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Meio século após o assassinato de Kennedy, o mito resiste

A presidência de Kennedy durou 1 036 dias. Um desvairado o matou há 50 anos, em um 22 de novembro, com um tiro de fuzil cujas ondas de choque ainda se propagam pela história dos EUA, mostra reportagem de VEJA desta semana

São imortais as 1 355 palavras do discurso de posse mais notável da história dos Estados Unidos (“Não pergunte o que seu país pode fazer por você – pergunte o que você pode fazer pelo seu país”). Foram 1 036 dias de uma presidência curta demais para ser ungida com os atributos da grandeza, mas dramática o bastante para ser inesquecível. (No auge da Crise dos Mísseis, em 1962, a probabilidade de uma guerra nuclear total com a União Soviética, que varreria a espécie humana do planeta, chegou a 1 em 4.) Primeiro católico eleito presidente em um país de maioria protestante, John Fitzgerald Kennedy foi também o pioneiro da televisão, meio que ele dominou com naturalidade, enquanto seus oponentes ainda estavam na era do rádio. JFK tinha a retórica refinada dos colegas intelectuais da Universidade Harvard, a aura e os ferimentos genuínos dos soldados experimentados no campo de batalha (salvou os comandados do barco de patrulha afundado por um destróier japonês na II Guerra Mundial). Tinha um sorriso de derreter iceberg, a empatia de ídolo popular e, principalmente, a capacidade de se colocar no palco das realidades de seu tempo com o magnetismo do grande ator, a clarividência do autor da trama e o poder do diretor. Tinha certeza de que seu lugar de destaque na história estaria assegurado porque ele próprio a estava escrevendo.

“Quando o mataram, Kennedy começava a se equiparar a Winston Churchill, pela estatura em que as palavras deixam de ser discursos ou promessas para se transformar em compromissos, os sonhos em projetos e os enormes perigos do seu tempo em oportunidades de grandeza”, diz David McCullough, o maior historiador americano vivo. No seu primeiro discurso anual de prestação de contas ao povo americano, Kennedy disse no tom sombrio mas confiante e mobilizador de Churchill: “Eu falo hoje em um momento de risco, mas igualmente de oportunidade para a nossa nação. Antes mesmo que meu mandato termine, seremos submetidos de novo ao teste para avaliar se uma nação organizada e governada da nossa maneira pode sobreviver. A resposta não é óbvia. O governo, o Congresso, esta nação terão de gestar a resposta”.

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O mundo estava dividido em dois blocos opostos montados em arsenais nucleares capazes de destruir-se mutuamente e ao planeta dezenas de vezes. Logo um muro dividiria Berlim, a capital da Alemanha, o coração da Europa, em um lado oriental, pró-soviético, e em um lado ocidental, pró-americano. O Muro de Berlim era apenas a parte mais visível da Cortina de Ferro, atrás da qual a União Soviética exercia seu poder totalitário sobre os povos do Leste Europeu. Quase todos os países, com exceção talvez apenas da orgulhosa Finlândia, tinham de optar por cair na órbita americana ou na órbita soviética. Não havia escolha. A neutralidade não era uma opção. O discurso de Kennedy reconhecia esse estado de tensão aguda e, ao recorrer à retórica de Abraham Lincoln no discurso de Gettysburg (“Essa grande guerra civil é um teste que porá à prova se uma nação como a nossa… pode durar muito tempo”), o equiparava aos momentos mais dramáticos da história americana. A qualidade literária, aqueles interstícios do discurso que precisavam ser preenchidos com ideias e emoções, o presidente buscou na peça Júlio César, de William Shakespeare, em que o místico aparece no meio da multidão para alertar o imperador sobre os perigos dos idos de março. Kennedy diz que o grande teste de solidez democrática para a nação americana virá “antes que meu mandato termine”. Esse trecho lido depois do que ocorreu há meio século na Dealey Plaza, em Dallas, numa se­xta-feira 22 de novembro, é de dar calafrios em quem acredita em premonições.

O assassinato de Kennedy pelo louco Lee Oswald foi um duro teste para o sistema americano. O vice-presidente Lyndon Johnson tomou posse no mesmo dia, jurando sobre um missal, perante uma juíza federal do Texas, no gabinete de despachos do Air Force One, o Boeing 707 presidencial estacionado no aeroporto. Johnson estava ladeado pela mulher, Lady Bird, e por Jacqueline Kennedy, ainda com o tailleur rosa sujo de sangue do marido. Convidada a trocar de roupa antes da posse, ela se negou exibindo as luvas e olhando fixamente para o grupo de texanos que cercava o casal Johnson: “Quero que eles vejam o que fizeram”. Quem são “eles”? Essa pergunta começou a viajar pelo mundo na velocidade dos telefones e telex de então. Nunca mais parou. “Eles” podem ser desde os texanos de Johnson, a CIA e o FBI até os comunistas russos, os cubanos de Fidel Castro, os maçons, os sindicatos. Mas “eles” pode se referir também aos integrantes do poderoso “complexo industrial-militar”, preocupados com a pregação pacifista de Kennedy, e, claro, aos próprios militantes pacifistas, temerosos de que o presidente aprofundasse a intervenção militar americana no Vietnã. Não podem ser esquecidos, ainda, os suspeitíssimos refugiados cubanos concentrados em Miami. Eles odiavam Kennedy pela negativa de apoio aéreo à fracassada operação de invasão da ilha por paramilitares na Baía dos Porcos. Enfim, nos mais de 10 000 livros sobre Kennedy, a maioria focada no assassinato, as teorias conspiratórias podem ser contadas às centenas. Se, caricaturalmente, todas fossem verdadeiras como querem seus postuladores, a Dealey Plaza, no centro de Dallas, onde a limusine presidencial com John e Jacqueline Kennedy, o governador John Connally e sua mulher, Nellie, e os dois agentes secretos foi alvejada, seria uma verdadeira galeria de tiro. Para os conspiracionistas, todo mundo ali pode ter matado Kennedy e ferido Connally, menos, é claro, Lee Oswald.

Quais as provas contra Oswald? São dezenas, mostra um dos mais experimentados promotores criminais dos Estados Unidos, Vincent Bugliosi, autor de Quatro Dias em Novembro, o relato mais profissional e desapaixonado sobre a morte de Kennedy. Oswald comprou o fuzil, que sabia manipular com precisão. Oswald foi visto na janela do 6º andar do lugar onde trabalhava, o Depósito de Livros do Texas, o único ângulo possível de partida dos tiros que produziram os ferimentos em Kennedy. Oswald foi o único funcionário do depósito que não estava na contagem feita pela polícia e pelos agentes do FBI depois dos tiros. Oswald odiava Kennedy e tudo o que fosse americano, já tendo usado o mesmo fuzil para tentar matar um general reformado do Exército. Ele foi visto transportando o fuzil para o prédio do depósito embrulhado em papel dizendo que se tratava de suporte de cortinas. Os investigadores encontraram impressões digitais de Oswald no fuzil e uma fotografia em que ele posa para a mulher empunhando a arma com que matou Kennedy. Mas não foi ele o assassino, sustentam os conspiracionistas. Foi Johnson, ou a máfia, ou Fidel Castro, ou a mulher não identificada com um lenço na cabeça que aparece nas fotos fotografando a limusine e sinistramente apelidada de “Babushka”, para sugerir a participação dos russos no assassinato (afinal, Oswald morou na União Soviética e se casou com uma russa).

“Se a vítima não fosse o presidente da República, esse crime teria sido dado como solucionado no primeiro dia. Se Lee Oswald não matou Kennedy em Dallas no dia 22 de novembro de 1963, então Kennedy não morreu ali”, diz Bugliosi, com autoridade do promotor que conseguiu mais condenações na carreira e foi responsável pela sentença de prisão perpétua para Charles Mason, o maluco autor do massacre em que morreu a atriz Sharon Tate. As teorias conspiratórias já se incorporaram ao mito de Kennedy. Elas não vão sumir e podem até se multiplicar. Simplesmente, a mente humana não consegue acomodar a ideia de que um joão-ninguém como Oswald possa ter liquidado uma figura da estatura de Kennedy, herói de guerra, presidente mais carismático que os Estados Unidos já tiveram, homem mais poderoso do mundo. A tendência psicológica natural é procurar uma razão para a morte que tenha a mesma envergadura do presidente. Muitos dos que aceitam que Oswald puxou o gatilho do fuzil de onde saiu a bala que matou Kennedy se recusam a aceitar que ele agiu sozinho. Uma comissão do Congresso que reabriu as investigações em 1976 concluiu que havia mais atiradores na Dealey Plaza. A prova foi uma gravação feita do rádio de um dos policiais em que uma perícia acústica mostrou quatro estampidos – e não três. Meses depois de escrita a conclusão final da comissão, a prova acústica foi revista por especialistas com métodos mais precisos e desprezada. Tarde demais, a comissão já havia encerrado seus trabalhos.

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