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‘Na globalização, escravos fabricam os produtos que são vendidos aos desempregados’

Beneficiada pelo escândalo de Strauss-Kahn, a ultraconservadora Marine Le Pen tem chances de chegar ao segundo turno das eleições francesas de 2012 com propostas radicais e muito charme

Por Mariana Pereira de Almeida 10 jun 2011, 23h33

O sobrenome Le Pen está associado, na França e na Europa, a um nacionalismo extremado, de propostas xenófobas e até mesmo racistas. Ex-pescador, minerador, soldado nos conflitos da Indochina (atual Vietnã) e da Argélia e cego de um olho, o político Jean-Marie Le Pen, hoje com 82 anos, chegou a ser condenado por uma corte de Munique em 1999, ao dizer que os campos de concentração nazistas e as câmaras de gás eram um pequeno detalhe da Segunda Guerra Mundial. Isso não impediu que o político, depois de perder quatro eleições presidenciais, disputasse um segundo turno contra Jacques Chirac em 2002.

Após quase 40 anos na liderança do partido Frente Nacional, que fundou, Le Pen recentemente passou o bastão à sua filha, Marine. A advogada, de 42 anos, foi oficializada candidata da legenda às eleições de 2012, em maio passado. Os olhos claros, o charme e a assertividade da política, divorciada e mãe de três filhos, suavizam a imagem e o discurso da legenda. Na essência, contudo, as ideias permanecem as mesmas.

A voz grave e segura de Marine empresta naturalidade a propostas como o fim da União Europeia – e até da globalização. Curiosamente, bandeiras que já foram carregadas por extremistas de esquerda. “A globalização consiste no uso de trabalho escravo para fabricar produtos que, depois, são vendidos aos desempregados”, disse ela em entrevista ao site de VEJA. Sobre a zona do euro, a candidata também é categórica: “Eu não vou sacrificar o meu povo pelo dogma de uma moeda única que nos venderam como sendo capaz de trazer o crescimento, e que até agora só trouxe resultados econômicos catastróficos.”

O discurso de Marine ressoa entre uma parcela considerável dos eleitores franceses, que anda assustada com o número de imigrantes no país e com os efeitos da crise econômica global. Antes do escândalo sexual envolvendo o socialista Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor-gerente do FMI e favorito na disputa, algumas pesquisas davam a Marine 20% das intenções de votos. Com a saída de DSK, muitos analistas acreditam que ela possa ser beneficiada. Confira a seguir a entrevista que ela concedeu, por teleforne, ao site de VEJA.

A senhora será candidata da Frente Nacional no lugar de seu pai, candidato do partido durante anos. O que a senhora traz de novo?

Primeiro, trago a minha personalidade. Creio que, de fato, tenho um capital político construído pelo nome Le Pen depois de 40 anos, que representa a defesa da soberania, da liberdade, a luta contra a imigração e contra a insegurança. Junto com o meu nome e a minha personalidade, quero chamar atenção para o programa econômico da Frente Nacional e também para a nossa preocupação social.

Qual é o principal projeto desse programa econômico?

A principal ideia é que uma economia deve ser fundada sobre o empresariado, mas deve dar as costas à especulação e às grandes potências financeiras, que prejudicaram a economia do nosso país. E a segunda ideia é a da nossa soberania monetária, orçamentária e a nossa capacidade de colocar em funcionamento um protecionismo razoável e inteligente, como fazem todas as grandes nações do mundo: dos EUA ao Canadá, passando pela Rússia e pela China.

O que a senhora chama de protecionismo inteligente?

São métodos fiscais e aduaneiros que permitem voltar a industrializar nosso país e a evitar a concorrência internacional desleal, que nós observamos na França e que tem custado milhares de empregos no setor industrial. Depois que a União Europeia abriu as fronteiras do continente ao livre comércio, há produtos como aqueles vindos da China ou da Índia com os quais nós evidentemente não podemos competir. O nosso sistema de proteção social, as normas ambientais e de segurança fazem com que o nosso produto tenha mais custos do que aqueles produzidos nos países emergentes.

Então, a senhora é contra o acordo de livre comércio que o Brasil negocia com a Europa?

Sim, sou contra, apesar da simpatia que tenho pelo Brasil, com quem a França tem muitos pontos em comum. Acredito que os dois países devem fechar uma parceria energética porque o Brasil já é um grande produtor de petróleo e a Petrobras tem reservas de bilhões de barris. A meu ver, porém, à França não interessa esse acordo de livre comércio, que terminaria de arruinar a capacidade econômica do país.

Analistas estrangeiros acham que a senhora dá um toque de modernidade e charme às mesmas posições extremistas de seu pai. O que a senhora pensa sobre isso?

Não vejo extremismo nas posições que nós defendemos e que já são aplicadas em uma série de países. Lutamos por mais ordem, contra a insegurança galopante de nosso país e contra a violência. Somos a favor de um estado estrategicamente forte, capaz de intervir para regular os excessos do ultraliberalismo, que vai regular a imigração levando em conta os cinco milhões de desempregados que temos. Portanto, não podemos aceitar nenhum imigrante a mais. Nada temos a oferecer a eles: nem emprego, nem moradia. Eu não vejo nada de extremista nessas soluções, que me parecem de extremo bom-senso.

Suas propostas sobre a imigração rendem a Frente Nacional acusações de xenofobia…

É absurdo considerar xenófobo um país que quer controlar a imigração. Pessoalmente, não tenho nada contra estrangeiros, que respeito como pessoas. Mas a imigração é um problema econômico. Ela é usada há décadas na França para criar concorrência no mercado de trabalho e baixar os salários. Isso interessa aos grandes empresários. A imigração é um efeito da globalização, que, por sua vez, beneficia um pequeno número de pessoas, ao empobrecer a imensa maioria. Nossa política consiste em dar prioridade e ajuda social àqueles que têm a nacionalidade francesa, qualquer que seja cor, origem ou religião. É o que fazem a Suíça ou o Marrocos, por exemplo, e ninguém os acusa de serem racistas ou xenófobos.

A senhora é a favor de reformar o acordo de fronteiras da União Europeia para barrar a entrada de imigrantes?

As regras da União Europeia não previam a chegada massiva de imigrantes clandestinos. Então, acredito ser necessário suspender o tratado de Schengen imediatamente para controlar a imigração. A UE é manifestamente incapaz de fazê-lo. Um exemplo claro da dimensão do problema foi a regularização de um milhão e quinhentos mil clandestinos por Itália e Espanha, há alguns anos. A partir do momento em que essas pessoas passam a ter documentos expedidos por um membro da UE, elas podem se instalar em qualquer país do bloco. E a França é o mais atraente da zona do euro, por ter o sistema de proteção social mais generoso. Grande parte desses imigrantes vieram parar aqui. Evidentemente, nós não podemos mais assumir financeiramente essa situação. Temos bilhões de euros de dívida e déficit todos os anos.

A senhora é contra a globalização?

Sim. A globalização consiste no uso de trabalho escravo para fabricar produtos que, depois, são vendidos aos desempregados.

A França pode se permitir ficar à margem da globalização?

Eu acho que a globalização é um fato, mas também uma ideologia. Uma ideologia de comércio que dá à lei do mercado o direito de esmagar tudo em sua passagem: as tradições, os países, as leis e o sistema de proteção social. Eu sou contra isso. É preciso voltar às trocas entre nações soberanas e aos acordos bilaterais que existiam antes da abertura total das fronteiras. Hoje, a União Europeia está isolada no mundo porque é a única totalmente dedicada ao comércio livre sem nenhum sistema de proteção do seu mercado interno. Todo mundo vive assim e nós estamos morrendo.

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A senhora concorda com a avaliação de analistas políticos de que é uma das principais beneficiadas pelo escândalo envolvendo o ex-diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn?

Não sei responder isso. O que sei é que na França, assim como em outros países, a população deveria aumentar suas exigências no que se refere à ética e à moral pública. Os nossos dirigentes precisam parar de pensar em seus interesses pessoais e parar de se comportar como senhores feudais. Eles devem se lembrar de que estão lá apenas pelo bem comum e bem-estar da população.

A senhora disse à imprensa que na França “todos conheciam a fama de assediador de DSK”…

De fato, eu não fiquei surpresa. É um absurdo que a classe política e jornalística tenha deixado Dominique Strauss-Kahn chegar à chefia do FMI só porque, por razões puramente cínicas, isso interessava a Nicolas Sarkozy, que dessa maneira se livrava de um concorrente político. Sarkozy teve a responsabilidade de nomear alguém, mesmo conhecendo o seu comportamento patológico em relação às mulheres. As consequências do caso afetam a credibilidade e a imagem de toda a França.

Por que a senhora quer acabar com o FMI?

Eu acho que o FMI não é mais o que nós esperávamos: um organismo internacional que ajudaria países em dificuldade sem desrespeitar a soberania deles. Hoje em dia, o FMI está a serviço exclusivamente dos mercados financeiros e especulativos. É a entidade que chega aos países e diz: “os salários e as aposentadorias devem baixar, você deve vender tal coisa, ou privatizar a integralidade do serviço público”, mergulhando o país numa situação mais difícil do que antes da intervenção. Trata-se de um organismo que se tornou profundamente nefasto.

Qual seria a solução para a crise na zona do euro?

Não há solução. O euro está condenado. Vai afundar, podendo provocar um caos econômico e social. Isto vai ocorrer se um certo número de países não assumir a responsabilidade e tiver lucidez de antecipar a saída do euro em lugar de amargar esse fracasso. A Grécia, por exemplo, foi submetida a um verdadeiro saque social, econômico e humano. Apesar disso, sua situação só piora. Hoje é a Grécia, amanhã será Portugal, depois a Irlanda, a Itália, a Espanha, a França… Eu não vou sacrificar o meu povo pelo dogma de uma moeda única que nos venderam como sendo capaz de trazer o crescimento, e que até agora só trouxe resultados econômicos catastróficos.

Por que a senhora compara a União Europeia à extinta União Soviética?

A União Europeia é totalitária, foi construída sem o povo e até mesmo contra ele. Eu devo lembrar que os franceses votaram “não” para a Constituição europeia em um referendo em 2005 e, apesar disso, nos impuseram o tratado de Lisboa. Nós não temos mais soberania monetária, orçamentária, territorial e legislativa. Viramos um povo escravo.

Ser contra a globalização e a zona do euro não vai contra a modernidade e o futuro?

O que é a modernidade? Voltar à Idade Média? A modernidade de hoje está rodeada por pobreza e miséria. Traz pobreza não só aos países que eram ricos, mas também àqueles que já eram pobres, como os do continente africano. A globalização é a competição, a especulação, e isso está provocando os motins em uma série em países da África. Eu não acredito que a globalização excessiva e sem qualquer regulação seja uma prova de modernidade. Eu creio que, ao contrário, se trata de uma prova de arcaísmo e recuo social.

Por que a senhora quer acabar com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)?

Por que a França não deve deve se submeter à ditadura americana. A França é um grande país, que merece ser livre e soberano e não deve obedecer servilmente aos interesses dos Estados Unidos.

O que a senhora pensa sobre a intervenção militar na Líbia?

Sou completamente contra. Essa intervenção me parece uma ingerência num conflito interno. Trata-se de uma espécie de guerra civil, cuja solução poderia estar no campo diplomático, mediada especialmente por aqueles que têm a mesma língua e cultura que a Líbia. Para isso, eu penso nos países árabes e até na União Africana. Não se faz democracia com os mísseis da Otan. Vamos ficar atolados na Líbia, como ocorre no Afeganistão, sem trazer benefício ao povo líbio.

Como a senhora vê a relação de países europeus com os ditadores que estavam no poder na Tunísia e no Egito?

Para os países europeus, há “os bons ditadores e os maus ditadores”. E isso pode mudar em três dias. Eu refuto esse cinismo. Não sou a favor de bombardear Kadafi, mas também não sou a favor de recebê-lo com pompa, permitindo que monte sua tenda nos jardim do Palácio do Eliseu. Tudo foi excessivo em nosso comportamento, seja antes ou depois.

O que a senhora quer dizer com “bons ditadores”?

É exatamente isso. Na Síria a França não intervém. No Barein também não faz nada. Há repressões de populações civis nas quais a gente intervém e outras não. Então, há os ditadores “gentis” e os “malvados”. Ninguém se escandalizou depois que uma mulher foi presa na Arábia Saudita porque dirigiu um carro. Ninguém se escandaliza também pelo fato de uma jovem cristã ser condenada à pena de morte no Paquistão por ter bebido água em um local reservado aos muçulmanos. Há um grande cinismo nas relações internacionais e se você busca petróleo vai compreender o que justifica um ditador gentil, que de repente vira mau, e vice-versa.

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