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‘Na Síria, vi até militares matarem um bebê no colo do pai’

O presidente do Observatório Sírio de Direitos Humanos conta ao site de VEJA o que presencia grupo que tem a missão de ser os olhos e ouvidos da imprensa

Por Nana Queiroz 4 set 2011, 08h52

Desde que os rebeldes começaram a sofrer a forte repressão imposta pelo regime de Bashar Assad – que tenta conter as constantes manifestações contra o ditador desde março -, os mais de 200 membros do Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH) mal conseguem dormir à noite. E isso não é resultado dos traumas em decorrência de toda a violência com a qual convivem diariamente. Trata-se de falta de tempo. Principal fonte de informação no país que proíbe a entrada de jornalistas estrangeiros, o grupo precisa ser os olhos e os ouvidos da imprensa do mundo inteiro. Com base em listas de entrada e saída de pacientes nos hospitais, esses colaboradores divulgam regularmente relatórios com o número de mortos (que já passam de 2.400) e de presos (35.400) pelas forças de segurança de Assad – dados que abastecem inclusive a Organização das Nações Unidas (ONU).

Lista: saiba o que está por trás da violenta repressão síria

Entenda o caso

  1. • Na onda da Primavera Árabe, que teve início na Tunísia, sírios saíram às ruas em 15 de março para protestar contra o regime de Bashar Assad, no poder há 11 anos.
  2. • Desde então, os rebeldes sofrem violenta repressão pelas forças de segurança do ditador, que já mataram mais de 2.400 pessoas no país, de acordo com a ONU.
  3. • Tentando escapar dos confrontos, milhares de sírios cruzaram a fronteira e foram buscar refúgio na vizinha Turquia.

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Em entrevista exclusiva ao site de VEJA, o presidente do Observatório, Rami Abdulrahman, narra as cenas mais horrendas que presenciou no país, como o assassinato de uma menina de dois anos no colo do pai, que tentava fugir de um ataque do governo. “Que nome dar a isso senão crime contra a humanidade?”, questiona. Nascido na cidade de Banias, na costa mediterrânea, Abdulrahman é um dos poucos voluntários do grupo que vive fora do país – atualmente, mora em Londres. Para evitar que a organização acabe desmantelada caso alguém seja preso, os ativistas não se conhecem pessoalmente, e a comunicação entre eles fica restrita a redes sociais, e-mail, telefone e Skype. Nenhum deles ganha um único centavo pelo trabalho que presta. Confira os principais trechos da conversa:

Qual é a situação real na Síria hoje? Nós a definimos como uma situação contínua de crimes contra humanidade, cometidos pelo regime contra seus cidadãos. Tem sido assim desde meados de março deste ano, sem interrupções. O governo está usando o Exército e as forças de segurança para matar seu próprio povo. Já morreram 2.434 civis e cerca de 30.000 foram presos. Tanques de guerra, veículos blindados, canhões, metralhadoras e um enorme número de atiradores de elite são usados para dispersar manifestantes pacíficos. Que nome dar a isso senão crimes contra a humanidade?

Mulher pede 'Síria livre'
Mulher pede ‘Síria livre’ VEJA

De que lado o Observatório se posiciona nesse conflito? Somos uma organização de Direitos Humanos sem orientação política alguma, um grupo de voluntários que se autofinanciam. Somos completamente independentes e não recebemos doações nem suporte de nenhuma outra organização. Existimos desde 2006 – muito antes de começarem os protestos – e continuaremos denunciando abusos de Direitos Humanos na Síria mesmo depois que a revolução acabar. Na nossa opinião, é uma missão que temos de cumprir.

Como está proibida a entrada de correspondentes internacionais, a imprensa do mundo todo depende de vocês para noticiar os conflitos. De que maneira atendem a todos? Temos aproximadamente 200 afiliados dentro da Síria que distribuem informações para qualquer interessado no exterior, independentemente do número.

Sua organização publicou, recentemente, um relatório em que afirma que dezenas de opositores presos pelo regime são torturados até a morte. Não teme que o mesmo aconteça com o senhor? Estou baseado na Grã-Bretanha neste momento, mas tenho certeza de que seria detido se voltasse à Síria. Porém, se algum dia eu tiver de morrer por algo em que acredito, isso será um preço justo a pagar. Não sou privilegiado com relação aos cidadãos sírios, que perdem suas vidas todos os dias em busca de direitos humanos básicos.

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Aliados de Assad ainda o defendem nas ruas
Aliados de Assad ainda o defendem nas ruas VEJA

Na imprensa, vemos diariamente protestos contra e também favor do ditador Bashar Assad. De que lado diria que está a maioria da população? Quase toda a nação está ansiosa para derrubar o regime, exceto alguns privilegiados pelas circunstâncias atuais. Esses grupos incluem as forças de segurança e membros corruptos do governo.

E os manifestantes anti-Assad. Quem são e o que reivindicam? São cidadãos comuns que sofreram por 40 anos a opressão do partido Albaath (do qual Assad faz parte) e a corrupção. Eles querem liberdade, dignidade e democracia.

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Qual a cena mais chocante de abuso que o senhor já presenciou? O assassinato de uma garotinha de dois anos no colo do pai, na cidade de Lattakia. Assustado com o tiroteio indiscriminado que aconteceu na cidade na semana anterior, ele tentava fugir com a filha. Assim que deu partida no carro, as forças de segurança apareceram e mataram os dois. No mesmo dia, outras 29 pessoas morreram naquela região.

Qual seu maior medo em relação ao futuro da Síria? Que o governo leve a nação a uma guerra civil.

O senhor acredita que Assad vai ser derrubado? Nosso caso é muito similar ao da Tunísia e do Egito e, assim como aconteceu nesses países, Assad cairá certamente. Não será fácil estabelecer a democracia no país depois disso, mas podemos alcançar esse objetivo se considerarmos a enorme força de vontade humana que vimos se manifestar nos últimos meses.

O senhor consideraria candidatar-se a algum cargo político nesse novo governo democrático? De maneira alguma. Nenhum de nós aspira a nada deste tipo. Nós só vamos querer desfrutar de um pouco de paz e dormir algumas horas por noite como pessoas normais – não conseguimos fazer isso nos últimos meses.

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