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Morre Ariel Sharon, guerreiro de Israel nos campos de batalha e na política

Ex-primeiro-ministro e general linha-dura foi responsável pela retirada unilateral da Faixa de Gaza. Ele estava em coma desde 2006, quando sofreu um AVC

General e primeiro-ministro que devotou sua vida a preservar e expandir a influência de Israel, não importando o custo a ser pago, Ariel Sharon morreu neste sábado, aos 85 anos. Nos últimos oito anos, ele permaneceu em estado vegetativo, como consequência de um derrame ocorrido no início de 2006 – um fim melancólico para um veterano de cinco guerras que conduziu sua carreira política com a mesma tática de confronto e agressividade. No primeiro dia de 2014, o hospital Shaba, em Tel Aviv, onde Sharon estava internado, informou um sério agravamento do estado de saúde de ‘Arik’ (apelido de Ariel). Dois dias depois, Zeev Rotstein, diretor do hospital Sheba, comunicou a falência múltipla de órgãos vitais do ex-primeiro-ministro e sinalizou que Sharon poderia morrer em breve: “Não temos bons sinais para o futuro”, disse.

O velório será realizado neste domingo no Parlamento de Israel e será aberto à população. O enterro está previsto para a tarde de segunda-feira. Sharon será sepultado em sua fazenda, no sul da Israel. O vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, informou que viajará para Jerusalém à frente da delegação americana para participar do funeral do ex-primeiro-ministro israelense. Além de Biden, participarão do serviço o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, e o ex-primeiro-ministro britânico, Tony Blair.

Sharon sempre despertou reações fortes em Israel, onde era considerado tanto um falcão inconsequente, responsável por expandir colônias sem se importar com a repercussão internacional e protagonista na invasão do Líbano, em 1982, quanto o herói que teve um papel brilhante e determinante na salvação do Estado judeu na guerra de 1973, o que lhe valeu o apelido de “Rei de Israel”. Pouco antes de ser derrotado pelo derrame, Sharon parecia estar reinventando seu papel de guerreiro linha-dura. Com um pesado custo político, passou a investir nas negociações de paz com os palestinos – sempre nos seus termos – e ordenou uma surpreendente retirada unilateral da faixa de Gaza, algo que parecia sinalizar uma possível nova fase na região.

A eleição de Ariel Sharon nas páginas de VEJA

Trajetória – Nascido em 1928, uma época em que o Estado judeu ainda era um sonho, Ariel Scheinermann (seu nome original) ou Arik Sharon, era filho de judeus bielo-russos que migraram para a Palestina, então sob mandato britânico, após a Revolução Bolchevique. Já na adolescência passou a integrar organizações sionistas, entre elas o Haganá, que viria a ser o embrião das Forças de Defesa de Israel. Sharon se destacou como líder de pelotão em duros combates na Guerra de Independência de 1948, durante a qual 173 membros da sua brigada morreram atingidos por balas disparadas pelas forças egípcias, jordanianas, iraquianas e sírias. O próprio Sharon foi baleado no estômago e no pé.

Após a vitória, a carreira militar de Sharon começou a prosperar, indicando quais seriam suas características marcantes quando se tratava de defender os interesses do seu país. Ele era impetuoso e podia beirar a insubordinação no trato com os superiores. Na condução de operações, era implacável – e com frequência brilhante na tática.

No início dos anos 50, passou a chefiar com a patente de major a chamada Unidade 101, um esquadrão de 50 homens que tinha como objetivo lançar operações de retaliação contra grupos de fedayin que realizassem ataques contra Israel. O esquadrão conseguiu enfraquecer os guerrilheiros apoiados pela Jordânia, mas também se envolveu em episódios controversos, como o massacre de Qibya, onde mais de 69 palestinos (a maioria mulheres e crianças) foram mortos quando as tropas de Sharon dinamitaram suas casas.

O derrame de Sharon nas páginas de VEJA: “Ruim com ele, pior sem Sharon”

Em 1956, comandou uma brigada de paraquedistas que atuou em regiões próximas ao Passo de Mitla, na região de Suez, durante a guerra contra o Egito. Na operação, Sharon se antecipou às ordens dos seus superiores e ordenou a tomada da área. Os brutais combates que se seguiram culminaram na derrota dos egípcios, mas Sharon foi criticado por subordinados e superiores. Como resultado, nos anos seguintes sua carreira acabaria congelada.

A redenção só veio pouco antes do início da Guerra dos Seis Dias, em 1967, na qual ele conduziu as tropas contra o Egito. Seu papel na batalha de Abu-Ageila, que resultou na tomada do Sinai pelos israelenses, chamou a atenção mundial, e viria a se tornar objeto de estudo em academias militares mundo afora.

Nos anos seguintes, ele comandaria tropas no Sinai e no combate ao terrorismo promovido pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP) na Faixa de Gaza. Em 1973, deixou o Exército e ajudou a formar o Likud, o partido que se tornaria o guarda-chuva de diferentes agremiações de direita. Meses depois, no entanto, foi chamado de volta ao Exército, quando Egito e Síria atacaram Israel durante o feriado do Yom Kippur. No comando de uma divisão blindada e com conhecimento profundo da área, Sharon teve papel determinante em afastar a ameaça egípcia ao cruzar com suas tropas o canal de Suez e virar a maré da guerra. Apesar de novamente ter se envolvido em conflitos com superiores e colegas, a vitória tornou Sharon uma figura popular em Israel.

De volta à política – após se desligar definitivamente do Exército em 1976 -, a agressividade de Sharon foi semelhante àquela mostrada nos campos de batalha. Em 1977, ele conseguiu seu primeiro cargo ministerial, sendo responsável pela pasta da Agricultura no governo de Menachem Begin (1977-1983). O cargo, longe de ser meramente burocrático, lhe permitiu forçar a expansão de Israel de outra forma: por meio da construção de colônias na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e até na península do Sinai, à época sob controle israelense. A iniciativa quase desandou as conversas de paz com o Egito.

Líbano – Em 1981, Sharon assumiu a sensível pasta da Defesa. Foi sob seu comando que Israel invadiu o Líbano, em 1982. Tal guerra, que teria consequências duradouras na região, foi iniciada com o objetivo de neutralizar a ação de organizações terroristas palestinas que operavam no sul do país vizinho. Com o apoio de milícias cristãs, as forças israelenses bombardearam até mesmo a capital Beirute. “Nós não negociamos com terroristas, só os matamos”, disse ele na ocasião. No final, a operação conseguiu reprimir os terroristas palestinos, mas resultou numa desgastante ocupação que durou quase duas décadas e terminou com uma retirada caótica e antecipada no ano 2000, além de levar o grupo xiita Hezbollah à posição de principal força terrorista da região.

Durante a invasão, os israelenses contaram ainda com o apoio das milícias cristãs que cometeram o massacre nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, que estavam sob controle israelense. Em três dias, cerca de 3 000 pessoas, entre elas mulheres e crianças foram chacinados pela falanges cristãs. O ultraje internacional provocado pelo banho de sangue levou os israelenses a investigar o episódio. No mesmo ano, uma comissão considerou Sharon indiretamente responsável pelo massacre por não ter tomado medidas para evitá-lo e pediu sua demissão.

Ele deixou o cargo pouco depois e, transferido para postos com menor evidência, trabalharia para recompor sua influência. Pelos 18 anos seguintes, Sharon viria a ocupar pelo menos cinco ministérios e a chefia de outras organizações, incluindo a responsável pela imigração de judeus da antiga URSS, uma iniciativa que mudaria profundamente a composição de Israel.

Em setembro do ano 2000, Sharon voltou a ganhar os holofotes quando visitou, cercado de seguranças e policiais, a Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, um local sagrado para os muçulmanos. À época, ele travava uma disputa pelo controle do Likud, e a visita deveria servir como um gesto para marcar posição na direita evidenciando a soberania israelense sobre um lugar de profundas implicações religiosas. Mas a provocação acabou sendo usada como pretexto para que os palestinos iniciassem a já planejada Segunda Intifada, uma onda de violência que engolfou os territórios e Israel por mais de quatro anos e que resultaria na morte de milhares de palestinos e israelenses. Sharon acabaria ascendendo ao cargo de primeiro-ministro cerca de quatro meses depois.

Reviravolta – Como primeiro-ministro, jogou duro para conter a Intifada, chegando ao ponto de montar um cerco ao quartel-general do palestino Yasser Arafat. Nos primeiros dois anos de seu governo, mais de 500 israelenses foram mortos em ataques terroristas. Mas, diante da pressão por ação, em vez de recrudescer decidiu tomar uma decisão ousada: uma retirada unilateral da ocupação militar e das colônias da faixa de Gaza e de uma pequena parte da Cisjordânia como parte de um novo início nas conversações de paz.

A decisão foi movida por um cálculo pragmático: o crescente custo da ocupação militar e sua insustentabilidade no longo prazo. Era mais negócio dar aos palestinos um estado próprio e blindar as próprias fronteiras, num acordo cujos termos seriam ditados por Sharon. “Não podemos manter Gaza para sempre. Mais de um milhão de palestinos vivem lá em condições únicas de superpopulação, em bolsões de ódio crescente”, disse ele à época.

Assim, o velho “padrinho” das colônias ordenou a evacuação de 25 delas, que abrigavam mais de 9 000 de pessoas em 2005. As cenas de soldados retirando à força velhos e mulheres de suas casas e a desconfiança com o plano acabou provocando um cisma na direita israelense. Sharon decidiu insistir e, em outra jogada surpreendente, anunciou sua intenção de deixar o velho Likud e de formar um novo partido, o Kadima (que significa “avante” em hebraico) com alguns aliados.

A nova sigla venceu as eleições parlamentares de 2006, mas Sharon, que sobreviveu a tantos combates, acabaria abatido pela própria saúde antes de ver seu último triunfo. Com um histórico de problemas – pesava quase 120 quilos distribuídos nos seus 1,70 m de altura -, Sharon sofreu um primeiro derrame em 18 de dezembro de 2005. Impulsivo, deixou o hospital dois dias depois para voltar a ser internado duas semanas mais tarde, quando sofreu o segundo derrame, que acabou por paralisá-lo completamente. Ehud Olmert, do Kadima, substituiu Sharon no posto de primeiro-ministro.

Sem a sua mão forte, o legado de Sharon começou a atrofiar na mesma velocidade em que diminuíam as esperanças de que ele acordasse. A retirada de Gaza se revelou um prato cheio para que o grupo terrorista Hamas se apoderasse da área em 2007; a energia gasta na região deixou a fronteira norte desguarnecida, permitindo que o Hezbollah se armasse e arrastasse Israel para um conflito em 2006; as conversações de paz permaneceram congeladas pelos anos seguintes; e o Kadima, que parecia ser uma nova força no cenário israelense, caminhou rapidamente para a irrelevância por causa da inabilidade de Olmert, alvo de repetidas acusações de corrupção.

Nos últimos anos, o corpo adormecido de Sharon havia se convertido em uma curiosidade da medicina. Médicos que o examinavam reportavam que o velho general parecia reagir e mostrava sinais de alguma atividade cerebral. No cenário político, seu próprio estado de saúde vinha servindo como metáfora para a paralisia das negociações de paz no Oriente Médio, que continuam a existir (ou respirar), sem ir a lugar algum.