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Mujica e Julio María Sanguinetti: a política que não cultiva o ódio

Os dois ex-presidentes do Uruguai decidiram juntos abandonar a ribalta, renunciando simultaneamente ao cargo de senadores da República

Por Ernesto Neves Atualizado em 23 out 2020, 17h51 - Publicado em 23 out 2020, 06h00

Sim, há de soar inacreditável, quando se olha para os humores ao redor, mas a história a seguir é real: na terça-feira 20, dois ex-presidentes do Uruguai — José “Pepe” Mujica, um ícone da esquerda, e Julio María Sanguinetti, estrela da direita — decidiram juntos abandonar a ribalta, renunciando simultaneamente ao cargo de senadores da República. Os dois deram um emocionado abraço, quebraram o protocolo da Covid-19, ao se aproximar sem máscara (por lá a situação é mais tranquila), mas nos deixaram um extraordinário exemplo de civilidade, com opostos se entendendo. Mujica, de 85 anos, foi direto ao ponto: “No meu jardim faz décadas que não cultivo o ódio, porque aprendi uma dura lição que a vida me impôs. O ódio acaba idiotizando, nos faz perder objetividade”.

Ex-guerrilheiro tupamaro, Mujica passou quinze anos na cadeia — com o retorno do país à democracia, em 1985, recebeu anistia e voltou à política. Foi presidente de 2010 a 2015. Sanguinetti, 84 anos, que presidiu o Uruguai em duas oportunidades, de 1985 a 1990 e de 1995 a 2000, foi discreto como sempre ao dizer adeus: “O que me motiva é principalmente a necessidade de atender à Secretaria-Geral do Partido Colorado, minhas atividades jornalísticas”. Bem-sucedidos no poder, cada qual a seu modo, com distintas visões do mundo, Mujica e Sanguinetti remetem a um verso de um dos poemas celebrados de Mario Benedetti (1920-2009), um totem da delicadeza cisplatina: “Gosto da gente de critério, que não sente vergonha de reconhecer que não conhece algo ou que se enganou”.

Publicado em VEJA de 28 de outubro de 2020, edição nº 2710

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