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Na Grécia, a centro-direita tira de cena o esquerdista Tsipras

Numa trama inesperada, país elege o conservador Kyriakos Mitsotakis como primeiro-ministro — e encerra a fracassada experiência da esquerda radical

A onda conservadora que está varrendo a Europa e boa parte do mundo desaguou na Grécia no domingo 7, com a vitória do partido de centro-direita Nova Democracia (ND), de Kyriakos Mitsotakis, sobre o Syriza, liderado por Alexis Tsipras, um radical de esquerda que se dobrou ao pragmatismo e borrou inapelavelmente a aura de novidade que o instalou no poder. Não foi um resultado apertado. A ND levou 40% dos votos, contra 31% do Syriza, e ocupou 158 das 300 cadeiras do Parlamento. A diferença no avanço da direita na Grécia, porém, é que os gregos, ao contrário dos vizinhos da União Europeia, não estão incomodados com a burocracia do bloco nem com o bolor dos partidos tradicionais (a ND, aliás, é um deles), nem mesmo com a incendiária questão da imigração, embora o país tenha lá sua cota de problemas. O que as urnas mostraram mesmo é que os gregos querem ver Tsipras pelas costas e não aceitam os extremistas, que ficaram sem assentos.

Diplomado pelas universidades americanas Harvard (psicologia) e Stan­ford (administração), o novo primeiro-ministro Mitsotakis, ex-banqueiro poliglota de 48 anos visto até recentemente como um rapaz esforçado mas pouco brilhante, chega ao poder com a batida promessa de tirar o país do atraso em relação ao resto da Europa. Embora cultive uma imagem moderna — sua bebida preferida é chá-­verde —, ele vem de uma família de políticos: o pai, Konstantinos Mitsotakis, foi primeiro-­ministro entre 1990 e 1993. Durante a campanha, circulou pela Grécia sem gravata, anunciando uma “grande mudança política” e a retomada do crescimento, hoje em fracos 2% ao ano. Prometeu cortar impostos, reativar investimentos, criar empregos e privatizar estatais — o que casa com a agenda liberal dos tempos atuais, mas causa arrepios na ala mais conservadora do seu partido. “Ele montou uma equipe competente e tem boa chance de fazer pelo menos parte do que promete”, avalia George Pagoulatos, professor de economia e negócios da Universidade de Atenas.

Ao admitir a derrota, Tsipras, no estilo franco que o caracteriza, reconheceu que chegou ao poder, em 2015, “sem noção do tamanho das dificuldades do dia a dia”. Dos seus aliados de esquerda, ouviu duras críticas por haver incluído na coalizão de governo um pequeno partido nacionalista de direita, Anel, em aliança indispensável para aprovar medidas amargas na economia e, de modo geral, praticar a condenada kolotumba — o contrário do prometido em campanha. “Cometi erros, grandes erros. Em quê? Na escolha de pessoas para lugares-­chave”, disse Tsipras.

O Syriza chegou ao poder em plena crise de endividamento, que colocou a Grécia às portas da inadimplência. Em troca de ajuda financeira para sair da beira do abismo, a União Europeia exigia a adoção de políticas de austeridade — o velho dilema que a América Latina conhece muito bem. Nas primeiras reuniões, Tsipras bateu na mesa — às vezes literalmente — e disse não. Pôs a proposta em plebiscito, estimulou a população a votar contra, e o não, de fato, ganhou. Mas, encostado na parede pela falta de saída viável, o primeiro-ministro capitulou e acabou aceitando um arrocho ainda mais duro, como forma de evitar a remoção da Grécia da zona do euro. Seu recuo trouxe certo alívio à economia grega. O desemprego, de 28%, caiu 10 pontos (mas ainda é altíssimo para os padrões europeus).

No fim, acabou sendo vítima da austeridade adotada. A política de que cada contratação no setor público seja acompanhada de uma aposentadoria enxugou, em parte, uma das maiores despesas públicas, mas não lhe rendeu simpatia alguma — da mesma forma que a redução nas pensões e no aumento do salário mínimo, exigências para sair do buraco. Com a popularidade em baixa, viés reforçado pelo mau desempenho nas eleições ­para o Parlamento Europeu em maio, Tsipras resolveu convocar eleições antecipadas antes que o mal crescesse. Acabou dando um tiro no pé. Mitsotakis, político em quem ninguém punha muita fé, tornou-se o plano B dos gregos e ganhou a eleição. Tem agora a difícil missão de pôr nos eixos um país desanimado e empacado em velhos problemas. Resta saber se o roteiro daqui por diante será uma tragédia ou comédia.

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2019, edição nº 2643

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