‘Mundo atento’, diz representante dos EUA sobre transição verde do Brasil
Encarregado de negócios dos Estados Unidos no Brasil, Douglas Koneff afirma que Brasil deve assumir liderança mundial na transição para o baixo carbono
Encarregado de negócios dos Estados Unidos no Brasil, o diplomata americano Douglas Koneff afirmou a VEJA que o mundo atento às eleições dos Estados Unidos e do Brasil este ano – lá, os americanos escolhem os representantes do Congresso Nacional e governadores em dezenas de estados, enquanto os brasileiros vão às urnas decidir seu próximo presidente. “Temos a responsabilidade de ser exemplo dos valores democráticos”, diz.
Koneff também prevê um recorde de transações comerciais entre os dois países, superando os 120 bilhões de dólares. “A maioria das empresas “unicórnio” do país têm investimentos e parcerias significativas com os EUA”, garante.
O diplomata também afirma que o mundo está de olho na questão ambiental brasileira, e que o país deve liderar a transição do planeta rumo à economia de baixo carbono.
Como os Estados Unidos avaliam a posição do Brasil na transição mundial para a economia de baixo carbono?
Para nós, não há dúvida de que temos uma responsabilidade comum em garantir um futuro seguro, saudável e sustentável para as próximas gerações. A transição para uma economia de baixo carbono é parte relevante desse trabalho, e reconhecemos o recente compromisso do Brasil de alcançar a neutralidade de carbono até 2050, 10 anos antes do compromisso estabelecido anteriormente. A meta de eliminar o desmatamento ilegal até 2028 também terá um papel crucial nesse esforço.
Em muitos aspectos, o Brasil tem as ferramentas para lidar com esse desafio, como um excelente código florestal, um setor de geração de energia de baixas emissões, comunidades e ONGs que estão ativamente promovendo a proteção ambiental e o combate ao desmatamento. O país tem recursos abundantes para começar a fazer os impactos e mudanças necessárias.
Entendemos que atingir metas ambientais requer muito trabalho, e esperamos que o Brasil seja um líder na área ambiental. Não existem soluções fáceis ou simples para esse desafio, mas o consenso global de que todos temos que fazer mais é incontestável. O mundo está atento, incluindo os mercados, investidores e consumidores, que esperam que a responsabilidade ambiental seja parte do que apoiam ao comprar produtos ou fazer investimentos.
Esforços como a maior aplicação da lei ambiental, comunicação pública e dedicação de recursos significativos na área de conservação, são cruciais para mostrar ao mundo que levamos a sério essa responsabilidade. Estamos cientes de que o Brasil precisará de recursos adicionais para alcançar metas mais ambiciosas, e estamos dialogando continuamente sobre as possíveis ferramentas para que tenha acesso a mais financiamento.
Em que setores da economia os Estados Unidos podem ajudar o Brasil – ou já estão ajudando, nessa transição sustentável?
Para atingir nossas metas net-zero até 2050, precisaremos aumentar rapidamente a capacidade de energia renovável em ambos os países. Sobre esse tema, os EUA têm muito a aprender com o Brasil, onde as fontes de energia renováveis geram mais de 80% da eletricidade do país.
As empresas norte-americanas estão ajudando o Brasil a expandir rapidamente sua capacidade de energia eólica e solar e estão explorando oportunidades em novas fontes de energia limpa, como o hidrogênio verde. Além disso, as empresas de energia nuclear dos EUA estão auxiliando a renovar e expandir, com segurança, a geração de energia nuclear brasileira. Com um setor privado robusto e inovador, que nossos dois países possuem, as oportunidades são infinitas.
O governo dos EUA também está apoiando ativamente o setor de pequenas e médias empresas e startups do Brasil, com um foco especial no apoio às populações que tradicionalmente têm tido menos oportunidades para iniciar negócios.
Por exemplo, estamos ajudando startups lideradas por mulheres e empreendedoras a superar os desafios únicos que elas enfrentam ao abrir e sustentar um novo negócio. Há muito tempo temos dito que a preservação das florestas significa que devemos primeiro apoiar as pessoas que dependem delas, e nossos projetos da Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA (USAID) trabalham com pequenos produtores para promover e desenvolver uma indústria mais sustentável – na pesca, na castanha-do-Brasil e em vários outros setores da Amazônia brasileira.
Isso significa mais oportunidades para conservar o diversificado bioma amazônico e sua cultura ímpar, ao mesmo tempo em que se melhora os meios de subsistência. Um outro exemplo seria o novo acordo de cooperação técnica com o SEBRAE, que permitirá ao grupo industrial de PMEs do Brasil a medir melhor o impacto econômico e promover a geração de empregos.
O governo do presidente Joe Biden tem ressaltado a importância da reconstrução da economia em bases mais sustentáveis. Existe a previsão de financiamentos ou parcerias em projetos de baixo carbono no Brasil?
Os EUA estão empenhados em apoiar os esforços para reduzir o desmatamento, reduzir a emissão de gases de efeito estufa, especialmente metano, e conservar e restaurar ecossistemas, no Brasil e no mundo. Estamos atualmente apoiando importantes programas, como o de conservação da biodiversidade por meio da USAID, intercâmbios técnicos com as diversas agências ambientais dos EUA e esforços globais, como a Coalizão LEAF.
Outro exemplo desse apoio inclui o trabalho da Corporação Financeira de Desenvolvimento para um empréstimo de 300 milhões de dólares ao BTG Pactual em suporte a pequenas e médias empresas, com foco nas regiões Norte e Nordeste e em empresas lideradas por mulheres.
O presidente Joe Biden já declarou que gostaria de ajudar na proteção da Amazônia. Existe alguma conversa em andamento com o governo brasileiro nesse sentido?
Primeiro, quero ressaltar o nosso pleno respeito pela soberania do Brasil sobre a Amazônia brasileira. A importância desse bioma é amplamente reconhecida pelos EUA, pelo hemisfério e pelo mundo. Temos uma responsabilidade coletiva de ajudar na proteção da floresta Amazônica. Concordamos que povos indígenas e comunidades tradicionais devem estar sempre envolvidas na preservação das florestas e biodiversidade, inclusive da Amazônia.
A Embaixada e Consulados participam de conversas regulares com representantes desses grupos, líderes da sociedade civil, setor privado e governos estaduais, além do governo federal. Estamos dialogando regularmente com o governo brasileiro para ver como podemos apoiar iniciativas que darão resultados ainda mais ambiciosos, com mecanismos para financiar atividades de conservação, alguns bilaterais e outros internacionais.
No campo da tecnologia, principalmente o 5G, como estão as conversas entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos?
O 5G é uma tecnologia tão transformadora e tocará tantas áreas estratégicas, como infraestrutura crítica, distribuição de energia, saúde pública, agronegócio, propriedade intelectual e inovação, que as apostas para a segurança dessas redes não poderiam ser maiores. Ao nosso ver, o crescimento econômico dos EUA, do Brasil, e de outras economias fortes dependerá de uma comunicação segura, proteção da inovação, e confiança dos usuários de redes e investidores em empresas que dependem de proteção de dados e conhecimento.
Os EUA e muitos outros países continuam a ter fortes preocupações sobre o papel potencial da Huawei e outras companhias ligadas ao Partido Comunista da China na infraestrutura de telecomunicações ao redor do mundo. Reconhecemos que o Brasil é um país soberano e tomará suas próprias decisões nessa área.
Entretanto, vamos continuar advogando por soluções mais seguras e mais econômicas, como Open RAN, que pode ao mesmo tempo oferecer melhor proteção para a economia do Brasil, e fornecer um serviço confiável a um custo acessível para os consumidores e as companhias brasileiras.
À medida que as redes 5G são construídas, esperamos que as empresas se envolvam com seus provedores de telecomunicações em defesa de seus direitos a uma rede segura para processar seus dados – a fim de proteger a privacidade, segredos comerciais e propriedade intelectual dos clientes, e que os provedores façam escolhas responsáveis para respeitar essas demandas.
Como o senhor descreveria a parceria entre Brasil e Estados Unidos hoje?
Tenho orgulho de liderar os esforços diplomáticos dos Estados Unidos no Brasil durante este momento importante de nossa relação bilateral. Como as duas maiores democracias do hemisfério, nossa responsabilidade de ser um exemplo dos valores democráticos é ainda maior em ano eleitoral, como o que ocorrerá no Brasil e EUA em 2022.
Os dois países alimentam o mundo, inovam, criam empregos e descobrem novas tecnologias. Assinamos novos acordos para facilitar o comércio bilateral e nossa relação comercial alcançou US$ 100 bilhões em 2018 e 2019, respectivamente.
Também assinamos memorandos com mais de 10 governos estaduais, que visam criar uma estrutura para nossa cooperação em nível regional. O memorando recentemente assinado com o estado da Bahia ajudou a direcionar nosso apoio a milhares de famílias impactadas pelas recentes enchentes na região.
Os Estados Unidos preveem o envio de novas remessas de insumos e remédios ao Brasil?
No total, entre os setores públicos e privados, a assistência dos EUA ao Brasil ultrapassa 420 milhões de reais, sem mencionar várias outras doações particulares. Além de mais de 5 milhões de doses de vacinas, entregamos 1.000 ventiladores pulmonares para o Brasil, doamos hospitais de campanha para responder à Covid-19 e outras emergências, e ajudamos com medicamentos críticos para a intubação de pacientes infectados pelo vírus.
Recentemente, fizemos uma doação adicional de mais de R$ 100 milhões para equipar unidades de saúde e clínicas móveis, responder às emergências humanitárias existentes, mitigar os impactos da pandemia na saúde e segurança alimentar, e fornecer mais vacinas. Com o aumento da vacinação, produção e fornecimento de vacinas pelo Brasil, os dois países têm uma oportunidade única de ser um multiplicador de forças no combate à pandemia além de nossas fronteiras.
Existe alguma previsão de visitas de representantes do governo do presidente Joe Biden ao Brasil?
O último ano foi marcado por visitas de representantes do nosso governo ao Brasil e do governo brasileiro aos EUA, e conversas virtuais significativas, do alto escalão, que reforçaram a relevância e o potencial da nossa cooperação bilateral. Este ano continuaremos a aprofundar essa relação, com mais visitas e diálogos que abordarão assuntos centrais dessa parceria. Temos desafios claros, continuar o combate ao coronavírus, aumentar de forma significativa o investimento bilateral e encontrar novas maneiras de facilitar o comércio.







