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Moradores de Alepo não têm para onde fugir

Os moradores do lado leste da cidade de Alepo, na Síria, antes sob o jugo de grupos radicais islâmicos, agoram tentam escapar das forças do ditador Assad

Por Luiza Queiroz - Atualizado em 9 jan 2017, 15h16 - Publicado em 16 dez 2016, 11h30

Na guerra civil da Síria, a batalha pelo controle do território segue em paralelo com uma guerra psicológica, de propaganda. Em ambas há o envolvimento de outros países da região. Esta semana, tropas do ditador sírio Bashar Assad e da milícia libanesa Hezbollah, com ajuda da força área russa, dominaram quase totalmente a parte leste de Alepo, a segunda maior cidade do país. Segundo a ONU, as forças de Assad mataram a tiros 82 civis, incluindo treze crianças. Temendo serem estupradas, vinte mulheres teriam se suicidado. Um clérigo islâmico ganhou seguidores no Twitter ao espalhar o rumor de que alguns homens cogitavam matar esposas e irmãs para não ter de vê-las sendo violentadas pelos soldados. Não há confirmação independente de que isso seja verdade, mas não seria de estranhar, considerando que antes de ser tomado por Assad, o leste de Alepo estava submetido à lei islâmica, o que significa que as mulheres eram tratadas como propriedade dos homens.

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De acordo com a Anistia Internacional, os chamados “rebeldes” pertencem a cinco grupos terroristas. Os mais cruéis com a população são a Frente Nusra (ligada à Al Qaeda) e a Ahrar Sham. Ambos recebem ajuda da Turquia, do Catar e da Arábia Saudita. Sob o seu jugo, os civis que questionavam os tribunais islâmicos ou tentavam sair do bairro corriam o risco de serem presos, torturados ou mortos. Ou seja, eram usados como escudos humanos. Às vésperas da tomada de Alepo, ativistas e jornalistas ligados a veículos estatais da Turquia, do Catar e da Arábia Saudita iniciaram uma série de vídeos dramáticos de “despedida”, alguns protagonizados por crianças. Pura propaganda de guerra, tão ilusória quanto a segurança dos primeiros 1.000 moradores evacuados de Alepo em vinte ônibus e dez ambulâncias nesta quinta-feira, depois de um curto cessar-fogo. : “O que é extremamente preocupante é que eles estão sendo levados para a província vizinha de Idlib, que Assad designou como um dos próximos alvos que ele deseja ‘liberar’ do controle rebelde”, diz a cientista política americana Lisel Hintz, da Universidade de Columbia. Pobres sírios, obrigados a equilibrar suas frágeis existências entre um ditador sanguinário e a tirania de radicais islâmicos.

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