAllen, no Texas

Crianças, filhas de imigrantes ilegais apreendidos na fronteira com o México, são vistas no Departamento de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos, em McAllen, no Texas US Customs and Border Protection/AFP

John Sanders, chefe do Escritório de Alfândega e Proteção Fronteiriça (CBP, na sigla em inglês) e principal funcionário de controle fronteiriço dos Estados Unidos, renunciou ao cargo nesta terça-feira 25.

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A partida de Sanders ocorre após as revelações das condições de insalubridade em que viviam menores retidos em um centro da Patrulha Fronteiriça na cidade texana de Clint, um sinal da crescente pressão sobre os recursos públicos diante do aumento das detenções na fronteira sul.

A visita de uma ONG a este centro, situado 30 quilômetros a sudeste de El Paso, mostrou várias irregularidades, entre elas a superlotação do espaço pelos internos e a falta de higiene e de atendimento médico nas instalações.

Uma investigadora do Human Rights Watch (HRW), Clara Long, contou ter visto um “menino de 3 anos, com os cabelos emaranhados, tosse seca, calças imundas e olhos que fechavam de cansaço”.

O pequenino, que tinha cruzado a fronteira com um irmão de 11 anos e um tio de 18, estava detido havia três semanas. Separado do tio maior de idade, estava aos cuidados do irmão mais velho.

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O Departamento de Saúde dos Estados Unidos (HHS) anunciou na segunda-feira que 249 crianças que se encontravam no centro de Clint, perto da cidade fronteiriça de El Paso, no Texas, “deveriam estar sob custódia do HHS nesta terça-feira”, reportou a CNN.

Em um relatório publicado nesta terça, a organização Human Rights Watch (HRW) denunciou a situação deplorável dos menores de idade alojados no local. Trata-se de crianças migrantes que viajavam sozinhas ou que foram separadas de seus familiares pelas autoridades.

As irregularidades incluem desde crianças sem atenção médica adequada até a falta de camas, que obriga muitos a dormir sobre o piso de cimento, apenas protegidos por cobertores térmicos. No entanto, foi noticiado nesta quarta-feira, 26, que mais de 100 crianças foram devolvidas a esse centro, sem que fossem divulgados mais detalhes.

A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou ainda na noite de terça um pacote de 4,5 bilhões de dólares em ajuda humanitária para a fronteira do país com o México, em um confronto direto às políticas recém-adotadas pelo presidente, Donald Trump.

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A Casa, de maioria democrata, teve 230 votos favoráveis e 195 contra a proposta, depois das denúncias sobre as condições desumanas enfrentadas por crianças sob custódia da guarda de fronteira americana em centros de detenção do governo.

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