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Mubarak anuncia que não concorrerá à reeleição

De acordo com a rede Al Arabiya, ele deve permanecer no governo até lá

Por Da Redação 1 fev 2011, 17h32

O presidente egípcio, Hosni Mubarak, anunciou nesta terça-feira, em discurso à nação, que não irá disputar a reeleição em setembro, após oito dias de intensos protestos anti-governamentais que pedem sua deposição. Mubarak disse ainda que buscará mudanças na Constituição, num discurso à TV estatal que, segundo ele, estava concedendo em um “momento difícil”.

“Digo com toda sinceridade que, apesar das atuais circunstâncias, não tinha intenção de participar das próximas eleições”, afirmou Mubarak. “Esgotei minha vida servindo ao Egito e ao seu povo”. Ele também afirmou que pedirá ao Parlamento para que mude a legislação que fixa as condições para se apresentar como candidato à Presidência. Pelas regras atuais, por exemplo, o líder opositor Mohamed ElBaradei, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2005, não poderia se candidatar.

Mubarak também assinalou que levará adiante a análise das apelações sobre os resultados das últimas eleições legislativas, realizadas em novembro e dezembro passado, que ocorreram em meio a inúmeras denúncias de fraude. Com isso, o presidente, que está há 30 anos no poder, confirmou as apostas da emissora árabe Al Arabiya de que continuaria no cargo até o fim de seu quinto mandato. Até setembro, Mubarak pretende ajudar a cumprir as exigências da coalizão de forças oposicionistas que o desafiam. Ele disse que a prioridade é a “estabilidade da nação” e prometeu dialogar com todas as forças da oposição.

Uma multidão, ainda reunida durante protestos nas ruas do Cairo, reagiu com festa ao seu anúncio, que foi mostrado pela TV estatal. A oposição, que nesta terça organizou grandes protestos nas principais cidades egípcias, havia exigido sua saída imediata para iniciar negociações. Eles ainda não se pronunciaram sobre o discurso de Mubarak.

Segundo a rede Al Arabiya, o vice-presidente do país, Omar Suleiman, iniciou reuniões com representantes de alguns partidos. Ele estaria em contato com grupos de manifestantes na Praça Tahrir no Cairo, ponto de concentração dos protestos. Até o início das manifestações as autoridades indicavam que Mubarak, de 82 anos, provavelmente iria tentar um sexto mandato presidencial. Especialistas também cogitaram que ele pudesse indicar o seu filho para sucedê-lo.

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Protestos – A manifestação contra o aumento dos preços de alimentos, o alto índice de desemprego e a corrupção da administração começou no último dia 25, no que ficou conhecido como “dia de revolta“. Desde então, o movimento cresceu e foi ganhando força a cada dia. Nesta terça-feira, cerca de um milhão de egípcios se reuniram nas imediações da Praça Tahrir, na “marcha dos milhões“, o maior dos protestos já organizados pela população para pressionar o governo a renunciar. Houve manifestações também na cidade de Suez, no leste do país, em Alexandria, na costa norte, Ismaília e cidades no delta do Nilo, como Tanta, Mansoura e Mahalla el-Kubra.

Em meio à enorme mobilização, o Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, que lidera grupos de oposição, disse estar convencido de que Mubarak acabará renunciando “para salvar sua pele”. Ele disse acreditar que o Exército egípcio ficará ao lado do povo. “Não acho que vão atirar contra as pessoas, e além disso, disparar para proteger o quê?”, perguntou. “Mubarak renunciará hoje mesmo ou, no mais tardar, na sexta-feira”, apostou o opositor.

De acordo com ElBaradei, causa espanto Washington dizer que espera que Mubarak “introduza reformas democráticas” a essa altura. Ele acha que o governo americano sabe que os dias do presidente egípcio “estão contados”. “Agora as pessoas não dizem mais que Mubarak deve sair. Agora já falam que é preciso julgá-lo. Se ele quer salvar sua pele, o melhor a fazer seria renunciar”, disse.

Oposição – Na última segunda-feira, Suleiman propôs um diálogo com todos os partidos políticos, inclusive sobre reformas constitucionais e legislativas, uma das principais reivindicações expressas pelos manifestantes anti-Mubarak. Mas, nesta terça, uma coalizão de grupos oposicionistas respondeu ao governo dizendo que o início de negociações com o Exército para uma democracia de transição só poderia ocorrer após a renúncia de Mubarak.

Vítimas – A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, afirmou também nesta terça dispor de informações não confirmadas de que 300 pessoas morreram nos protestos desde a semana passada, mais do que o dobro do balanço anunciado até o momento. Navi se declarou “profundamente alarmada com o crescente número de vítimas” no Egito, país que passa por manifestações sem precedentes. Os balanços mais recentes registravam 125 mortes. “O número de vítimas aumenta a cada dia e algumas informações não confirmadas sugerem que 300 pessoas podem ter morrido. Mais de 3.000 teriam ficado feridas e centenas detidas”, afirmou.

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