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“Não é só a economia, seu idiota”

Show do PIB em expansão não garante, por si, a reeleição de Trump

Numa tarde de sol de 15 de maio de 1972, Arthur Herman Bremer, um americano de 22 anos que ouvia vozes e já tinha sido diagnosticado como doente mental pela Justiça, esperou com um 38 na cintura o pré-candidato presidencial Geor­ge Wallace terminar um discurso no estacionamento de um shopping em Maryland. Disparou todas as balas. Duas perfuraram o intestino de Wallace, uma entrou pelo tórax e outra ficou alojada na coluna. Depois de uma cirurgia de cinco horas, o candidato se salvou, embora tenha ficado paraplégico (o destino de atirador e atirado está no final da coluna).

Bremer queria fama e não tinha nenhum objetivo político, embora seu alvo fosse um democrata segregacionista que, como governador do Alabama, havia se plantado na entrada da universidade onde dois alunos negros entrariam pela primeira vez, sob proteção policial. Bob Dylan fez a mais conhecida música de protesto da época, The Times They Are A-­Changing, por causa desse episódio infame (“Vamos, senadores e congressistas / Por favor, ouçam o chamado / Não fiquem na porta parados / Não bloqueiem a entrada”). Wallace jamais seria escolhido candidato à Presidência, mas a fervura política da época favoreceu George McGovern, o mais à esquerda do Partido Democrata. Foi massacrado por Richard Nixon. Os democratas do Sul que preferiam Wallace, incapacitado pelo atentado, votaram em massa no candidato republicano.

O objetivo da história é reforçar o elemento imprevisível de qualquer eleição. Tendo se tornado um cisne negro, um evento-surpresa que é explicado erroneamente depois que acontece, Donald Trump agora provoca um efeito oposto. Todo mundo que passou vergonha, inclusive os algoritmos, por ter jurado que Hillary Clinton já estava escolhendo o novo enxoval da Casa Branca agora faz o oposto: garante que Trump será reeleito. A economia está crescendo e o ganho real dos salários também. O desemprego é perto de nulo. Na era Trump, foram criados 500 000 empregos na indústria — aqueles que para Barack Obama só voltariam da China com “uma varinha de condão”.

“Todo mundo que passou vergonha nas projeções eleitorais agora faz o contrário e aposta em Trump”

A magia de Trump garante sua reeleição segundo o princípio pregado pelo estrategista James Carville nas paredes dos comitês de Bill Clinton: “É a economia, seu idiota”. Mas, como o homem que derrubou um bocado de princípios estabelecidos, Trump também tumultuou a ideia de que os eleitores votam sempre com o bolso. Apesar do recorde de 44% de aprovação, ele não sai da avaliação majoritariamente negativa. O estilo abrasivo intoxica a oposição, empurrando-a para a esquerda. Joe Biden, o pré-­candidato democrata com mais chances de derrotar Trump, foi massacrado pela rival Kamala Harris com um discurso ensaiado e eficaz justamente pela atuação conciliatória dele, em começo de carreira, com os democratas segregacionistas como George Wallace. Como Obama, Kamala fala bem, é bonita e tem mistura racial suficiente para ser considerada negra. Ainda por cima, é mulher. O fato de ter começado sua carreira como amante de um ex-prefeito de São Francisco é criteriosamente escondido. O que Trump vai fazer com ela? É pelo aspecto Jogos Vorazes que eleições viciam.

Sobre os personagens iniciais: Bremer foi considerado esquizoide, mas com discernimento suficiente para pegar uma pena de 53 anos. Saiu depois de 35. Wallace perdoou-o e, reconvertido sob o signo de Jesus, renegou seu passado racista antes de morrer, na cadeira de rodas, em 1998.

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2019, edição nº 2643

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