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Na indústria do turismo, o mercado de cruzeiros foi o mais afetado

O setor está paralisado pela pandemia; as três últimas embarcações atracaram agora e não há data para novas viagens

Por Ernesto Neves - Atualizado em 24 abr 2020, 10h48 - Publicado em 24 abr 2020, 06h00

Quando o novo coronavírus ainda era um problema principalmente chinês, ao qual pouca gente dava a dimensão planetária que viria a ter, o drama do transatlântico Diamond Princess foi uma das primeiras janelas para a pandemia que já mostrava sua face. Com 3 700 pessoas a bordo, muitas apresentando sintomas típicos da Covid-19, o navio passou 39 dias ancorado no porto de Yokohama, no Japão, sem que ninguém tivesse permissão para sair — o governo temia que os passageiros e a tripulação contagiassem os japoneses. Quando enfim puderam desembarcar, cercados de medidas de segurança, mais de 700 estavam de fato infectados, dos quais treze vieram a morrer. O Diamond Princess virou um símbolo e, daí para a frente, as viagens de cruzeiro só se complicaram.

Quem tomou coragem e embarcou entre fevereiro e março — depois, as excursões foram sumariamente proibidas — correu o sério risco de viver a via-crúcis marítima de vagar de porto em porto, sem autorização para atracar. Dentro da combalida indústria do turismo, praticamente paralisada pelas medidas de combate ao vírus, os navios de cruzeiro, agora acrescidos do estigma de ambiente propício para a disseminação da Covid-19, foram os que mais acusaram o baque: as ações dos três gigantes do ramo — Carnival, Royal Caribbean e Norwegian, responsáveis por três em cada quatro viagens no mundo — desabaram 80%.

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Segundo a Associação Internacional de Cruzeiros Marítimos (Clia, na sigla em inglês), das três últimas embarcações ainda no mar, duas atracaram na segunda-feira 20 e uma na terça-feira 21. A derradeira foi o Costa Deliziosa, que encerrou em Gênova, na Itália, a longa viagem iniciada em Veneza, em 5 de janeiro, depois de passar por Panamá, Equador e Chile e cruzar o Pacífico até Austrália e Nova Zelândia. Agora, todos os navios estão recolhidos no porto, não só porque os deslocamentos foram impedidos, mas também pelo perigo que representam ao confinar um grande número de pessoas em espaço reduzido durante dias, semanas ou meses. Mesmo antes da Covid-19, eram comuns os relatos de surtos em embarcações do gênero — os Centros de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos registram, em média, treze por ano, a maior parte por norovírus, que ataca o trato gastrintestinal. “Os navios realizam limpeza frequente, mas é impossível zerar os riscos”, diz Tara Smith, epidemiologista da Universidade de Kent, no Reino Unido. No caso de um patógeno respiratório, como é o novo coronavírus, a situação se agrava, já que ele se espalha tanto por superfícies contaminadas quanto pela interação entre pessoas. “Basta um doente para que a situação saia de controle”, explica.

Diante da tempestade de proporções cinematográficas, a indústria de cruzeiros traça estratégias para um difícil recomeço. Nos bons tempos, os navios transportavam 30 milhões de passageiros por ano, movimentando 45 bilhões de dólares. Agora a situação é outra. Nos Estados Unidos, o maior mercado, novas viagens estão vetadas pelo menos até julho, decisão que deve ser seguida também na Europa e no Caribe. A Carnival (prejuízo: 780 milhões de dólares) faz planos para retomar as atividades no segundo semestre — mas com cuidados extras. Em meio às alternativas em estudo estão a redução da capacidade máxima, intercalando cabines vazias entre as ocupadas, a liberação apenas daquelas que têm escotilhas, para melhorar a ventilação, e o controle da temperatura dos passageiros.

O retorno, de todo modo, será em mar revolto. As operadoras já enfrentavam rejeição por parte dos jovens, devido ao impacto ambiental provocado por navios cada vez mais gigantescos. Além disso, a turma acima de 60 anos representa 35% da clientela — um grupo que, no cenário pós-coronavírus, refletirá mais antes de embarcar. No Brasil, as empresas que operam cruzeiros, um mercado de 2,2 bilhões de reais, projetam perda modesta, de 15%, porque a temporada aqui vai de novembro a março e já estava no fim quando a pandemia se abateu sobre o mundo. Mas encaram outros problemas, e eles vêm de longe. Em 2019, os sete navios que percorrem a costa brasileira transportaram 460 000 pessoas — metade do número de passageiros de 2010, quando o setor bateu o recorde de público. A queda é atribuída, em grande parte, ao achatamento da renda da população, mas, segundo operadores, também é reflexo da estrutura ultrapassada dos portos e da escassez de destinos com capacidade de receber transatlânticos. “Ainda estamos definindo com autoridades e cidades turísticas o momento ideal para a volta das atividades”, diz Marco Ferraz, presidente da Associação Brasileira de Cruzeiros. Muita água vai rolar até que isso possa acontecer.

Publicado em VEJA de 29 de abril de 2020, edição nº 2684

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