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Motorista narra as últimas horas de Kadafi

Huneish Nasr revela a jornal inglês detalhes sobre os últimos momentos de vida do tirano líbio, a quem serviu por 30 anos

Entenda o caso

  1. • A revolta teve início no dia 15 de fevereiro, quando 2.000 pessoas organizaram um protesto em Bengasi, cidade que viria a se tornar reduto da oposição.
  2. • No dia 27 de março, a Otan passa a controlar as operações no país, servindo de apoio às tropas insurgentes no confronto com as forças de segurança do ditador, que está no poder há 42 anos.
  3. • Após conquistar outras cidades estratégicas, de leste a oeste do país, os rebeldes conseguem tomar Trípoli, em 21 de agosto, e, dois dias depois, festejam a invasão ao quartel-general de Kadafi.
  4. • A caçada pelo coronel terminou em 20 de outubro, quando ele foi morto pelos rebeldes em sua cidade-natal, Sirte.

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Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o líbio Huneish Nasr revelou que pouco antes de sua morte o ditador Muamar Kadafi parecia perdido e não sabia mais o que fazer. Nasr foi um observador privilegiado da queda do tirano. Por 30 anos, foi seu motorista particular.

Segundo o relato, a última vez em que os dois homens se viram foi pouco antes do ditador morrer. Kadafi observava as ruínas de Sirte, sua cidade Natal, estático. “Os rebeldes estavam chegando para nos pegar. Ele não estava assustado, mas parecia não saber o que fazer. Foi a única vez que o vi daquela maneira”, contou o motorista.

Ainda conforme relatado por Nasr, minutos depois os rebeldes retiraram Kadafi da tubulação onde tentara se esconder, enquanto o motorista erguia as mãos, se rendia e recebia uma pancada no rosto. Tudo que viu, então, foi Kadafi ser levado por uma multidão de rebeldes. Até onde se sabe, Nasr é, hoje, um dos dois únicos sobreviventes entre os empregados de Kadafi – o outro é o chefe de segurança Mansour Dhao. Leal ao ditador, Nasr diz que Kadafi era um homem bom e um chefe justo.

Rendição – Também nesta quarta-feira, o filho e herdeiro de Kadafi, Saif al-Islam, e o ex-chefe da inteligência líbia, Abdullah al-Senussi, afirmaram que pretendem se entregar, segundo um oficial do Conselho Nacional de Transição (CNT). A proposta foi feita ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, que tem um mandato de busca contra os dois por crimes contra a humanidade. “Eles estão propondo uma forma de se entregarem a Haia”, disse Abdel Majid Mlegta à agência Reuters, na Líbia. O TPI ainda não confirmou a informação.

Conflito interno – Enquanto caem os últimos ícones do antigo regime, o conflito interno entre as novas autoridades parece ter apenas começado. Misrata, a cidade que sofreu o cerco mais feroz das forças leais ao ditador e foi determinante para a tomada de Trípoli e Sirte, continua desafiando o CNT. Após a morte do ditador, a cidade decidiu exibir o corpo de Kadafi ao público durante cinco dias contra a vontade do CNT. Agora a cidade quer também exigir credenciais especiais aos jornalistas para entrar em seu território.

“Se agora que acabamos de começar a transição eles pedem essas coisas, o que mais vão fazer depois?”, questiona um jornalista de Trípoli, que preferiu não revelar sua identidade e que disse não estar nada satisfeito com os rumos políticos do país. Já o comandante revolucionário Abdel Baset Hussein considera normal a atitude tomada pelas autoridades locais. “Eles pagaram com o sangue e com vidas. Agora podem pedir as contas”, disse.

Para Mustafa Muhammad al-Dernawi, da coalizão Jovens 17 de Fevereiro de Misrata, Kadafi tinha um plano de dividir a Líbia em duas e ficar com a parte oeste, mas a resistência em Misrata o impediu. Mohammed al-Guirani, presidente da ONG Sociedade pela Democracia e os Direitos Humanos, de Misrata, admite que a eclosão da revolução ocorreu em Bengasi, no leste, mas acha que foi Misrata que garantiu a unidade da Líbia. Ambos concordam que já existe uma clara competição entre Misrata e as principais cidades líbias, como a capital Trípoli, Bengasi e Sirte.

(Com agência EFE)