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Mineradora rejeita responsabilidade por explosão em mina

Empresa operadora da mina turca confirma 284 mortes até o momento; pelo menos outros dezoito mineiros ainda estariam soterrados

Quatro dias depois do desastre em uma mina de carvão que custou a vida de pelo menos 284 mineiros na cidade de Soma, no extremo oeste da Turquia, a mineradora Soma Holding rejeitou nesta sexta-feira qualquer responsabilidade no acidente. Segundo a empresa, havia 787 trabalhadores no local no momento do incêndio, 363 pessoas se salvaram sem sofrer danos e outras 122 tinham sido hospitalizadas. Ainda segundo a mineradora, dezoito pessoas ainda estariam soterradas.

O diretor-geral da empresa, Ramazan Dogru, admitiu desconhecer as causas do incêndio que começou na mina de carvão na terça-feira passada, mas ressaltou que a companhia “não cometeu erros”. Dogru descartou que o fogo se deveu à explosão de um gerador elétrico, versão oficial dos primeiros dias, e apontou que o carvão se incendiou por superaquecimento. O diretor, no entanto, não soube responder por que ninguém se deu conta do risco antes que fosse tarde demais. Akin Çelik, outro executivo da Soma Holding, deduziu que tudo ocorreu “em três ou cinco minutos” e que a grande quantidade de fumaça reduziu a visibilidade “a zero”. Çelik assegurou que a mina dispunha de uma câmara de sobrevivência, apta para 500 pessoas, mas que estava sendo desmontada para ser transferida a outro lugar, razão pela que não pôde ser utilizada durante o acidente.

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Segundo apurou a emissora CNNTürk, a lei turca não obriga que as minas disponham de uma câmara de sobrevivência. O dono da Soma Holding, Alp Gürkan, expressou sua “enorme tristeza” pela perda de vidas e anunciou que sua empresa criaria uma fundação para apoiar as famílias e financiar a educação dos filhos dos mineiros mortos. Gürkan acrescentou que a mina continuaria em funcionamento, salvo decisão contra das autoridades públicas. A entrevista coletiva, que durou duas horas, aconteceu em uma atmosfera caótica, na qual os responsáveis da empresa deixaram sem resposta várias perguntas da imprensa a respeito das medidas de segurança. Mas reiteraram que não empregavam operários mediante terceirizadas e que a mina tinha passado por todas as inspeções de segurança.

Mehmet Soganci, presidente do Colégio de Engenheiros e Arquitetos (TMMOB), denunciou que junto com as minas, antigamente empresas públicas, também tinham sido privatizados os controles de segurança. “Todos trabalham com terceirizadas e o controle público é zero”, assegurou. Segundo um estudo do TMMOB, realizado nas minas de Zonguldak, entre 2000 e 2008, as explorações privadas têm uma taxa de mortes seis vezes mais alta que as que são de gestão pública. A Turquia não assinou a Convenção da Organização Internacional de Trabalho (OIT) sobre Saúde e Segurança nas Minas.

Na quarta-feira, o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, foi duramente criticado após entrevista coletiva no local da tragédia. Erdogan afirmou que este “tipo de acidente ocorre todo o momento” e enumerou uma série de acidentes industriais na mineração desde o século XIX para justificar suas palavras. As declarações foram consideradas desastrosas pela imprensa local e a população, que viram nas palavras de Erdogan uma tentativa de se eximir da culpa pelas falhas do governo no zelo pela segurança e fiscalização das minas.

(Com agências EFE e France-Presse)