Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

Mitt Romney se apresenta como um CEO para a Casa Branca

Reportagem de VEJA mostra que, executivo de sucesso e membro de uma religião vista como exótica nos EUA, republicano ameaça a reeleição de Obama com a promessa de pôr ordem na economia

Por Duda Teixeira 5 nov 2012, 08h30

Willard Mitt Romney, o candidato republicano à Casa Branca, nasceu em Detroit, em 1947. Foi batizado em homenagem a um amigo da família, J. Willard Marriott, que depois se tornaria conhecido pela rede de hotéis que criou. Marriott, tal como os Romney, era mórmon, seguidor da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. “Mitt” era o apelido de Milton Romney, primo do seu pai, George, e quarterback do time de futebol americano Chicago Bears. George era presidente de uma empresa de automóveis na cidade e tentou a candidatura à Presidência pelo Partido Republicano em 1968. Ele aconselhou o filho a só se aventurar na política depois de ser bem-sucedido no mundo dos negócios. Mitt Romney seguiu a recomendação. Foi um consultor de destaque no Boston Consulting Group. Depois, foi o CEO de uma firma de capital de risco, a Bain Capital, que rendeu milhões em dividendos aos seus investidores. Só então se candidatou ao Senado (foi derrotado) e ao governo de Massachusetts (foi eleito), o estado menos conservador dos Estados Unidos. Essa trajetória cuidadosamente planejada será posta à prova em 6 de novembro. A menos de duas semanas do pleito presidencial, Romney aparece à frente de Barack Obama, que tenta a reeleição, em metade das pesquisas de intenção de voto, mas ainda perde na contagem do colégio eleitoral, cujos delegados são definidos em cada estado pela votação popular. São eles que efetivamente elegem o presidente.

Muitos eleitores apostam que a experiência de Romney e sua capacidade de analisar montanhas de dados para tomar decisões acertadas possam servir para tirar os Estados Unidos do marasmo econômico. O desemprego, o déficit nas contas governamentais, a queda no padrão de consumo e outros problemas econômicos são considerados essenciais para a escolha do candidato por 72% dos eleitores. Obama assumiu o poder em 2009, quando a crise financeira ainda estava fresca. Seus pacotes de estímulo podem ter evitado o pior, mas não tiraram o país da crise. Em contraste com o discurso democrata que defende a intervenção do estado na economia, Romney encarna a essência do Partido Republicano, para o qual governo demais atrapalha. Ele fala em reduzir impostos e cortar gastos desnecessários. Também promete cancelar a reforma do sistema de saúde feita por Obama, que universaliza o atendimento e obriga todos a pagar por um plano médico. Esse corte traria uma economia de 95 bilhões de dólares por ano. A saúde, segundo Romney, deveria ser incumbência dos estados.

A POLIGAMIA É PASSADO - Ann, a (única) mulher de Mitt Romney, com dois de seus netos em um ônibus de campanha na Flórida, na semana passada. Ao lado, uma ilustração retrata o assassinato de Joseph Smith, o fundador da Igreja Mórmon, em meio à campanha à Presidência, em 1844
A POLIGAMIA É PASSADO – Ann, a (única) mulher de Mitt Romney, com dois de seus netos em um ônibus de campanha na Flórida, na semana passada. Ao lado, uma ilustração retrata o assassinato de Joseph Smith, o fundador da Igreja Mórmon, em meio à campanha à Presidência, em 1844 VEJA

Formado em direito e em administração pela Universidade Harvard, cursos que ele frequentou simultaneamente, Romney trabalhou em duas empresas de consultoria antes de fundar e presidir a Bain Capital, uma companhia que coloca dinheiro em empresas pré-falimentares para fazê-las dar lucro novamente e vendê-las por um preço superior. A Bain Capital pôs 5 milhões de dólares na Accuride, vendida pela fábrica de pneus Firestone. Dezoito meses depois, suas cotas na empresa valiam 121 milhões de dólares. Eleito governador de Massachusetts em 2002, ele montou um gabinete técnico, que incluía secretários democratas. Todos eram submetidos a reuniões intermináveis para discutir em detalhes as políticas para sanar as contas públicas. Romney era criativo nos cortes de gastos, mas falhou em costurar acordos no Legislativo para aprovar muitas de suas propostas.

Os estrategistas republicanos se esforçam para realçar sua imagem como homem de negócios com um plano infalível para o país, mas deixam temas mais pessoais do candidato, como sua religião, à margem. Romney só fala de sua fé quando perguntado, uma postura que ele já havia adotado nos tempos de faculdade. A maioria dos americanos sabe pouco sobre os mórmons, mas imagina que sejam defensores da poligamia e tem lá suas dúvidas sobre se podem mesmo ser considerados cristãos. O preconceito já foi maior. Em 1885, um bisavô de Romney, Miles Park, chegou a fugir dos Estados Unidos para o México, com as suas três mulheres, para escapar da perseguição religiosa. A Igreja Mórmon abandonou a poligamia em 1890. Como Romney evita o assunto, não se sabe qual influência sua fé tem em suas posições políticas. “Romney certamente não tentaria proibir o álcool ou o aborto, vetados entre os mórmons, mas em outros temas morais suas opiniões são menos conhecidas”, diz o cientista político americano Sandy Maisel. A ambição política não é estranha à história da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O primeiro mórmon candidato a presidente dos Estados Unidos foi ninguém menos que Joseph Smith, o fundador da religião, assassinado em plena campanha, em 1844. Um dos seus braços direitos era Miles Archibald Romney. No dia 6, os americanos vão decidir se confiam o comando do país ao seu trineto Mitt, o Romney CEO.

Continua após a publicidade
Publicidade