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Na Tailândia, os animais de estimação também vão para o Céu

Gaspar Ruiz-Canela.

Bangcoc, 5 mai (EFE).- Na Tailândia, os donos de bichos de estimação costumam se despedir de seus animais em vistosos rituais fúnebres budistas, que abrem caminho para a reencarnação para o ser que passou por esta vida.

No templo That Thong, em Bangcoc, uma dúzia de parentes e amigos assistem compungidos as preces para Bisho, um Golden Retriever que durante os últimos 15 anos foi considerado como membro da família.

Um monge budista recita mantras no dialeto pali, que são repetidos pelos presentes, que dão as mãos entre si para realizar uma corrente positiva para a alma do animal, que após ser cremado terá suas cinzas jogadas nas águas do rio.

‘Antes não podia nem ver animais, pois tinha medo, mas tudo mudou quando acolhemos Bisho com apenas dois meses de idade. Desde então, minha perspectiva sobre os animais mudou’, disse à Agência Efe a matriarca da família, Indra.

Sob um calor abrasador, o cão começar a exalar um certo mau cheiro e a atrair algumas moscas, o que não impede que Indra e seu filho mais novo o acariciem e até mesmo beijem o focinho do golden retriever.

Os restos de Bisho são introduzidos para sua incineração numa câmara desenhada por Ploysing Passornsiri, fundadora da empresa Pets Crematorium, que também realiza todo o ritual funerário e auxilia no lançamento das cinzas no rio Chao Phraya.

A empresa, pioneira no serviço, realiza entre 30 e 60 funerais por mês, que representam apenas uma parte dos que são realizados diariamente em numerosos templos budistas da Tailândia, país onde os animais de estimação, desde cães até répteis, até aves e macacos, são muito valorizados.

‘Fundei a empresa há três anos porque não quero que quando meu animal de estimação morra ele seja incinerado de qualquer maneira. Já organizamos funerais para peixes, serpentes, tartarugas, gatos e inclusive um ouriço’, explica a jovem tailandesa, que é formada em arquitetura.

Ploysing usou suas habilidades para desenhar uma câmara incineradora na forma de uma casinha de cachorro de cor azul e com um sistema que elimina a fumaça, o que evita o lançamento de gases que causam o efeito estufa.

Os amigos de Bisho deixam um papel rosa no interior da incineradora para se despedir do animal, e colocam do lado de fora uma bandeja com fruta, comida predileta do golden retriever.

O ritual funerário completo custa entre 3.000 baht (cerca de US$ 96) e 10.000 baht (aproximadamente US$ 323), dependendo do tamanho do animal.

Cada vez mais, um número maior de tailandeses está disposto a gastar esta quantia para se despedir de seus bichos de estimação, incluindo a excursão até o rio para lançar as cinzas do animal.

Próxima a ponte de Bhumibol, na capital Manila, Chiprinai, funcionário de um herbário de medicina tradicional chinesa, e a jovem Narisara, reúnem fotografias de seus gatos mortos recentemente enquanto realizam os preparativos para espalhar suas cinzas no rio.

Após as orações budistas, com rostos tristes e algumas lágrimas, eles depositam as cinzas e flores de jasmin, rosas e cravos nas águas mansas do Chao Phraya.

‘Ela não era só um animal de estimação, tinha alma e era parte da família. Compartilhei parte da minha vida com ela e acho que voltaremos a nos ver na próxima’, disse Chiprinai sobre Milk, que morreu de câncer aos seis anos.

Chiprinai acredita que Milk reencarnará numa pessoa na próxima vida. Influenciados pelo hinduísmo, os budistas tailandeses acham que além da reencarnação como animais ou humanos na Terra, as almas também podem passar milhares de anos no céu ou no inferno, dependendo do carma acumulado.

Nascer como um animal é considerado um castigo e é preciso centenas de vidas antes da reencarnação num humano, embora em casos especiais alguns animais podem chegar ao céu por seus méritos.

Segundo a tradição tailandesa, a libertação final, ou o nirvana, alcançado somente por pessoas e seres divinos, interrompe os ciclos de reencarnação das almas na Terra, assim como a passagem pelo céu e o inferno, também considerados lugares temporários. EFE