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Morte de ex-miss chama atenção para criminalidade na Venezuela

Em reunião com governadores, prefeitos e ministros, Nicolás Maduro reconhece responsabilidade pelo problema, mas não apresenta ações concretas

A comoção provocada pela morte da ex-miss Venezuela 2004 e estrela de telenovelas Mónica Spear obrigou o governo de Nicolás Maduro a tocar em uma ferida antiga do país: as altas taxas de criminalidade. Em uma reunião nesta quarta-feira com governadores, prefeitos e ministros, o presidente teve um lampejo de lucidez ao assumir sua responsabilidade pelo problema. Mas voltou a desviar o foco ao dizer que os meios de comunicação “da direita” manipulam as informações sobre mortes violentas no país.

Maduro sinalizou que entre o final de 2013 e os últimos quinze dias houve um aumento nos registros de criminalidade e classificou a morte de Mónica, de 29 anos, e de seu ex-marido, Thomas Henry Berry, de 39 anos, como uma “bofetada”. “Ninguém pode cruzar os braços. O assassinato, a violência, o massacre contra essa jovem venezuelana e seu marido, é uma bofetada para todos nós. Todos temos que assumir nossa responsabilidade. Eu assumo a minha”, disse, para um grupo que contou com a presença do líder da oposição Henrique Capriles, que antes mesmo da reunião já havia se manifestado sobre a questão. Em seu perfil no Twitter, o opositor propôs “colocar de lado as profundas diferenças” com Maduro para unir forças contra a insegurança.

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O fracasso do governo venezuelano em combater a criminalidade é uma herança deixada pelo coronel Hugo Chávez que não foi confrontada por seu sucessor. Nesta quarta, Maduro não apresentou ações concretas para combater o crime, mas falou em criar um centro nacional para oferecer apoio psicológico e bolsa de estudos a quem tenha perdido algum familiar em decorrência da insegurança no país. Também propôs uma “jornada de segurança que comece hoje e que, em um mês, tenha resultados concretos na prática e na formulação de uma política nacional para garantir a paz”.

Maduro também defendeu que o tema deve ficar afastado da “guerra política”, bandeira também levantada pelo diretor da polícia investigativa, José Gregorio Sierralta, ao afirmar que “os esforços do Executivo em matéria de segurança são palpáveis”, segundo declaração reproduzida pelo jornal espanhol El País. O discurso do governo responsabiliza “antivalores do capitalismo” pelo problema com a criminalidade no país e tenta desviar a atenção de um dos pontos mais fracos – entre muitos – da administração chavista.

O governo venezuelano não divulga oficialmente números sobre a criminalidade do país, citando o tema apenas para rebater dados bastante desfavoráveis apresentados por outras organizações. O Observatório Venezuelano de Violência (OVV) calcula que em 2013 houve mais de 24 000 homicídios no país, ou 79 para cada 100 000 habitantes. Segundo a OVV, o índice de homicídios no país quadruplicou na última década e meia de chavismo. O Ministério do Interior e Justiça rejeita os números da ONG e afirma que houve uma redução de 17% no número de homicídios no ano passado, com 39 pessoas mortas para cada 100 000 habitantes. Um relatório da ONU de 2010 colocou a Venezuela ao lado de Honduras, El Salvador e Jamaica como um dos países com maior criminalidade no mundo.

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Ex-miss – Mónica Spear foi finalista do Miss Universo em 2005 e era atriz da rede americana Telemundo. Na noite de segunda-feira, o carro em que ela e o ex-marido estavam bateu em um objeto colocado propositalmente em uma estrada de Puerto Cabello, no caminho para Valencia, terceira maior cidade da Venezuela. Eles pararam no acostamento e pediram ajuda para um caminhão-guincho. Investigações preliminares apontam que, quando os mecânicos verificavam o carro, homens armados chegaram no local. Os mecânicos fugiram a pé, e o casal foi morto a tiros por se recusar a sair do carro.

A polícia investigativa informou que cinco suspeitos foram detidos e dois mecânicos foram interrogados. A filha do casal, Maya, foi atingida na perna e levada para um hospital em Caracas. A menina está na companhia dos avós. Berry, que nasceu na Grã-Bretanha mas cresceu na Venezuela, administrava uma agência de turismo de aventura nos Estados Unidos. Os dois moravam em Miami e costumavam sair de férias juntos, geralmente para visitar a Venezuela.

(Com agência France-Presse)