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Na Argentina, histórias da atuação social do papa Francisco

Pontífice é lembrado em Buenos Aires por sua atuação junto a grupos com pouco amparo do poder público

Por Cecília Araújo, de Buenos Aires 16 mar 2013, 09h47

O papa Francisco sempre teve um olhar especial para as questões sociais. Ao longo de seu arcebispado, ficou conhecido por suas visitas a favelas da capital argentina e de usar seu posto e carisma para contribuir com organizações do terceiro setor.

O presidente da ONG La Alameda, que luta contra a prostituição, as drogas, o tráfico de pessoas, o trabalho infantil e escravo na capital argentina, lembra a figura presente do então arcebispo de Buenos Aires na instituição. “Ele entrava em contato com essas vítimas das injustiças sociais e se comovia com a história delas”, conta Gustavo Vera. “Ele costumava realizar missas em lugares públicos onde havia prostíbulos, por exemplo, e denunciava a triste situação por que passa nossa cidade”.

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O professor de história da Igreja Católica da Universidade Estadual de Nova York, William Cook, cita um episódio em que demonstrou compaixão pelos soropositivos. “Soube que o cardeal Bergoglio foi a um hospital de tratamento da aids e lavou os pés dos pacientes. Eu acho que esse gesto é importante, porque ele disse que, qualquer que sejam os argumentos sobre preservativos, ele será sensível aos que sofrem com essa doença”. Para o especialista, a visita dá pistas sobre como deverá ser o papado de Francisco. “Eu acho que esse será um papa que nós poderemos amar por sua humildade, por sua evangelização e acho que ele será uma voz mais gentil, mesmo nas questões de aconselhamento.”

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Antes de se tornar pontífice, a ação de Francisco não se limitava a ouvir as pessoas, mas também a falar sobre a situação que presenciava. Em 2006, seis bolivianos, incluindo quatro crianças, morreram em um incêndio em uma oficina têxtil no bairro de Caballito, em Buenos Aires. No local, trabalhavam e viviam cerca de 50 imigrantes em condições de escravidão. À ocasião, centenas de manifestantes marcharam em frente à Casa Rosada para reclamar à administração de Néstor Kirchner mais ação diante do acidente. “De tempos em tempos, em seus sermões, Bergoglio se lembrava das vítimas desse incêndio, fazia missas em frente ao local e criticava o estado por não acompanhar os sobreviventes ou sequer julgar os responsáveis”, lembra Vera.

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Outras vezes, quando o estado não se mostrava apto a garantir a segurança de pessoas que denunciavam situações ilegais e eram ameaçadas de morte, ele as amparava, se preciso até as recebia como refugiadas nas dependências do arcebispado. “Bergoglio prestava assistência a todos que viviam em condições vulneráveis e exigia que o estado cumprisse com a lei. Ele falava a verdade que o governo não queria ouvir”, opina o presidente da ONG.

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Jorge Liotti, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Católica Argentina (UCA), também recorda que a relação de Bergoglio com os Kirchner foi tensa. “Suas mensagens sempre denunciavam a corrupção, o clientelismo político, a injustiça social. Obviamente, a carapuça serviu, e o governo entendeu que as críticas se direcionavam a eles”, afirma. Segundo Liotti, os Kirchner foram se afastando do arcebispado de Buenos Aires, até que passaram a frequentar outra catedral, no interior do país. “O governo acreditava que Bergoglio incentivava as vozes opositoras. Mas, agora que se tornou papa, Cristina parece ter percebido que precisa se esforçar para reduzir essas tensões e restabelecer esse vínculo.”

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