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Mais de 200 manifestantes são presos em ato de apoio a jornalista russo

Entre os detidos estão o opositor e ex-candidato à Presidência Alexei Navalny e jornalistas da imprensa nacional e internacional

Mais de 200 manifestantes, entre eles o líder opositor Alexei Navalny, foram presos nesta quarta-feira, 12, em Moscou, durante um protesto de apoio ao jornalista Ivan Golunov, acusado de tráfico de drogas e, posteriormente, liberado.

As autoridades não tardaram em acabar com a manifestação, que não recebeu autorização da prefeitura. O protesto foi convocado em meio a uma mobilização quase sem precedentes da sociedade civil para obter a libertação do jornalista investigativo.

A polícia anunciou em um comunicado que realizou mais de 200 detenções durante essa passeata não autorizada contra a suposta impunidade e corrupção das instituições responsáveis pelo cumprimento da lei.

Entre os presos está Alexei Navalny, principal opositor ao Kremlin e alvo de uma série de processos e prisões nos últimos anos. Ele se concorreu à Presidência em 2017, mas teve sua candidatura anulada pelo governo.

“O poder tem medo da demonstração de solidariedade fantástica e unânime no caso Golunov. É, portanto, importante para eles destruir primeiro a solidariedade geral, para depois intimidar e prender aqueles que insistem”, declarou Navalny no Twitter.

Vários jornalistas, incluindo colaboradores do jornal opositor Novaia Gazeta, do jornal Kommersant e da revista alemã Der Spiegel também foram presos.

Quase 1.000 pessoas se reuniram no centro de Moscou e outras 100 em São Petersburgo, a segunda maior cidade do país, em resposta ao caso que provocou uma grande mobilização da sociedade civil.

“O que aconteceu com Ivan Golunov ocorre todos os dias em todo o país. Há várias histórias de drogas (falsas) como esta. Tivemos a sorte de que o soltaram, mas foi apenas uma pequena vitória. A guerra não foi vencida”, afirmou Egor, de 15 anos e que usava uma camisa com a frase “Eu sou Ivan Golunov”.

“Vim porque ainda temos muitas pessoas detidas injustamente. Há muitos casos injustos”, afirmou Liudmila, uma engenheira aposentada de 83 anos.

O Kremlin havia dito na terça-feira 11 que temia que a passeata “atrapalhasse a atmosfera festiva” desta quarta-feira, 12, feriado que celebra a independência da Rússia da URSS.

Preso em 6 de junho em Moscou por policiais que afirmaram ter encontrado grandes quantidades de drogas em sua mochila e depois em seu apartamento, Ivan Golunov foi colocado em prisão domiciliar no sábado 9.

Na terça-feira, as autoridades russas retiraram as acusações de tráfico de drogas e o deixaram em liberdade.

Desde quinta-feira da semana passada existiam muitas dúvidas sobre as circunstâncias da detenção e a veracidade das acusações contra o jornalista do site independente Meduza, conhecido por reportagens sobre casos de corrupção que envolvem autoridades e matérias sobre fraudes em setores como o microcrédito.

O jornalista de 36 anos saiu da delegacia e, sem conter as lágrimas, agradeceu a solidariedade nacional e internacional. Ele prometeu prosseguir com seu trabalho.

Uma investigação foi aberta sobre os policiais que prenderam o jornalista – os agentes permanecerão afastados das funções durante o inquérito. Além disso, dois comandantes da polícia moscovita foram demitidos.

Esta é uma decisão quase sem precedentes na Rússia, onde as forças de segurança e a polícia geralmente são acusadas de inventar casos de drogas para atingir vozes críticas e as absolvições são incomuns.

A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), apesar de comemorar o “nível histórico de pressão da sociedade civil russa” pela libertação de Ivan Golunov, lembrou que seis outros jornalistas permanecem detidos por várias acusações na Rússia.

“A prisão de Ivan Golunov destaca a completa impunidade de policiais corruptos”, disse a RSF em um comunicado. “Se o comportamento deles chocou Moscou, é bastante comum no resto da Rússia”.

O caso do jornalista provocou uma rara onda de solidariedade, com o apoio da parte de cidadãos comuns, de jornais independentes, da mídia estatal, além de artistas e até alguns políticos de alto escalão.

(Com AFP)