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Mursi declara estado de emergência após mortes em protestos

Presidente faz apelo por diálogo nacional, mas oposição rejeita chamado "sem sentido". Dezenas de pessoas morreram nos últimos dias em confrontos

O presidente do Egito, Mohamed Mursi, decretou estado de emergência durante um mês em três cidades do canal de Suez, onde dezenas de pessoas foram mortas em protestos que varreram o país e agravaram a crise política que acua o mandatário islâmico. Porém, centenas de manifestantes em Port Said, Suez e Ismailia se voltaram contra a decisão e convocaram novos protestos para esta segunda.

Os ativistas críticos do decreto afirmam que a medida é um retrocesso no Egito, que passou os 30 anos do governo de Hosni Mubarak sob um estado de exceção que permitia a repressão a grupos islâmicos de oposição, inclusive a Irmandade Muçulmana. Os moradores das três cidades afetadas prometeram desafiar o toque de recolher, que deve ser imposto diariamente das 21 horas às 6 horas.

Os distúrbios foram desencadeados no sábado, após a condenação à morte de 21 pessoas da cidade por ligação com um tumulto num estádio de futebol no ano passado, quando 74 pessoas morreram e 254 ficaram feridas nos enfrentamentos entre torcedores do clube local, Al Masry, e do Al Ahly, do Cairo, o mais popular do país. No domingo, pessoas que acompanharam os funerais na cidade voltaram sua ira contra o governo de Mursi.

Confrontos – Os confrontos nas cidades egípcias já completam cinco dias. Antes mesmo da decisão judicial de sábado, houve conflitos nos protestos que marcaram o segundo aniversário da revolta contra Mubarak, dia 25 de janeiro.

Nesta segunda-feira, um homem morreu depois de ser atingido por um tiro perto da Praça Tahir, no Cairo, onde jovens estão acampados há várias semanas em protesto contra o governo. Segundo a agência estatal Mena, outras seis pessoas morreram em Port Said e quase 600 ficaram feridas.

“Queremos derrubar o governo e acabar com o estado que é gerido pela Irmandade Muçulmana”, disse o cozinheiro Ibrahim Eissa, de 26 anos, que protegia o rosto do gás lacrimogêneo usado pela polícia contra os jovens, que atiravam pedras. A Praça Tahrir foi o epicentro da revolta de 2011. Mursi, ligado à Irmandade Muçulmana, prometeu “confrontar qualquer ameaça à segurança com força e firmeza, dentro do que permite a lei”.

Diálogo – Num apelo aos oponentes laicos e liberais, Mursi convocou um diálogo nacional para esta segunda-feira. Foram convidados representantes de 11 forças políticas, incluindo islamitas, liberais e esquerdistas. Mas a oposição rejeitou a convocação, por considerá-la “sem sentido”.

Mohamed El-Baradei, um dos líderes da coalizão opositora Frente de Salvação Nacional, disse que antes de se realizar um diálogo nacional, o presidente deveria formar um governo nacional de unidade e fazer alterações na Constituição.

“A não ser que o presidente assuma a responsabilidade pelos incidentes sangrentos e prometa formar um governo de salvação nacional e uma comissão equilibrada para emendar a Constituição, qualquer diálogo será perda de tempo”, escreveu El-Baradei em sua página no Twitter.

A oposição acusa Mursi de ser autocrático e ter forçado a aprovação de um novo texto constitucional que não protege adequadamente as liberdades de expressão e religião.

(Com agências Reuters e France-Presse)