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Mineiros querem criar fundação para defender trabalhadores

Trabalhadores presos na mina e seus famíliares estão incomodados com o assédio dos programas de TV

Por La Vanguardia - 12 out 2010, 18h54

A pressão que os meios de comunicação estão exercendo sobre as famílias está gerando alguma tensão no Acampamento Esperança, onde ontem havia mais de 2 mil jornalistas, muito mais que o número de familiares dos mineiros

Os 33 mineiros presos no Chile planejam criar uma fundação para defender a outros trabalhadores de seu setor. Assim pensam em anunciar em uma das primeiras aparições diante dos meios de comunicação, tão logo abandonem o hospital de Copiapó, onde cada um deles permanecerá dois dias depois do resgate.

A ideia de criar uma fundação foi confirmada ao La Vanguardia por um parente dos mineiros, Juan Hermosilla, padrinho de Carlos Barrios, que se encontra preso desde 5 de agosto. “É algo que já está combinado”, disse Hermosilla. “Todo o dinheiro que, de alguma forma, eles pensam que irão juntar com as entrevistas e tudo o mais será destinado a manter essa fundação.”

O objetivo da entidade seria “ajudar a outras iniciativas e comunicar-se com outros sindicatos para conseguir pressionar as autoridades”, prossegue Hermosilla.. “Para que legislem e para que, de uma vez por todas, os mineiros sejam tratados como tal, e sejam pessoas que tenham um salário digno, porque hoje em dia há muitos mineiros que não recebem um salário digno.”

Hermosilla explica que os mineiros expressaram nas cartas aos parentes a intenção de montar a fundação. Nos últimos dias, o diário chileno Las Últimas Notícias relatou que os trabalhadores presos fizeram chegar à mina San José um documento de um cartório e, mais tarde, publicou o conteúdo de uma carta onde ficava clara a intenção dos mineiros.

A carta foi enviada por Yonni Barrios a sua mulher e está datada de 30 de setembro. “Hoje enviaram uma reportagem feita pela Televisão Nacional ao acampamento. A nós também ofereceram que gravássemos aqui e que iriam nos entrevistar. Nós não aceitamos porque faremos uma fundação e com tudo o que experimentamos aqui lançaremos um livro e outras coisas mais. Agora tudo que saia de nós se negociará para o futuro. Amanhã virá uma ata pública para legalizar a fundação. Se fizermos as coisas bem feitas, talvez não tenhamos que trabalhar mais”, se lê na carta.

Parece claro que os mineiros conversaram muito sobre seu futuro e todos os benefícios econômicos que podem obter explicando sua história. Não obstante, vários familiares consultados por La Vanguardia reiteraram que a intenção é obter a menor exposição pública ao voltar para casa. Nesse sentido, a ideia dos mineiros passa por um “fundo comum”, onde os 33 trabalhadores aportem o que ganharem.

Na mesma direção, a pressão que os meios de comunicação estão exercendo sobre as famílias está gerando alguma tensão no Acampamento Esperança, onde ontem havia mais de 2 mil jornalistas, muito mais que o número de familiares dos mineiros. Um deles explicou a esse jornal que havia rechaçado uma suculenta proposta econômica para que, depois de resgatado, seu parente fosse pessoalmente ao Animal Noturno, um programa de variedades popular da televisão pública chilena.

Ao circo midiático instalado na mina San José chegou ontem uma equipe da TV chilena do programa humorístico CQC. Sua presença incomodou alguns familiares, que pediram explicações à equipe de imprensa do palácio de La Moneda, sede do governo chileno, destacada no acampamento. Pelo menos um dos familiares pediu que fosse expulsa. Não conseguiu, mas obteve o compromisso de que não fariam graça com a informação do resgate.

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