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Mesmo com fronteira bloqueada, venezuelanos esperam por ajuda humanitária

Apesar da fome generalizada e escassez de produtos básicos, Maduro impede que a assistência americana entre em seu país pela Colômbia

Por Da Redação - Atualizado em 7 fev 2019, 10h47 - Publicado em 7 fev 2019, 10h12

Após as forças militares, leais ao presidente Nicolás Maduro, bloquearem a entrada de ajuda humanitária na Venezuela pela fronteira com a Colômbia, venezuelanos que sofrem com a crise econômica do país se perguntam como podem ter acesso às doações de alimentos e remédios vindas dos Estados Unidos.

Apesar da fome generalizada e escassez de produtos básicos na Venezuela, Maduro impediu que a assistência americana entrassem em seu país depois que Washington reconheceu o líder da oposição Juan Guaidó como presidente interino.

Na terça-feira 5, militares venezuelanos bloquearam com três caminhões a ponte de Tienditas, na fronteira entre as cidades de Ureña, na Venezuela, e de Cúcuta, na Colômbia, onde está um centro de fornecimento de ajuda.

Perto dali, soldados armados também guardam o prédio onde funciona a alfândega de Ureña, ameaçando repelir qualquer tentativa de cruzar a fronteira, segundo a imprensa local.

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Ainda assim, na quarta-feira 6 muitos venezuelanos esperavam a chegada da ajuda humanitária debaixo do sol.

A poucos quilômetros de distância, centenas cruzaram a fronteira a pé pela ponte Francisco de Paula Santander, a segunda mais importante da região. Muitos voltaram de mãos vazias, mas alguns conseguiram sacolas e caixas de produtos básicos.

“Todos nós queremos ajuda humanitária porque não há nada aqui”, afirmou à emissora francesa France 24 Freddy Sayago, que cruzou a fronteira para descobrir onde ou como seria a entrega. O homem relata que as autoridades de seu país “não dizem nada” sobre a ajuda humanitária.

De acordo com o site de notícias locais Tal Cual, moradores que esperam a chegada da ajuda relataram que supostos funcionários de agências de direitos humanos recolheram nomes, endereços, números de telefone e documentos de mais de mil venezuelanos que esperavam na região fronteiriça, para cadastrá-los no serviço de distribuição das doações.

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Os moradores, contudo, denunciaram que tudo não passou de uma fraude. “De repente, as pessoas dos direitos humanos desapareceram, não sabemos com que propósito eles coletaram as informações “, disse o venezuelano Juan López ao Tal Cual, afirmando que os funcionários não estavam coordenados com as autoridades colombianas nem com a Cruz Vermelha.

“Desde ontem me inscrevi em listas para receber ajuda humanitária, mas depois eles nos disseram que não funcionaria assim, estamos desesperados, nosso dinheiro é inútil em nosso país e estamos com fome”, disse Livia Vargas, de 40 anos, à agência Reuters. “Maduro pode não gostar da ajuda, mas ele deve pensar até mesmo nos chavistas que não têm nada para comer”, acrescentou.

Disputa com a oposição

Os Estados Unidos, que não descartam uma ação armada na Venezuela, ofereceram uma ajuda inicial de 20 milhões de dólares para a Venezuela. O Canadá de 40 milhões, e a Comissão Europeia de outros 5 milhões de euros.

Líder oposicionista, Juan Guaidó se autoproclamou presidente interino em 23 de janeiro. Ele prometeu que os alimentos e medicamentos começarão a chegar à Venezuela, apesar das objeções de Maduro e criticou a postura “absurda de um governo que não se interessa pelo bem-estar dos venezuelanos”.

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Maduro e o Tribunal Supremo de Justiça recusam a ajuda, afirmando que não existe uma situação de emergência na Venezuela. Ambos dizem ainda que a iniciativa dos deputados opositores de admitir ajuda internacional vai contra a Constituição.

Entidades de ajuda humanitária, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, pediram nesta quarta que a entrega de alimentos e remédios não seja politizada pelos envolvidos na crise.

Ao se referir ao bloqueio da ponte, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, exigiu pelo Twitter que Maduro deixe entrar a ajuda que “o povo venezuelano precisa desesperadamente”.

Estados Unidos, Colômbia e Brasil tem discutido nos últimos dias uma forma de enviar as doações para os venezuelanos, apesar do bloqueio de Maduro.

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Nesta quarta, o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, se reuniu com o secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, e o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, para estudar a questão.

Segundo Araújo, o Itamaraty está trabalhando com outros ministérios do governo do presidente Jair Bolsonaro para preparar o meio mais adequado de fazer chegar a ajuda humanitária à Venezuela. Mas, até o momento, o mesmo Itamaraty não tem clareza sobre o tipo de ajuda a mais adequado nem sobre como e quando entregá-la.

Guaidó convocou para uma mobilização em 12 de fevereiro e a outra em data a definir para exigir aos militares, sustentação de Maduro, que abram um caminho para a ajuda, inicialmente para os “300.000 venezuelanos a ponto de perder a vida”.

Na pior crise de sua história moderna, a Venezuela sofre com escassez de 85% de remédios e de alimentos. Segundo a ONU, 2,3 milhões de pessoas deixaram o país desde 2015.

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